Seminário Internacional Desfazendo Gênero

O Seminário Internacional Desfazendo Gênero aconteceu faz pouco (de 04 a 07 de Setembro) em Salvador, Bahia, e contou com a presença da feminista rockstar/papisa da teoria de gênero Judith Butler. A ‪#‎CDMJ‬ pode ainda não estar em todas – mas lá a gente estava: nossas correspondentes exclusivas Beatriz Demboski Burigo e Jéssica Daminelli compartilham suas impressões nesse post (as imagens também são delas.)

 

 

A Cidade das Mulheres Negras: uma pequena/grande reflexão durante o Desfazendo Gênero em Salvador

“Enquanto rainha Quelé, Rainha Quelé limpa fossa de banheiro…” – Marcelino Freire

Em números, segundo o IBGE, a diferença populacional entre mulheres e homens da capital da Bahia, é pequena: as primeiras representam um pouco mais de 53% da população total e os segundos, 46%. Mas o que vimos e sentimos ao andar pelas ruas de Salvador, ao caminhar pelas praias, ao tomar ônibus e ser atendidas nos estabelecimentos comerciais foi a presença de muitas mulheres, que parecem constantemente construir a cidade para si ao mesmo tempo que “rebolam” para sobreviver em uma cidade que não foi construída para elas. A maior parte dessas mulheres é negra – assim como a maioria daquela população – e trabalhadora. Durante os dias da semana, todas pareciam caminhar para seu destino, bem norteadas, nenhuma delas de bobeira, passeando como nós. Essa percepção talvez só se fez tão palpável quando tivemos a chance de conhecer uma outra cidade: a universidade.

 

 

O lugar da grande população negra, dos e das vendedoras ambulantes, das empregadas domésticas, das pessoas que pegam ônibus diariamente, dos e das pedintes de esmola, havia desaparecido. Ao mesmo tempo, sendo um campo das ambivalências e complexidades, este espaço universitário se tornou maravilhoso: o Terceiro Seminário Internacional Desfazendo Gênero – sobre ativismos das dissidências sexuais e de gênero – construiu um ambiente de pleno debate sobre os mais diversos temas que permeiam os assuntos de gênero, feminismos e teorias queer. Talvez por essa experiência nos ter marcado tanto, não vejo como iniciar uma análise da percepção geral que tivemos sobre o evento sem ser pelo seu último dia.

O encerramento aconteceu no Largo Tereza Batista, no Pelourinho, com uma festa e música ao vivo, mas chegou a ser desinteressante perto da assembléia feita em pátio aberto na Universidade Federal da Bahia, onde as e os participantes do seminário tiveram a oportunidade de discorrer sobre suas perspectivas a respeito do evento. Foram diversos elogios e muitos apontamentos críticos, os quais merecidamente receberam ouvidos atentos e respostas democráticas, por parte das e dos colegas e organizadoras e organizadores. Uma das coisas mais gratificantes dos quatro dias de evento (apesar de contratempos e opressões cotidianas que também aconteceram por lá, afinal é difícil conseguir um descolamento social pleno) foi ver as pessoas interessadas e pesquisadoras procurando se esforçar ao máximo para rever seus privilégios e exercitar a ‪#‎interseccionalidade‬ em suas atitudes.

Judith Butler, em sua conferência de abertura, pontuou a importância da materialidade das ações que buscam modificações efetivas nas relações de gênero e de dissidências, ao mesmo tempo em que essas próprias ações acabam por teorizar e se tornar arcabouços das transformações sociais. Ela também falou sobre ações correntes de resistência de corpos em campos políticos e afirmou que é aí que se encontra o ouro do funcionamento das grandesnegociações e tomadas de espaço. Por fim, do alto da escadaria dos nossos mais diversos privilégios, percebemos atitudes críticas (e lindas) também direcionadas aos estudos ocidentais canônicos, e em diversos momentos das mesas redondas e simpósios temáticos – principalmente por parte dos movimentos negros presentes, que através de palavras e atos performáticos, fizeram exatamente o performatizar de seus corpos para demarcar essas situações sociais, políticas e acadêmicas de diferença e exclusão, que também transpassavam o ambiente tão cheio de diversidade e pretensão de inclusão do Desfazendo Gênero.

O evento terá sua próxima edição no interior da Paraíba, em Campina Grande, onde pretendemos estar para ver tudo isso de novo e mais um pouco, e sairmos destas experiências, mais uma vez, desparafusadas.

 

 

 

 

 

 

 


 

Por Beatriz Demboski Burigo e Jessica Daminelli

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