Até aí tudo é um começo

1. Eu precisei engravidar para me dar conta que a primeira separação entre nós enquanto espécie é uma separação de gêneros. A primeira pergunta feita à minha barriga era a famosa: “já sabe o sexo?”. Percebi que o primeiríssimo aspecto que acompanha a confirmação da existência de uma vida é a definição do sexo. Até aí tudo era filosofia

2. Eu precisei parir para descobrir a força. Dirigir meus caminhos. Me dar o direito de escolher sobre meu corpo. Falar não! Aqui você não entra, meu parto minhas parteiras. Até então tudo era vagina.

3. Precisei amamentar para perceber que meu seio era fonte de alimento e não objeto sexual. Que existe toda uma orquestra mágica entre meus pensamentos, sensações e a capacidade de alimentar minha filha da maneira mais prática e saudável possível. Que precisávamos cuidar umas das outras para que essas orquestras funcionassem e crianças fossem nutridas com saúde. E assim ter e ver mulheres amamentando nos unia mesmo sendo totais desconhecidas. Descobri que havia algo entre nós que era silêncio e compreensão. Até aí tudo era leite

4. Eu precisei ser mãe para perceber que aquela boneca que deram para minha filha era a mesma boneca que deram para mim na idade dela enquanto meu amigo ganhava carrinho, bola, bicicleta. E nessa boneca estava escrito o nosso destino: tu ficarás em casa enquanto teu amiguinho vai para mundo. Até aí tudo era puerpério

5. Eu precisei me rodear de outras mulheres e mães para resistir, amar e não me perder nesse isolamento do mundo. Aí eu percebi que nada mais entre nós era competição apenas encontro e potência. Percebi que partilhávamos de angústias comuns e silenciosas. Que a união nos libertava do silêncio e da dor de sentir a vida escorrer pelas mãos. Até então tudo era fralda e fogueira

6. Aí foi preciso virar mulher branca para perceber que nessa roda de mulheres haviam diferenças nessas dores. Que nessa roda as mulheres brancas tinham o privilégio de colocar seus filhos nas creches que davam mais que bolacha no lanche. Que ter olhinhos azuis é um bebê lindo a velha diz. E que essa mulher branca tem a mulher negra como a força do seu conforto lustra móvel. A solidão da mulher branca é sua herança esquecida. Até aí tudo era privilégio

7. Aí foi preciso me tornar estrangeira para me aproximar da mulher preta, da mulher árabe, da mulher índia, da mulher latina, da mulher sul americana da mulher outra. Foi para enjoar mesmo de criança loira de olho claro. Foi para reorganizar as raízes, diluir as fronteiras reconhecer que apesar da pele eu podia escolher lados, tomar posições, defender direitos, sair dos privilégios. Até aí tudo era lugar de fala.

8. Então precisei me emprestar dos corpos para ser Mulher. Ter meu clitóris cortado, meu corpo estuprado, corpo amarrado enfiado num saco, jogado no mar. Meu corpo num mato qualquer um pedido de ajuda. Meu corpo uma garota estuprada no ônibus depois do cinema. Nessa garota fui morta. Uma menina baleada por querer estudar, uma garota obrigada a casar a outra esfaqueada pelo pai porque queria casar com o homem que ama. A mulher que morreu porque abortou. A mulher gorda. A ex namorada assassinada. A estudante estuprada no banheiro, estuprada no metrô, estuprada na festa. A empregada que recebe a visita do filho do patrão. O patrão que bate na porta que dá encoxada. A mulher traída, a mulher usada, a cineasta desvalorizada, a escritora que deixou de escrever para cozinhar para o marido, a jogadora que venceu Pelé, a mulher louca, a mulher desequilibrada, a mulher que é um bicho estranho, ai isso é coisa de mulher. Até aí tudo é patriarcado

9. Eu precisei do feminismo para aprender a lutar. Mirar o alvo, segurar o arco, apontar o dedo, mandar se fuder, dá chave de perna, aprender a socar. Descobrir que mulher pode tudo que ela quiser. Ser dona de casa, trabalhar na esquina, fazer tatuagem, pintar o cabelo, ser puta ou perua, ter filho ou não ter. Até aí tudo é um começo

10. Eu precisei escrever esse texto para me unir a qualquer mulher que esteja aí lendo. Porque hoje e amanhã só me interessa fazer de nós mulheres um corpo que fala e não um corpo que apanha. Um corpo que compartilha e não fica calado. Um corpo que nos reconhece como parceiras e não competidoras. Nós não estamos sozinhas. Nosso dia nossa luta todo dia é dia de puta.

Por Tatiana Heide
Imagem daqui.

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