Nada é fácil em ser feminista

Dia desses, em um debate sobre artistas machistas e seus contextos históricos, um rapaz me disse “é fácil criticar Gandhi ou Marlon Brando. Quero ver criticar seu avô machista”.

A frase me fez pensar como não há absolutamente nada de fácil nisso. Ou em ser feminista. Parece exagero?

Digamos que você seja mulher e não viva isolada numa floresta. Se você recebe uma educação sexista, se tornar feminista te faz rever tudo que você tinha como verdade. Seu discurso, seu julgamento de outras mulheres, seus relacionamentos amorosos e familiares, suas amizades. Você descobre, aos poucos, que precisa repensar o que pensa do seu corpo, do seu cabelo, da sua cor. Entender seu feminismo significa reaprender a ser você.

Digamos agora que você seja uma mulher de sorte tenha recebido uma criação feminista, numa bolha igualitária onde tudo funciona como deveria. Infelizmente, o mundo ainda é real e ao sair na rua o que encaramos, todos os dias, é assédio, medo, discriminação, e o pacote de pequenas agressões psicológicas (ou físicas) que amarram nas nossas costas e nos fazem arrastar pela vida.

Quando enxergamos uma militância, às vezes deixamos de enxergar os indivíduos que fazem parte dela. Estes indivíduos estão passíveis de sentimentos, conflitos, erros, pois são, imaginem, todos humanos. Também é fácil ouvir dessas militâncias o grito uníssono em defesa de ideais, mas não as vozes cansadas que o formam.

Ser feminista é, em um belo dia de sol, perceber que seu pai ou avô que você tanto ama, reproduz um discurso nocivo ou é um agressor. Que sua mãe, avó, tias foram vítimas, ou permanecem subjugadas. É se apaixonar e se sentir obrigada a avaliar o comportamento do objeto da paixão, pra saber se suas liberdades em um relacionamento seriam preservadas.

Se quebrando e se colando de volta todo dia. É assim que se sente uma feminista, enquanto analisa cada detalhe da própria vida e tenta dominar o touro feroz que mora no peito. Como superar o amor por alguém que te faz mal? Como lidar com o fato de que sua vida inteira esteve entrelaçada à sofrimentos dos quais você não entendia a dimensão? Como lidar com enfrentar um mundo onde você é sempre menos, sempre culpada, sempre a origem do erro?

Você olha pros seus heróis e eles todos se desfazem no vento. Seus autores preferidos batiam em mulheres. Seus músicos preferidos cometeram pedofilia. Seus atores preferidos são gordofóbicos assumidos. Claro, ainda tem muita gente boa a se admirar. Mas isso faz diminuir o que sentimos por quem vimos desmoronar na nossa frente?

Se você não descobre atitudes duvidosas ou apavorantes das pessoas que ama e admira, se sente sortuda. E percebe que não deveria. O mundo não deveria ser assim. Olha pras suas colegas de luta, e vê quanta dor existe ali.

Ser feminista liberta, mas dói. Nossos gritos são mais do que luta: são expurgo.

Por Carolina Bicudo
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