Ainda sobre o shortinho? Ainda.

Uma petição feminista feita por alunas do ensino fundamental de Porto Alegre causou furor nas redes sociais.

O abaixo-assinado Vai ter shortinho sim, feito por alunas do Colégio Anchieta, foi a pauta da mídia tradicional e das mídias sociais durante toda essa semana. A petição/manifesto já conta com mais de 20 mil apoiadores e, nela, gurias entre 13 e 18 anos exigem que algumas regras do vestuário sejam alteradas pela escola.

O argumento feminista é simples: abaixo o controle dos corpos das mulheres. E uma ferramenta importante deste controle sempre foram as roupas.

A campanha #vaitershortinhosim não é sobre o direito de usar ou não shorts na escola, mas sobre autonomia corporal das mulheres – e, importantemente, para que os homens sejam educados a respeitá-la, desarticulando o pensamento machista de que as roupas que as mulheres usam indicam disponibilidade sexual.

Mas teve quem não entendeu nada.

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A postagem acima viralizou. E existem vários problemas nessa postagem – por exemplo:

  • a grande discussão não era sobre as meninas poderem ou não ir de short para a escola, mas sim sobre elas, e nós todas, podermos ter autonomia para escolher nossas roupas sem nos preocuparmos com o potencial efeito que elas têm sobre os homens – afinal a responsabilidade pelo assédio sexual, abuso ou estupro é de quem comete a violência, não de quem a sofre, esteja a vítima de burca ou de biquíni;
  •  a leviandade – sem falar na total inadequação – do uso da palavra esquizofrenia;
  • a ideia de que o manifesto é contra adequação institucional, quando na verdade ele se trata de revelar a imposição de valores misóginos disfarçada de adequação institucional (os manuais de boa conduta não costumam impor proibições que tolhem a autonomia corporal dos homens para protegê-los de assédio das mulheres…)
  • que as meninas achem que o short é mais importante que estudar – quando, na verdade, elas estão fazendo muito bom uso da boa educação que lhes foi dada, questionando machismo institucional;
  • discutir o que interessa – para quem, não é mesmo? O sucesso da petição mostra que essa discussão é interessantíssima para muita gente.

Como se não bastasse que um argumento falacioso desses tenha viralizado, preste atenção na imagem que acompanha o post – a justaposição da última frase com a foto escolhida é de cair o queixo:

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O que interessa não é a bunda das adolescentes, caro moço que escreveu essa postagem. O que interessa é que postagens como a sua – que objetificam o corpo das mulheres e nos representam como se fôssemos para o consumo dos homens – sejam erradicadas. É POR ISSO que as meninas querem poder ir de shortinho para a aula: para que machistas como você parem, de uma vez por todas, de achar que vestimos o que vestimos para, ne-ces-sa-ria-men-te, causar algum efeito sexual em vocês. Homens sempre tiveram o poder de decisão sobre qual roupa deixa o corpo das mulheres mais ou menos exposto para o próprio deleite (ou violência). As mulheres estão dizendo BASTA.

Mas não foi só isso. Os comentários da postagem também renderam boas análises. Evidentemente não fomos as únicas feministas a perceber que a composição entre o texto e a imagem da bundinha acima era hipócrita, e algumas bravas guerreiras levantaram este ponto. Daí alguém respondeu:

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É ISSO MESMO, AMIGO! PARABÉNS! E se por acaso você tão tiver entendido a sua própria piada, por não perceber a diferença entre um homem decidir o que fazer com a imagem de um corpo de uma mulher e uma mulher ter o direito de decidir como vai, ou não, vestir esse corpo, te ajudamos:

= mulher –> dona do próprio corpo –> é impedida de usar a vestimenta que quiser porque corre o risco de ser assediada por homens – tanto que, na escola, a regra é para ELAS não usarem roupas curtas; para eles, nenhuma regra nesse sentido…

= homem –> não é dono do corpo das mulheres –> mas adora se sentir no direito de determinar quais corpos são aceitos em quais situações.

Em outras palavras, o pensamento do autor do post, bem como o do comentarista acima, parece ser: “Tudo bem eu, homem, postar imagens de bundas de mulher na minha página. Mas as mulheres que não ousem mostrar a bunda! EU DECIDO como o corpo das mulheres pode ser representado, ok? EU, HOMEM. Vocês, mulheres, as donas dos corpos, vocês não. Mas eu, sim”.

Não é? Vaza #patriarcado… e por falar nele, olha a cereja no bolo de misoginia:


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AMIGO. Isso não é sobre mostrar a bunda, amigo. Isso é sobre você parar de achar que, ao usar shortinho, o que queremos é mostrar a bunda. Faz calor, e independentemente do calor, não faz sentido que proíbam as nossas vestimentas porque vocês não conseguem se controlar. Se virem. Deixa eu te contar uma coisa: as mulheres não vieram ao mundo com o compromisso e a obrigatoriedade de servir os homens, ok?

Bem vindos a 2016!

Por Joanna Burigo – mais sobre o argumento feminista por trás da petição na minha coluna na Carta Capital.
Imagem destacada: Recollection Lab

 

 

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