Tranquilo e favorável para quem?

O #Carnaval2016 acabou de acabar, e abrimos a quarta-feira de cinzas com a massa cinzenta a mil, refletindo a respeito dos velhos padrões duplos de tratamento conferidos à homens e mulheres, seja na vida ou na festa mais tradicional do país. Não basta ter um #CarnavalSemAssédio: o machismo precisa ser eliminado em todas as suas formas. Abaixo, uma análise pontual e pertinente do que pode parecer tranquilo e favorável para para nós, outras, não tá não… Thais Mendes, brasileira nata e feminista da gema, fala com a gente sobre o assunto desde lá do frio de Londres.

Tá tranquilo, tá favorável

Não prestei muita atenção no Carnaval esse ano – como não tenho prestado em qualquer outro ano, pelos mesmo motivos que não presto atenção no show de fim de ano do Roberto Carlos, ou nos encerramentos de novelas das 9. São acontecimentos anuais, com seus graus de repetições e trivialidades variando minimamente na escala de interessância. Mas uma coisa me fez pensar.

Como para qualquer cidadã brasileira com acesso à internet, não tem como escapar das imagens de pessoas como Ivete Sangalo e Sabrina Sato, a cada ano que passa mais proficientes e investidas na arte de driblar a passagem do tempo e a força da gravidade.

Quanto mais os anos passam pra mim, com todos os seus percalços e consequências, mais eu entendo o esforço que mulheres como elas fazem. É descomunal. Me parece absolutamente exaustivo lutar pela perfeição física dessa maneira, gastar horas preciosas do dia dando atenção pra tantos poros, orifícios, folículos e tecidos, MAS, esse não é o ponto.

O ponto é que no outro lado do espectro, o hit do momento e hino absoluto do Carnaval (de acordo com as minhas aparições esporádicas nas redes sociais) é o tal Ta Tranquilo Ta Favorável (só com um acento) do corajoso Mc Bin Laden. Todos amam: o bordão, a dancinha, e principalmente o fato de Bin Laden aparecer no video sem camisa, sem qualquer paranóia ou preocupação com a opinião alheia do seu corpo gelatinoso. O efeito, inclusive, é o oposto: não existe repúdio algum vindo do público. É exatamente o fato de ele ter escolhido balangar seus excessos no Youtube que gerou memes quase afetivos do quanto Mc Bin Laden é uma “figura”. Buzzfeed fez até lista (e quando o Buzzfeed faz uma lista sobre um assunto, é sinônimo de “significância”) de todos os sintomas de quem está obcecado não só pela música, como pelo visual cheio de “defeitos” do funkeiro.

Isso me fez pensar se a recepção ia ser tão camarada caso alguma artista mulher tivesse coragem de expôr seus “excessos” em um vídeo clip, com ou sem a certeza de ter um hit grudento na manga.

Me fez lembrar de Ivete na época do vídeo do Madison Square Garden, ainda não “recuperada” dos excessos da gravidez, vendo seu corpo e seus looks destrinchados pelo público, exaustivamente comparados com a “concorrente” oito anos mais nova, Claudia Leitte. Milhares de páginas, de revistas e na internet, devotadas a discutir celulite, flacidez, gordura localizada, estrias, e a “coragem” de subir no palco com roupas extravagantes que não seguravam direito todas aquelas curvas.

Dê um Google em Mc Bin Laden Sem Camisa, e não existe quase nenhuma menção sobre o assunto. Nenhuma entrevista ou coluna ou blog post discutindo os pormenores das “curvas” do funkeiro. Na lista do Buzzfeed, tem dois pontos: número 7, “você está fascinado pelo corpo do Mc Bin Laden”, e 8, “E também pelo look um sovaco depilado, um sovaco peludo.” Nada mais. Nenhuma indicação de revolta ou desgosto ou nojo. Nenhuma ponderação sobre a “coragem” do funkeiro de exibir as imperfeições. Você já imaginou se uma artista mulher não só aparecesse como OSTENTASSE esse tipo de depilação em pleno carnaval?

Me fez entender o porquê da luta incansável de Ivete hoje em dia pra provar que aquele “relapso” em Nova York, documentado em um DVD de sucesso estratosférico, não vai mais acontecer. Porque no fim das contas, por mais que sua voz e seu talento sejam incontestáveis, seria muito mais exaustivo tentar conquistar o público se tornando uma cantora que aceita a passagem do tempo e as mudanças que ele trás.

Mas a Ivete é apenas um exemplo. E as outras? Eu não acompanho os charts de sucesso no Brasil, mas de cabeça, o panorama é igualmente homogêneo. Anitta, Ludmilla, Valesca Popozuda, Banda Calypso… poderia escrever outro parágrafo enorme sobre o paradoxo visual entre Chimbinha e Joelma, agora substituída por uma versão mais nova e mais torneada de si mesma.

Mas não é preciso, porque só com esses dois exemplos, já dá pra entender a situação.

Se você é mulher e tem qualquer aspiração a sucesso na cultura pop brasileira, principalmente na música, nada vai “tá tranquilo, tá favorável.” Nem mesmo depois de um plano estratégico e uma caixinha profunda pra bancar o cirurgião plástico e os tratamentos estéticos.

Será que sempre vai ser assim?

‪#‎tanadatranquilonemfavoravel‬

Texto: Thais Mendes
Imagem: FEMMA Registros Fotográficos

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