O dia depois do dia da mulher

O #diadamulher foi instaurado com propósitos bastante específicos: levantar o debate a respeito da situação das mulheres na sociedade (que é precária), e reivindicar direitos.

Infelizmente, muito do que é produzido no dia, ou em comemoração ao dia #8demarço acaba servindo como prova do quão absolutamente necessário ainda é marcar um #diainternacionaldeLUTAdamulher no calendário.

Usam a data para ofertar flores e bombons e parabéns. Mas ela não existe nem nunca existiu para esses fins. A data sempre teve como objetivo ser um dia no qual, de forma orquestrada, alertamos a sociedade a respeito das injustiças a que as mulheres estão submetidas nos outros 364 dias do ano. Mas usam a data para nos oferecer chocolate.

Daí a gente diz que não precisa de chocolate, nem de flores, sequer de parabéns. E então nos acusam de sermos grosseiras. Dizem (não pedem: dizem) para que deixemos de ser difíceis, para que aceitemos a ~gentileza.

Mas a data não tem nada a ver com gentileza. Ela existe para apontar a desigualdade que perpassa as nossas vidas no resto do ano.

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Usam a data para celebrar a nossa beleza/capacidade de cuidar/delicadeza.

Mas nos outros 364 dias do ano, a mesma noção de beleza é usada para minar nossa autoestima. No restante do ano a mesma capacidade de cuidar é usada para nos atrelar à maternidade compulsória. Nos outros dias a mesma delicadeza é usada para nos excluir de processos seletivos que exigem dureza. Isso sem contar que, na efeméride ou em qualquer outro dia, nem toda mulher liga pra beleza, nem toda mulher é boa cuidadora, nem toda mulher é ou quer ser delicada.

Mas são essas as características que celebram, em relação às mulheres.

Também usam a data para celebrar a nossa garra e a nossa força. Sim. Usam. Verdade seja dita, dona feminista.

Mas quando mostramos a mesma garra e força para exigir que as atividades ao redor da data caminhem para a reflexão acerca de sua origem, daí já não gostam mais de tanta garra e força, não.

Usam a efeméride para nos agradecer por fazermos a vida mais bela e agradável. Agradecimentos são bem vindos, mas também não é para isso que o dia existe. (Assim como não é exclusivamente para tornar o mundo um lugar mais belo e agradável que as mulheres existem, confere?) Nos agradecem: por sermos carinhosas, pela nossa inteligência emocional, pela afeição que demonstramos para com crianças… Nos agradecem por trabalhos que fazemos e que, se não fazemos, não são feitos. E é por isso que a prioridade é refletir sobre a necessidade da data – e não refestelar as mãos na barriga em #gratidão pelo trabalho que as mulheres te poupam de fazer, ainda que agradecer seja gentil.

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Usam a data para nos distrair com cavalheirismo. Mas olha só: cavalheirismo não é gentileza. Gentileza seria ouvir as nossas reivindicações, e não oferecer presentes e parabéns para quem precisa de justiça, e ainda por cima achar ruim quando apontamos que é para lembrar das injustiças que a data existe.

#NãoQueroFlores mas se quiser me dar fique a vontade. Vou receber. Mas não vou deixar esquecer a origem da data, vou lembrar que não é para isso que ela serve.

Não é uma questão de opinião, tampouco de ser feminazimalcomidaqueestádemauhumor. Vou repetir: estamos apenas apontando para o fato de que a data serve outro propósito. É um fato. É uma questão de raciocínio lógico. É só prestar atenção.

O maior problema não são nem os presentes, mas sim essa tentativa medonha de silenciamento que sucede quem ousa questionar o gesto de ofertá-los.

Nos oferecem os parabéns. Apontamos que não queremos parabéns na data pois a data não serve este propósito, e sim outro, mais político. Daí reagem como se estivéssemos falando uma ofensa.

Ficar ofendido por causa de uma reação lógica a respeito da oferta de florzinha num dia de luta é não entender o que é o dia da mulher.

Ano que vem não se ofenda. Aprenda.

Entendeu?

Por Joanna Burigo
As imagens que ilustram esse post circularam furiosamente nas redes ontem.

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