Mexeu com uma mexeu com todas

Mexeu com uma, mexeu com todas!

Dentre tantas causas que gritei na vida, a que mais me toca calei. Assim como milhares de meninas e mulheres brasileiras conheço o machismo e o assédio desde a tenra idade. Primeiro no olhar dos outros, depois, no meu próprio olhar. No caminho para escola, na sala de aula, no ônibus, no Centro, no meu último trabalho, no olhar de algum namorado. Ali estava. Ali senti. No entanto, o mais cruel e implacável foi o meu próprio machismo: roubando-me a chance de estar menina acreditei que em menino seria mais livre, mais forte e mais capaz. Por algum tempo transitei melhor nos artigos masculinos: o moleque, o menino, o vento. Tudo era mais fácil, não fosse tão duro colar na pele esta máscara que escondia quem ainda estava por vir. Quando somos tocadas pelo que deveria ser interditado, quando acreditamos que temos culpa pelo que nos fere, dá medo ser menina, dá medo ser mulher.

Nenhum homem é capaz de entender a idiossincrasia desta caminhada. Do feminino para o feminino. Que deixou de ser dança para tornar-se marcha.

Mulheres por vezes tão feridas buscam guarida nos simbolismos do outro gênero para poder lutar. E quantas de nós amortece a dor para poder seguir. Ficamos cegas, ficamos surdas e terminamos recapadas de uma casca grossa para que as generosas moléstias cometidas não nos firam a pele.

Saberão nossos pais, filhos ou companheiros as porções de loucuras a que somos submetidas? Entenderão nossos erros, nosso vigoroso silêncio ou nosso estridente grito? Porque já não é mais possível seguir em marcha. Eu prefiro retomar a dança, certa que em minha flexibilidade terei chance de sobreviver.

Estamos estampadas junto a tantas mercadorias baratas, nos tornamos este espelho da mulher objeto. Que em objeto é agredida e no contraponto dele, também. Nem barangas, nem gostosas. Somos nossos possíveis.

Nossos corpos estão em galerias de arte, mas nossos nomes não. Nossas formas são letras de músicas, mas nossos arranjos não. Não assinamos nossa própria beleza. Nem beleza, nem feiura. Somos nossos possíveis.

Nós deveríamos amar a nudez mais do que os homens. Ela nos permite tantas graças, nos é sagrada: do prazer a maternidade. Mas a nossa nudez também é cultuada como uma graça aos homens. E eles amam a nudez, desde que não seja “da sua mulher”. A “sua mulher” é aquela catalogada como mulher de família e por meio desta chancela ganha uma proteção para não ser importunada, tocada ou violada. Todas as outras são patrimônio público. Merecem os gritos, os olhares e os comentários que qualquer objeto em cena possa merecer. E como objeto vamos marchando aos olhos dos outros.

Quero me permitir ser protagonista da minha cena e me permitir ser objeto quando bem entender. Eu prefiro ser meu próprio patrimônio, ainda que com todas as dificuldades e idiossincrasias das minhas loucuras de alma e de mente.

Nasci poderosa de mim como todas as mulheres. E fui me quebrando vivendo, como tantas…

 

Por Martinha Dueñas

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