Carta aberta ao privilégio

Olha só, senhor prudente/tradicional/classe-média/hetero cis branco e da geração anterior à minha, vou lhe falar mais esta vez e prometo que você nunca mais ouvirá palavra alguma de minha boca. Não para você, mas para os teus, para aqueles que, como tu, me olham de cima e vomitam discursos verticais, para estes continuarei gritando e dizendo: NÃO!

Hoje, bem hoje, neste dia, olho em teus olhos – estes que, fisicamente não estão aqui, mas que ainda me vem à retina como se aqui estivessem. Ai, ainda me dói o rememorar teu olhar de repreensão, de pura não-aceitação do ser que sou. E eu ali, petrificada de medo. Sua reprovação me ardia, me estremecia, porque eu aprendi a calar, a consentir, a nunca reagir frente à gente como tu. Quem me ensinou tal subjugo? Nem sei! Eu, mulher pobre negra, sempre soube agir assim.

Agora, vociferando, lhe digo: nunca mais grite comigo, nunca mais! Nunca mais me diga o que fazer, nunca mais! Nunca mais use suas palavras pra me descrever, me deslegitimar, nunca mais! Nunca mais julgue meu caráter pela minha liberdade sexual, ambos pertencem a mim e tu não tem nem o que achar, porque aqui tu nunca perdeu nada.  O que sabe você sobre mim? Nada. Você, sobre mim, é pra sempre NUNCA MAIS.

De toda forma, deixo aqui bem claro, não espero aprovação de boçais. Os conheço bem e sei que estás entre eles. Sei e sei mesmo – com clareza imensurável – que são teus comuns os que se fazem presente na Câmara e no Senado. Lá estão eles, diariamente, a buscar a maneira mais efetiva de findar com toda a dignidade e alegria de vida daqueles que não são seus iguais – os diferentes de vocês, os que não compactuam com o absurdo costume de ceifar direitos da população.

Vocês tentam nos derrubar, tentam sim. Mas sinto lhe informar: tijolos juntos formam muralhas também. E no nosso caso, essa muralha cerca um mundo que tu não ordena, sobre o qual tu não tem poder, onde tu não dá palpite. Nesse mundo tua postura não é aceita. Nesse mundo esse tu nem existe!

 

Por Sandra Cecília Peradeles

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