Retrospectiva 2015

Que ano, gentes. Que ano! Não podemos negar que 2015 foi agitado – particularmente para quem é feminista: os temas mulheres e gênero pautaram conversas todos os meses, das mídias às mesas de bar, com #hashtags ou nas ruas, fosse o assunto política ou publicidade. Entre discursos históricos em premiações glamourosas e meninas fazendo história por direito a educação não faltaram altos e altos, e uma coisa ficou evidente: a voz das mulheres ecoou, angariou companhia pesada, e o barulho feminista parece ter vindo para ficar.

A Casa da Mãe Joanna também abriu as portas e janelas em 2015: era Maio quando começamos um grupo secreto de Facebook, e em Outubro – por conta do trabalho lindamente colaborativo feito por um time engajado de feministas fantásticas – nosso site e redes sociais estavam no ar. Isso nos possibilitou observar, ainda mais de perto, os fenômenos que compuseram o que vai ficar marcado na história do Brasil como “o ano da #PrimaveraFeminista”.

Vem com a gente relembrar os momentos que nos encheram de esperança e solidificaram o espírito da sororidade para, juntas, fazermos a luta em todas as estações de 2016. Avante! <3

MÍDIA

A mídia sempre foi alvo de crítica feminista. Pudera: entre campanhas publicitárias milionárias, notícias viralizadas, e filmes premiados, os veículos midiáticos sempre esbanjaram misoginia. Em 2015 não foi diferente – mas neste ano, com mais força do que nunca, o impacto da resistência feminista pôde ser notado, e quaisquer deslizes machistas foram devidamente registrados nas redes sociais.

O gif acima, viral em fevereiro, mostra a reação de Meryl Streep e J.Lo ao discurso de Patrícia Arquette, que ao receber seu Oscar de atriz coadjuvante por Boyhood, falou a respeito de igualdade salarial: “É tempo de todas as mulheres da América e de todos os homens que amam mulheres, e todas as pessoas gays, e todas as pessoas de cor por quem lutamos, lutarem por nós”. Sua fala abriu precedentes para que a acusassem de “Feminismo Branco“, o que fazia bastante sentido, e gerou poucas brigas, bons debates e importantes ensinamentos sobre interseccionalidade. Onde? Na Interwebz feminista, evidentemente.

Mas não foi apenas na cerimônia do Oscar que vimos feminismo em ação: alguns filmes lançados em 2015 causaram furor nas redes por seus roteiros empoderantes e protagonismo de mulheres. Em Mad Max: Estrada da Fúria, o plano da Imperatriz Furiosa era salvar mulheres de uma gang de machos. Katniss Everdeen enfrentou – e derrubou – o patriarcado presidente Snow no último episódio de Jogos Vorazes: A Esperança. De Cabeça Erguida foi o filme de abertura de Cannes – o primeiro dirigido por uma mulher, na 68ª edição do festival… O documentário What Happened, Miss Simone?, sobre a diva das divas Nina Simone, deixou todo mundo grudado no Netflix por semanas.

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No Brasil, Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, agradou público e crítica por sua intricada e delicada história das relações de classe entre mulheres. O longa foi o escolhido para representar o país na disputa do Oscar, e o sucesso do filme – e de sua diretora – incomodou machistas. Muylaert afirmou em entrevista: ‘Mulher que faz sucesso é entendida como perigosa‘… Já no documentário Malala, a icônica jovem que foi vítima e hoje é algoz do Talibã exalta a coragem que existe em todas nós. Dois lançamentos fecham o ano com chave de ouro: Star Wars: O Despertar da Força apresentou a primeira protagonista mulher da saga (assista aqui ao programa Cinemão sobre o filme) e, nos cinemas dia 24/12, entram As Sufragistas, misturando ficção e realidade ao contar a história da luta pelo voto universal liderada por Emmeline Pankhurst – assista ao emocionante trailer aqui.

Não foi somente nas telonas que heroínas feministas brilharam, e três seriados causaram burburinho nas redes por suas personagens inspiradoras de arcos tocantes. Grace and Frankie é sobre duas mulheres maduras que, abandonadas pelos maridos depois de décadas de casamento, desenvolvem amizade e sororidade uma com a outra. A maravilhosa Jessica Jones é a heroína da Marvel que confronta um trauma do passado: Kilgrave, o homem que a manteve por anos em um relacionamento superabusivo (controlar mentes é o superpoder deste vilão pra lá de icônico do machismo estrutural…). E a terceira temporada de Orange Is The New Black conseguiu superar as duas primeiras nos quesitos representação e tratamento respeitoso de temáticas delicadas, como estupro, transfobia, machismo e racismo institucionais.

Ainda falando em TV, a cerimônia do prêmio máximo das telinhas estadunidenses também emocionou: Viola Davis se tornou a primeira mulher negra a ganhar o  Emmy de melhor atriz de uma série dramática por seu trabalho em “How to Get Away With Murder”, popular série escrita pela sensacional Shonda Rhimes. Assista aqui ao poderoso discurso de Davis, no qual ela diz que a única coisa que separa mulheres negras e brancas são as oportunidade… De arrepiar!

Em Junho o canal GNT fechou parceria com ONU Mulheres e lançou o movimento #ElesPorElas no Brasil. Originalmente lançado em 2014 e estrelado por Hermione Granger Emma Watson, a ideia é engajar homens na ação pela equidade de gênero.

“Igualdade de gênero é assunto seu também”

Também pelas bandas do plim-plim, uma menina de dez anos deu uma lição de feminismo para quem assistia ao Encontro com Fátima Bernardes de 15/09, e assim nascia a #AnitaFeminista contestadora de estereótipos de gênero: “Eu acho que assim: tem a fase que quando tu é pequena, tu gosta de rosa e roxo. Mas quando tu cresce, tu pensa: Pô, que porcaria! Isso é uma coisa machista! Eu estou de azul, não gosto de rosa”. Anita é figurinha constante do Falo & Falo, e nosso especial de Dia das Crianças foi com ela!

Aurora, Marcos e Anita Piangers.
Aurora, Marcos e Anita Piangers.

Quem passou um trabalhão em 2015 com as feministas, no entanto, foram os publiSHITários (Liga das Heroínas neles!). Já em fevereiro o show de misoginia que são os anúncios de cerveja deu as caras com a campanha de Carnaval de uma marca que fez jus à fama de machista que a indústria leva: as peças sugeriam que deixássemos o “não” em casa durante as festividades. Mas os anúncios duraram pouco: a campanha foi lindamente interpelada por feministas, e subsequentemente retirada de circulação.

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Mas para desnaturalizar os machismos dos comerciais de cerveja, a Budweiser contratou uma atleta poderosa e demonstrou que a boa publicidade respeita a diversidade humana. Viva Ronda Rousey!

Budweiser: Ronda Rousey #SportsNights #ThisBudsForYou #UFC190

As águas de março ainda nem tinham fechado o verão (e, mais tarde, até aquela outra marca de cerveja que abusou da cultura machista e dos péssimos trocadilhos se viu obrigada a tirar a campanha misógina do ar) e várias feministas já estavam se organizando para combater o sexismo na publicidade, como fica explícito nesta matéria da Agência Patrícia Galvão.

Pois ainda assim uma marca de esmaltes lançou uma nova coleção chamada Homens que Amamos, que se propunha a fazer tributo aos “pequenos gestos diários dos homens” e homenagear “os homens que fazem a diferença na vida das consumidoras”. Os nomes dos esmaltes eram: André fez o jantar, Fê mandou mensagem, Guto fez o pedido!!, João disse eu te amo, Léo mandou flores e Zeca chamou pra sair – e a onda de contestação feminista que seguiu, e se organizou sob a hashtag #homensrisqué, expôs o óbvio: ser gentil ou expressar amor e interesse são premissas de relacionamentos saudáveis (e cavalheirismo também pode ser machismo), por isso não merecedor de homenagens.

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Imagens: backlash feminista no Twitter

 

Agosto é o mês do desgosto, já dizia minha bisavó – e nem mesmo os tesouros nacionais Ivete Sangalo e Bombril passaram impunes: o Conar apurou e tirou do ar uma campanha da marca, com a Rainha do Axé e Dani Calabresa, por fazer “deboche da figura masculina” ao dizer que toda mulher é uma diva, e todo homem é diva…gar.  O anúncio era ridículo, e conseguiu um feito inédito: aborrecer igualmente as feministas (por tratar igualdade de gênero como o dito deboche), e os homens mais apegados à noções de masculinidade tóxica… Por essa Carlinhos Moreno nunca esperou.

E em Setembro a rede Bob’s criou uma campanha pontual para o Rock in Rio, que passou vexame nas redes sociais. A peça publicitária que dizia “Não azare a mulher e muito menos o sanduíche dos outros” foi rapidamente exposta online pelo seu machismo, e a campanha (mais uma!) foi para o beleléu. Comemore a vitória feminista sobre o sanduíche misógino do rock com o show ma-ra-vi-lho-so que Queen RiRi fez no festival:

Já no mundo editorial, Caitlyn Jenner faz história ao assumir identidade feminina na capa da Vanity Fair. Conhecida até ano passado como Bruce, Jenner é medalhista de ouro para decatlo e atingiu fama globalmente por participar do reality show Keeping Up with the Kardashians, e é parte da (r)evolução no entendimento que precisamos ter sobre pessoas trans, juntamente com outrxs ativistas fenomenais, como Laverne Cox (de OINTB), Janet Mock, Buck Angel, Paris Lees, IndianaraAmanda Palha e Eric Seger (esse último, prata da Casa da Mãe Joanna <3).

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Imagem daqui.

Mas as bancas de revista brasileiras ficaram emocionantes, mesmo, em Novembro e Dezembro, quando a mídia nacional se rendeu à inevitabilidade da publicação de matérias sobre a sucessão de fatos feministas que ocorreram ao longo do ano. Sem perder a mania de querer colonizar o movimento (asondas feministas“, afinal, assim foram classificadas pela mídia – feminismo é tsunami, mídia: acostumem-se), criou sua própria hashtag, e este momento vai entrar para a história como a #PrimaveraFeminista.

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A #PrimaveraFeminista da mídia não ficou só nas revistas, no entanto, e ninguém menos que o plim-plim terminou o ano com não um, mas DOIS especiais sobre feminismo – e até mesmo os críticos mais ferrenhos do canal (oi) admitiram: O #EsquentaDasMina e o Profissão Repórter fizeram um excelente trabalho de representação. Assista Clara Averbuck do Lugar de Mulher e Luíse Bello do Think Olga la-cran-do em rede nacional aqui.

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Mas o que criou esse momento? Siga lendo!

MARCHAS E #HASHTAGS 

Há muito o feminismo vem fazendo barulho na Internet. A ~blogosfera e as redes sociais vêm servindo de espaço (mais ou menos seguro, e bem menos do que mais…) para debates, articulações e alianças, há mais de dez anos. Os críticos desta forma de fazer feminismo se pautam sempre na imaterialidade das redes – como se não fossem, de fato, pessoas que estivessem estimulando estas discussões atrás dos teclados… Em 2015 estes dois universos – separados apenas para quem não operava nem em um nem em outro – colidiram: tantas mulheres marcharam pelas ruas quantas usaram “#hashtags transformação” para manifestar suas dissidências.

Outubro viu o fenômeno da #PrimeiroAssédio (lançada por Juliana de Faria, fundadora do coletivo feminista Think Olga e criadora da campanha Chega de Fiu Fiu) em reação ao assédio sofrido online por uma participante (de 12 anos!) do programa de culinária MasterChef Júnior. Esta hashtag transformação já levantou mais de 100mil tweets relatando experiências de assédio sexual sofrido por mulheres enquanto ainda meninas, e foi notícia aqui e internacionalmente. Brazilian women resist

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Imagem Think Olga

~Tocados pelo #PrimeiroAssédio, alguns homens promoveram a hashtag #meaculpa, sob a qual artistas, músicos e psicólogos discutiram o papel deles no movimento feminista… Para muitas feministas, isso não passou de oportunismo. Logo depois surgiu a campanha #AgoraÉQueSãoElas. Iniciativa de Manô Miklos, a ação visava ocupar espaços tradicionalmente dedicados a homens em diversos veículos de comunicação; assim, jornalistas, colunistas e escritores se uniram à iniciativa cedendo seus espaços midiáticos para mulheres.

No mesmo final de semana em que a #PrimeiroAssédio estava bombando (que foi, muito coincidentemente, o mesmo que viu a inauguração desta Casa!), aconteceu o #Enem2015, e quem quer que tenha elaborado a prova estava prestando muita atenção no que dizia a Internê. Para a redação foi proposto que candidatxs discorressem sobre a persistência da violência contra as mulheres no Brasil – e quem estava acostumado a latir para silenciar e amedrontar feministas que levantam a bandeira da não-violência de gênero, ficou, literalmente, sem palavras. Se para ser feminista é preciso ser otimista, o Enem deste ano deu uma mãozinha e reforçou a fé na humanidade… e no potencial transformador do feminismo de internet!

Mas das muitas hashtags que uniram as mulheres na internet em 2015, o finalzinho do ano trouxe uma que demonstrou uma força particular: #MeuAmigoSecreto. Utilizada para expor comportamentos abusivos que configuram o que chamamos de machismo, e que frequentemente permanecem velados, o efeito da campanha foi uma catarse coletiva, que trouxe à tona revelações que surpreenderam apenas quem não está acostumado a sofrer violência de gênero. Mesmo sem apontar dedos (o “amigo” era, afinal de contas, “secreto”), cada postagem contribuiu um pouco para a construção de uma massa crítica discursiva que ajuda a evidenciar o quão sistêmico é o machismo e o quão naturalizados são os comportamentos misóginos. Esse amigo secreto não é nem amigo, nem secreto: é o próprio #patriarcado… 

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Imagem acima: Carolina Ito, do Salsicha em conserva

Já as #MulheresContraCunha tomaram as ruas para protestar contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), um dos autores do projeto de lei (PL 5069) que cria novas (e péssimas) regras para o atendimento a vítimas de abuso sexual.

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Imagem: @cdmj_gram – Emanuelle, Joanna, Mayara e Larissa, com amigos, na marcha das #MulheresContraCunha.

Milhares de mulheres participaram de outra marcha: a 5ª das Margaridas em Brasília. O movimento reuniu agricultoras, indígenas, quilombolas e sindicalistas, e a marcha trata de reivindicações históricas como agilidade na reforma agrária e igualdade de direitos.

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5ª Marcha das Margaridas

Em ainda outra marcha histórica, milhares de mulheres negras marcharam de todo o país até Brasília, pedindo por um Brasil mais inclusivo, e lutando contra o racismo, o sexismo e suas intersecções, sob a perspectiva antirracista e anti-sexista. A #MarchaDasMulheresNegras representa a luta delas pelo direito à vida e à dignidade humana – luta que é quase sinônimo de sobrevivência…

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Imagem: marchadasmulheresnegras.com

E ainda nas ruas – mas não em marcha, e sim no melhor espírito #Occupy – mais de 200 escolas estaduais foram ocupadas por alunos pedindo por aulas ( <3 ), o que gerou uma série de protestos estudantis nas principais vias da cidade de São Paulo. Isso porque o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, fechara mais de 90 escolas públicas. Após as reivindicações dos alunos, representados magistralmente por mulheres jovens, Alckmin anunciou a suspensão do plano de reorganização que previa o fechamento das escolas. As grandes protagonistas desta intervenção? As novinhas. Eis as imagens que emocionaram a nação:

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POLÍTICA

2014, foi um ano marcado por muita tensão nos debates de internet, especialmente aqueles associados às eleições presidenciais. Nas batalhas retóricas entre “petralhas” e “coxinhas” (reducionismos enfadonhos que felizmente perderam força ao longo do ano…) romperam-se relações, mas também promoveram novas alianças. De acordo com a socióloga Ana Emília Cardoso, no episódio #Retrospectiva2015 do Falo & Falo, talvez o ano anterior, de intensa polarização eleitoral debatida online, tenha promulgado de vez as redes sociais como fórum para debates políticos.

As feministas, para quem não apenas as redes sociais, mas toda a Internê já vinha cumprindo esse papel, tecnorganicamente tomaram a dianteira – e já na tarde do primeiro dia do ano fomos ao Twitter criticar a mídia. O motivo? Na cobertura da posse presidencial a imprensa deu ênfase, de forma desproporcional ao acontecimento político que estava acontecendo, às roupas de Dilma Rousseff – eleita em segundo turno e com pouca diferença de votos, no já mencionado tenso processo eleitoral do ano anterior. Foram engendrados, elogiosa ou ofensivamente, desde comentários sobre seus trajes e modos a comparações com Marcela Tedeschi Araújo Temer (esposa do vice-presidente Michel Temer) (que então sequer desconfiava que acabaria o ano motivando uma das #hashtags que o marcaram: #CartaDoTemer, em Dezembro).

Mídia machista! – bradamos. Alguns, como de costume, não entenderam. “Poxa, mas reclamam até quando é elogio?” disseram. E é aqui que vale ressaltar que o machismo precede o teor do comentário: ele é o próprio comentário. Pois ainda que fossem apenas elogios, o comentário seria sobre a aparência da presidenta; um presidente homem não passaria por este escrutínio, nem que o commentariat tivesse interesse genuíno em fashion! Aí está o double standard, o “padrão duplo” de tratamento conferido a homens e mulheres em todas as esferas. Alguém lembra de um pio ter sido dado a respeito dos ternos e penteados de Lula ou FHC? Se falaram da aparência de algum presidente homem, neste país, no dia de sua posse, foi de Collor – para quem ser Fernando Bello era parte intrínseca do pacote. Francamente! E olha: este foi o menor dos machismos direcionados à Sra. Rousseff ao longo de 2015…

Antes de prosseguir para falar do mais horrorizante deles (e não somente para Dilma, mas para todas as mulheres), vale ressaltar que minhas críticas são ao machismo estrutural e sistêmico, portanto apartidárias e completamente independentes de quaisquer outras críticas à ela, suas afiliações, seu governo e/ou seus cronistas.

Um evento com altas doses de misoginia aconteceu pelos idos de Junho: quem lembra dos adesivos de “protesto” ao aumento do preço do combustível? Montagens do rosto de Rousseff num corpo feminino, de pernas abertas, eles eram colados nas entradas para o tanque dos carros, dando a impressão de que a bomba penetra sexualmente a imagem. Este é um dolorido exemplo de como a violência simbólica de gênero se fantasia de engajamento político. Além de, mais uma vez, demonstrar o double standard (desconheço imagens de um presidente homem sendo punido simbolicamente em sua sexualidade por um objeto fálico), estes adesivos demonstram a cega sanção social da cultura do estupro como medida corretiva, e escancaram o quanto se faz, da sexualidade feminina, locus de controle social. Punição, para a mulher (seja qual for a mulher, seja qual for o motivo), é estupro. E ainda que este estupro tenha sido simbólico, ele não deixou de ser um episódio assustadoramente misógino do nosso 2015zão.

A partir deste ano também ficou sancionada a lei 13.104/15, que considera homicídio qualificado o assassinato de mulheres em razão do gênero – também chamado feminicídio. Em pronunciamento no Dia Internacional da Mulher, a presidente ressaltou que esta medida demonstra a política de tolerância zero em relação à violência contra a mulher no Brasil. Uma das milhares de vítimas fatais do feminicídio, a dançarina Amanda Bueno, 29, dos grupos de funk Jaula das Gostozudas e Gaiola das Popozudas, foi espancada e morta a tiros de escopeta dentro de sua casa, no Rio de Janeiro, pelo companheiro, que disse ter cometido o crime após descobrir que a mulher já havia trabalhado como stripper. Como tantos casos como este – de antes e depois – boa parte da mídia reportou o assassinato como “crime passional” – e já é tempo de aposentarmos essa nomenclatura. Feminicídio é crime, não paixão.

Na metade do ano, a mídia estava dando bastante atenção aos ditos debates com relação a suposta inserção de uma certa ideologia de gênero nos planos nacionais de educação, que provocou protestos em plenários de todo o Brasil. A inclusão deste debate – nas escolas ou na vida – é essencial para combatermos discriminações e violências de gênero. Todos, inclusive o Estado, deveriam promover o respeito à diversidade, e a educação é um bom caminho. A Laerte, claro, lacrou a conversa midiática:

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Chanceler alemã por mais de uma década, Angela Merkel foi eleita Personalidade do Ano de 2015 pela revista Time. Ela é a primeira mulher homenageada pela publicação desde 1986 e apenas a quarta desde 1927.

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Na Arábia Saudita, ao menos 20 mulheres foram eleitas para cargos públicos, na primeira eleição aberta às mulheres do país – o último no mundo a negar às mulheres o direito de voto.

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E no Canadá, o primeiro-ministro eleito (e namorado dos seus sonhos), Justin Trudeau, formou um gabinete com 50% de mulheres. Ao ser perguntado por um jornalista, em coletiva, dos motivos desta decisão, ele respondeu na lata: “Porque é 2015”. ¯\_(ツ)_/¯

 

ESPORTES

Em julho, o debate feminista girou bastante em torno dos esportes – o que é apropriado, já que 2015 foi ano de Copa do Mundo de Futebol de Mulheres (também no Canadá). Mas antes de falar em Copa, vamos lembrar de uma outra atleta bombástica: Joanna Maranhão que, às vésperas de representar o Brasil nos jogos Panamericanos (ó aí o Canadá de novo), a nadadora pernambucana postou um vídeo em seu perfil de Facebook se posicionando contra a redução da maioridade penal. A inspiradora atleta disse: “Pensei bastante antes de fazer esse vídeo mas considero o desabafo necessário pra minha saúde mental.” Assista:

De volta à Copa, que as Americanas faturaram, o debate que dominou as conversas sobre o torneio foi a respeito do gramado artificial, e no fato de que a FIFA, instituição responsável pela modalidade, ao oferecer um gramado inferior para atletas do sexo feminino, reforçou uma mensagem que vem sendo enviada às mulheres há anos: achamos que seu jogo, como você, é de segunda classe.

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A norte-americana Sydney Leroux e a australiana Samantha Kerr publicaram fotos de arranhões e queimaduras causados pela grama sintética.

Porém, aos 13/12, e provando que futebol é de quem joga, e não de um ou outro gênero, a deusa louca feiticeira dos campos Marta Vieira da Silva Viega ultrapassa a marca de Pelé, e com 98 gols vira artilheira da seleção canarinho. Não contente, dois dias depois a diva do futebol faz mais dois, e termina ano com 100 gols: outro recorde mundial. MARTA RAINHA!

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Imagem: Marta sendo Rainha.

SEASON FINALE

Ainda faltam alguns dias para que 2015 chegue ao seu derradeiro – e faltaram, nesta retrospectiva, muitos outros eventos relevantes (lembra de algum? Coloque nos comentários!). Igual, o que não faltou no ano foi assunto feminista. Esperamos que esta esta retrospectiva deixe você, cara leitora, com a língua afiada para as inevitáveis conversas difíceis de Natal e Réveillon. Este ano ~lindo e ~louco provou muitas coisas, e as mais importantes delas: juntas somos mais fortes, e ninguém nunca mais vai nos calar. Então pre-para, que em 2016 vai ter mais. BEM MAIS.

AVANTE MULHERADA pois, definitivamente, #tamojunta!


 

Texto e imagens: Joanna Burigo + design: Emanuelle Farezin

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