RuPaul, Drag Queens e Feministas: um breve papo.

RuPaul’s Drag Race é um reality show que mostra a “busca” da drag queen mais famosa do planeta pela “próxima estrela drag dos EUA”. A série, cuja oitava temporada começou na segunda-feira 07/03, é campeã de audiência e tem uma base fiel de fãs ao redor do mundo – mas também conta com um sem-fim de detratores, por apresentar doses desconfortáveis de machismo, xenofobia, misoginia e até mesmo transfobia.

Para discutir o tema, ninguém melhor do que as drag queens. Por isso fomos até a cena artística de Florianópolis, onde conhecemos Savanna FosterSuzaninha Richthofen, com quem tivemos uma conversa bacana sobre a arte drag, gênero… e RuPaul’s Drag Race. Confira!

Por Savanna Foster

Esse assunto é bem delicado, mas vamos lá…

Ao meu ver, RuPaul e seu programa são de extrema importância para a cena drag. Não podemos negar que este é o motivo do grande “boom” drag dos últimos anos, mas creio que o programa tenha seus lados positivos e negativos – sim, ladoS, no plural.

O programa é de extrema importância para que o grande público tenha contato com essa forma de arte e todo o peso social que ela carrega. Porém o programa acaba gerando vários problemas pra cena drag. Ali estão impostos padrões, e quem assiste passa a se achar especialista, por “saber” o que se encaixa ou não nesse padrão.

O reality dita que drag tem que ser feminina, parecer o máximo com a mulher padronizada (e europeia: loira, alta, corpo violão). Além disso ele passa a imagem de que a cena drag é pautada em shade e em competição…

O programa coloca drags em caixinhas e dessas caixinhas elas não podem sair. Eu odeio caixas, odeio rótulos. Minha drag é fluída, gosto de brincar com os gêneros, de ser algo assexuado, de gênero fluído… Gosto da desconstrução de gênero (sou uma pessoa não binária) e vejo a arte drag como uma ótima forma de protestar contra os padrões de gênero.

Graças a RuPaul’s Drag Race eu sou obrigada a aturar pessoas perguntando coisas como “por que você não usa um enchimento no quadril pra ficar mais mulher?” ou “por que você não faz uma make mais discreta?”. Eu digo NÃO, porque NÃO! Eu não vou me enfiar numa caixa e seguir estereóripos ditados por gringos, por favor.

Já ouvi também muita gente me falando que eu sou drag padronizada, e quando ouço isso gosto de parar e repensar o que eu tenho feito para as pessoas pensarem assim.

Tenho muito o que agradecer ao “reality” e muito mais ainda à RuPaul, mas também carrego muito peso nas costas por todas as coisas ruins que esse programa gera na cena drag.

Mas não vou negar: eu adoro assistir! Hahaha.

savanna2

 

Por Suzaninha Richthofen 

Vou falar o que acho a respeito do mundo drag machista em que vivemos.

O RuPaul’s Drag Race exibe corpos muitas vezes padronizados, o que irá estimular uma audiência específica.

Se pensarmos nas drags gordas, negras e trans, veremos pouquíssimas (no programa), e menos ainda que tenham vencido a competição.

Algo que eu sinto ao fazer a Suzaninha são julgamentos referentes ao padrão de beleza seguido pela maioria das drags: peruca boa, maquiagem incrível e corpo maravilhoso. É aí que entra o machismo; as drags PRECISAM ser lindas, femininas e gostosas para agradar ao público machista – e sabemos que o machismo pode ser grande entre o público gay.

Homem é machista, e desconstruir isso é uma tarefa difícil, porém não impossível.

As drags cômicas (euzinha), caricatas e satíricas são diariamente julgadas e inseridas em caixinhas do tipo “não gostei do seu nome, troca!”, ou “não gostei da sua roupa, troca”, ou “não gostei da sua maquiagem, troca”

“Tudo só será bonito se me agradar” – logo, o desconforto causado pela arte drag não será visto por muitos como uma crítica e sim como estando fora do padrão midiático vendido no reality show Ru Pau’s Drag Race… 

Assisto ao reality, acho a RuPaul um símbolo de resistência, força e militância que tem uma gigantesca representatividade por estar dominando o mundo com a arte drag. Porém esse lado do “fast drag”, onde a arte se perde, deve ser discutido. Pra quem nos montamos? Por que? Será que estamos só enaltecendo o mundo machista onde a mulher ser gorda, feia é um problema?

Veja as beauty queens: é só entrar nos perfis delas nas redes sociais e lá estão 300+ curtidas em fotos, milhares de seguidores e fãs… sendo que a mensagem passada por muitas não completa. Não atinge. É raso. Uma arte rasa e sem esforço. Uma “arte” de peso de porta.

São esses padrões que nos fazem pensar sobre os motivos de estarmos na cena drag. Quem é “fora do padrão” incomoda. No mundo gay, você ser fora de padrão é algo que te fará estar na berlinda de tudo, e o nosso movimento pode ser muito excludente.

Existe o pensamento “a sua arte só será boa se ela me satisfizer, do contrário será péssima, rasa, não polida…”

Somos e existimos pra causar! Se trouxermos, para nossas drags, essa imagem padronizada, estaremos nos contradizendo.

Drag é, sim, uma maneira de dizer “HEEEY, PERA AÍ MEU AMOR, ESTAMOS AQUI PRA DESCONSTRUIR SEU PENSAMENTO”.

suzaninha

 

Parecer feminista

Drag pode ser a arte de simular o feminino – mas, como foi bem pontuado por Savanna e Suzaninha, o (que entendemos por) feminino é completamente cerceado por uma série de normas e padrões, rígidos como o próprio conceito binário de que gênero se trata de uma polaridade entre homens e mulheres. 

Os relatos destas duas drags nos indicam que, como sociedade, estamos tão acostumados a regular o feminino que mesmo quando o feminino é puramente performático ele é “tema livre” para críticas, imposições e tentativas de controle. 

Que a partir deste breve bate-papo possamos expandir a reflexão de que se mesmo a performance do feminino (que é feita deliberadamente pelas drags, cujo trabalho, inevitavelmente, problematiza gênero) é pautada por normas rígidas do que esse feminino deveria ou não ser… imagina o trabalho que dá ser mulher.

Por Joanna Burigo
Imagem daqui.

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