Baby-pod e o controle do corpo da gestante

Baby-pod é um mix de caixa de som e dispositivo vaginal, criado para que a mamãe toque música para o bebê sem que o som seja distorcido.  O produto pode até parecer simpático, e é sempre bom lembrar que cada mulher tem o direito de enfiar caixas de som onde quiser, contanto que a decisão (como o corpo) seja dela. Mas é bem menos inocente do que parece.

Não vou sequer entrar nos méritos da interrupção da paz fetal e eventuais implicações à saúde e bem-estar desta criatura sem sossego desde o útero. Deve haver um bom motivo para que o isolamento acústico natural do espaço seja tão bom.

Em seu romance de ficção científica A Handmaid´s Tale, Margaret Atwood descreve uma sociedade do futuro onde, em consequência de questões ambientais, a maioria das mulheres tornou-se estéril. A capacidade reprodutiva das poucas mulheres que tiveram sua fertilidade preservada passa a ser controlada pelo Estado. Vivemos em uma época com alguns paralelismos. A queda da fertilidade e da natalidade nas sociedades industrializadas, decorrente de fatores sócio-ambientais, tornou a gravidez super-valorizada… e pública.

Mas se nosso cenário é tão tenebroso quanto o de Atwood, a co-autoria do capítulo onde nos encontramos parece ser de Orson Welles. Se no livro da primeira o controle do corpo da mulher era estatal, na nossa realidade estamos sujeitas aos players ocultos das redes sociais e à fiscalização constante – e com o nosso aval! – de cada momento de nossas vidas privadas, com direito a imagens in real-time.

Estamos demorando para reagir a essas novas e mascaradas imposições, recheadas de palavras de ordem contemporâneas, “saudável”, “natural”, “estímulo”, interativo” e, claro, muitos likes. E, bem devagarzinho, estamos assistindo a um enorme retrocesso. Só trocamos o cabresto. Novamente, existe o jeito certo de transar (tem dia certo e posição certa, querida, veja no site Bebê X), de engravidar, de parir, de alimentar seu filho… e tudo isso é vendido como uma espécie de Kit da Boa Mamãezinha.

Para ser uma Boa Mamãezinha é preciso consumir todos o produtos destinados ao público peri-natal. Compre um epi-no, uma bombinha de tirar leite, conchas para os seios, um sonar para ouvir os batimentos cardíacos, aquela babá eletrônica com vídeo e detector de movimentos, uma redinha para que seu bebê possa chupar frutas sem sufocar com os pedacinhos, um aquecedor de lencinhos para o bumbunzinho no nosso calor de 40 graus…

Consuma bastante. Seja uma Boa Mamãezinha.

Mas não se assuste se, daqui a pouco, formos cobradas: “mas porque não aproveitou para colocar aquele curso de Mandarim infantil no Baby-pod? É o idioma do futuro, e quanto mais cedo começarmos melhor. Você não vai querer comprometer o futuro do seu bebê já dentro do útero, vai?”

Seja uma Boa Mamãezinha.  Compre.

“Vi até que você pode baixar no iTunes uma seleção de músicas especiais para bebês que certamente transformará o seu no próximo Einstein. Nada de Tati Quebra Barraco, querida!”

O resultado disso é que um número significativo (vamos com 90%) das minhas pacientes gestantes me contam – envergonhadas! – que estão preocupadas porque não conversam com suas barrigas. E, evidentemente, não existe problema algum em conversar com seu bebê na sua barriga, claro que não – mas as mulheres têm tempos e variáveis diferentes no estabelecimento de vínculo com a criança e, se não fossem cobradas a sentir e fazer um milhão de coisas pelos milhares de sites, livros e blogs para mamães e bebês, talvez não pensassem em conversar com a pança mais do que pensam em falar com os dedos dos pés.

Minhas pacientes perguntam muitas vezes porque não choram no ultrassom, porque não sentem instinto maternal, porque não isso, porque não aquilo…  resumindo: elas nem deram à luz e já se sentem péssimas mães.

Cada uma tem seu jeito, seu estilo, seu tempo. Isso não vale só para o homem, sobre o qual aceitamos frases como “fique tranquila, querida, homem geralmente não curte muito essa fase de bebezinho, quando crescer ele vai se envolver mais”.

Quando fiquei grávida pela primeira vez, recebi de presente de minha mãe o livro Um Amor Conquistado: O Mito do Amor Materno, de Elisabeth Badinter. Demorou um pouco para eu entender… Mas hoje digo: obrigada, mãe. E no meu Baby-pod só toca funk.

 

Por Dra. Diana Vanni

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