O lampejo feminista 2

Já nasci com esse lampejo. Acho que herdei de minha mãe que, em grau menor, com certeza, também foi alvo do mesmo lampejo quando em 1963, com 17 anos, saiu da casa dos pais para trabalhar, uma evolução para a época no interior do interior do interior do Rio Grande do Sul, onde as moças que saíam da casa dos pais antes do casamento eram mal-vistas.

Nunca foi fácil para eu sustentar esse lampejo, e a época mais difícil foi na adolescência, quando, conscientemente, decidi que queria ter a mesma liberdade que os rapazes, participando da vida social sem o acompanhamento dos pais e em horários “impróprios” para moças.

Esta minha postura foi suportada com muitos desentendimentos por parte dos meus pais e muitos falatórios por parte dos parentes, principalmente.

Esses problemas amenizaram-se quando da minha formação no Magistério e imediata nomeação para o cargo de professora, aos 18 anos. Acho que o fato de seguir uma profissão própria para boas senhoritas me rendeu alguns perdões. Nem os parentes e nem os pais de minhas alunas sonhavam que eu tentava promover o empoderamento feminino e o fim do machismo perante meus alunos. Mas hoje já estou experimentando a terceira profissão.

Fui caroneira pelas estradas do interior numa época em que não existia grupo de WhatsApp e nem Facebook; ia só no dedo mesmo. Claro que numa dessas jornadas, o senhor que me deu carona sentiu-se no direito de tentar abusar sexualmente de mim. O senhor, conhecido e respeitado por ser uma pessoa ~corretíssima, um exemplo de vizinho, pai, esposo e padrinho, perguntou se eu gostaria de aprender a dirigir. Claro que aceitei, nunca tinha dirigido e não poderia perder a oportunidade, só estranhei o fato de ele pedir para que eu não contasse para sua mulher. Trocamos de lugar e dei a partida, porém, não me saí muito bem e, o bom senhor sugeriu que poderia sentar atrás de mim, no mesmo banco, a fim de me auxiliar. Na época contei, chorando, somente para a pessoa que me hospedava em sua casa durante a semana para lecionar. Era afilhada dele e ficou pasma. Só. Nunca mais falei sobre isso com ninguém, essa é minha primeira revelação. Se isso tivesse ocorrido alguns anos depois, com certeza eu teria prestado queixa-crime. Agora ele já morreu.

Contrariei o desejo de minha mãe ao não casar com o primeiro namorado, nem com o segundo, nem com terceiro e nem até hoje. Tive meu filho solteira e o criei muito bem, com o auxílio financeiro e emocional de meus pais, que a essa altura desistiram da moça prendada. Minha avó materna olhava para mim e chorava por pena: “o que será desta infeliz?” Ela eu entendia. Nunca fiquei magoada com ela. Chorei muito porque meu tio amado, que eu considerava um segundo pai, proibiu minha prima de conviver comigo. Quando meu filho nasceu ele foi me visitar no hospital. Claro que o perdoei, e hoje ele tem um lindo reconhecimento pela minha pessoa e pela do meu filho.

Sempre foi vontade de meu filho conhecer seu pai e eu o procurei por dezesseis anos. A essa altura da minha vida eu já havia decidido que não queria mais ficar “solteira”, me rendi à paixão, pois o amor é sempre bem vindo. Conheci meu namorido em Outubro de 2002 e em 6 meses já estávamos dividindo o mesmo teto. Ele sempre apoiou a minha busca pelo pai de meu filho. Mas decepcionei-me com duas pessoas neste pleito. Primeiro foi com meu professor na faculdade de Direito. Ele era promotor de justiça e eu solicitei sua ajuda. Não me recordo das palavras que ele utilizou, mas durante uma aula mencionou que as mulheres saem “dando por aí e depois batem na promotoria exigindo direitos”. Outra decepção foi quando solicitei, à juíza da cidade, minha dispensa do trabalho de mesária a fim de ir em busca do pai de meu filho, pois eu havia descoberto sua mesa de votação e no dia das eleições eu o surpreenderia no local. O pedido foi negado porque não haveria tempo de substituição. Como eu mesma levei em mãos o nome e declaração de disponibilidade de uma pessoa a me substituir, a juíza concordou. A mesma juíza indeferiu o pedido de envio de carta precatória à comarca do pai de meu filho, a fim de que o juiz da mesma determinasse o acompanhamento de um oficial de justiça para que o procurado fosse citado na oportunidade em que eu o encontrasse. Postura lamentável, principalmente sendo de uma mulher. Mas fui, o encontrei e o resultado é que hoje meu filho conhece seu pai.

Durante o amadurecimento de meu relacionamento, o que coincidiu com a faculdade, fui quebrando outros paradigmas e até interessei-me pela causa feminista, realizando o trabalho de conclusão de curso com o tema “RELAÇÕES DE GÊNERO NO COTIDIANO FORENSE – UMA FORMA DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER”. Note-se que fui diretamente e positivamente influenciada pela professora Rosangela Montanher, a qual foi minha orientadora na realização do TCC. Não sou militante porque não sou altruísta ao ponto, pois militar implica doar-se à uma causa e ao próximo. Mas egoisticamente sou uma guerreira. Por mim continuo na busca bela libertação feminina.

Meu “namorido” foi partilhador de muitas idéias minhas e co-autor de muitas atitudes, contudo ainda lhes restam algumas posições machistas. Diz que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, inclusive em se tratando de direitos sexuais, porém acha “feio” mulher “galinha”, enquanto que homem “galinha” é normal. Mas o parabenizo pelo fato de ter se permitido experimentar um tipo de “relacionamento aberto” comigo, com os mesmos direitos para ambos. Os resquícios de machismo sobrepuseram-se e a experiência, ao final, resultou traumática. Mesmo assim considero válido e não deixo de reconhecer as qualidades de meu companheiro.

Certa vez falei ao meu “namorido” que quando eu estivesse atuando como advogada eu buscaria judicialmente os direitos dentro de uma união poliafetiva para quem por isso se interessasse. Hoje isso já é possível no Brasil e, discutindo com meu filho que está cursando Ciências Sociais, falei-lhe dessa minha idéia. O mesmo não ficou surpreso e eu sabia que não ficaria, pois em outra oportunidade ele disse que cada vez mais sente orgulho de ser meu filho quando conversamos sobre temas polêmicos. Se fosse uma filha mulher, seria da mesma forma, porém com um diferencial, pois segundo o Direito Doutrinário, devemos tratar diferente para que se possibilite a igualdade.

Tomei uma decisão que só quem transcende o papel definido para as mulheres durante anos toma. Adiei uma segunda gravidez para depois que eu tivesse um diploma e não só, também para depois que eu estivesse trabalhando na área em que me formei.

Claro que as escolhas que fizemos sempre acarretam em conseqüências, e nem todas são boas. No meu caso, a espera resultou na menopausa precoce. Se não tivermos um filho naturalmente, adotaremos e o amaremos da mesma forma.

Fiz outra escolha que foge dos padrões de família, pelo menos da “família” do deputado federal Anderson Ferreira: mudei-me para Porto Alegre a fim de exercer minha profissão sendo que meu “namorido” continua em São Francisco de Assis. Não são todas as pessoas que se submetem à distância dos seus, principalmente quando esta pessoa é uma mulher.

Esse são pontos dos quais eu me lembro, mas minha vida sempre foi uma luta constante pelos direitos da mulheres. Se eu atingir o objetivo para comigo mesma, já está de bom tamanho – mas se outras puderem se espelhar, melhor ainda.

 

Por Sil Lambert
Imagem FEMMA Registros Fotográficos.

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