Isto é machismo

Nesta semana a capa (e matéria correlata) de uma tradicional revista atacou Dilma Rousseff com adjetivos que evidentemente foram selecionados visando desqualificar a presença de uma mulher na Presidência da República.

Isto é misoginia pura!

Cara leitora, seja você contra o golpe ou a favor do impedimento, rogo que suspenda – por um minutinho que seja – a retórica inflamada que domina a narrativa midiática sobre o atual caos político do país para então observar as formas como a capa do semanário IstoÉ constitui um não-argumento anti-governista sem sequer mencionar questões político-econômicas, utilizando apenas ataques ao estado emocional da presidenta.

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Alô, patriarcado. A gente conhece as tuas artimanhas.

Deslegitimar nossa saúde mental para desestabilizar nosso poder é o truque mais velho da cartilha machista. Tanto que este fenômeno tem até nome: gaslighting. Selecionamos dois textos bastante didáticos sobre esta prática misógina, feitos por casas feministas que amamos: O machismo também mora nos detalhes (da Think Olga) e Precisamos falar sobre Gaslighting (do Lugar de Mulher). As Olgas também postaram, hoje, um texto maravilhoso na sua página de Facebook no qual demonstraram, com vários exemplos, como o gaslighting é aplicado, pela mídia, à mulheres chefes de estado.

Nas redes

Tão logo a revista começou a circular, começaram a aparecer respostas feministas que se auto-organizaram através de hashtags como #IstoÉMachismo e #IstoÉMisoginia.

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Também foi criado um evento chamado Pedido De Retratação À Revista IstoÉ Pela Matéria Misógina.

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Já a página Mulheres contra o golpe rebateu a capa machista com uma versão alternativa feminista.

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Bruna Paludo, que escreve aqui para a #CDMJ, também deu um belo parecer, e selecionamos alguns trechos do post dela para compartilhar com vocês:

Mídia sendo honesta: Dilma, a primeira presidente do brasil, não pode governar o país porque 1) tem explosões nervosas, 2) sofre de surtos de descontrole, 3) grita com subordinados, 4) xinga autoridades, 5) ataca poderes constituídos e 6) não tem condições emocionais para governar o país.

De novo, mídia sendo honesta: mulher não serve pra presidência. Mulher é descontrolada emocionalmente e não serve pra vida pública. Tudo bem ser ladrão e canalha, desde que tenha “equilíbrio emocional” (leia-se: não ser mulher). Por quanto tempo ainda nós mulheres vamos ser ofendidas e silenciadas com o velho argumento da loucura?

Na ausência de argumentos, silencie a mulher. “Ela é louca, não sabe o que faz”. Toda mulher que sair da regra feminina ditada pelo patriarcado deve ser silenciada e afastada da vida pública. Toda aquela que ousar não seguir a norma e não se enquadrar no “normal” deve ser ignorada. Realmente, a Dilma está fora do controle, assim como as mulheres estão fora do controle. Ninguém mais vai nos controlar, nem partido, nem pai e nem marido machistas.

Sejam mais criativos e mudem os argumentos, pois o que mais vai ter daqui pra frente é mulher incontrolável. E se reclamar muito vai ter mulher com raiva, mulher que não fica quieta, mulher que sabe o que quer e não renuncia.

Brasil, 2016: a mídia dominante se esforça pra derrubar um governo eleito democraticamente e seu argumento de manchete é o “temperamento emocional” da chefe do executivo. Que nível bem baixo. Machismo deveria ser vergonha e não argumento político. 

É muito descontrole emocional romper com a democracia por não aceitar avanços sociais. Todas nós somos mulheres e, portanto, loucas. Escancarem bem esse machismo todo, porque ninguém mais vai nos controlar.”

Considerações finais

Jornalismo imparcial não existe, sabemos bem disso porque outra coisa que conhecemos bem são os artifícios retóricos da mídia. O discurso midiático é sempre uma escolha. Nada do que vemos ou lemos na mídia aparece por acaso: toda linguagem de mídia é uma escolha, feita por quem tem o poder de codificar mensagens na mídia.

Escolher para a capa palavras como “surto de descontrole”, “fora de si” e “perda de condições emocionais” – e complementar o texto com uma imagem totalmente descontextualizada (vide abaixo) mas que ajuda a reforçar a intenção de enquadrar a presidenta como desequilibrada – é criar a narrativa da histeria.

Capturar

Aplicar a falácia da histeria para desqualificar a capacidade das mulheres é fórmula machista das mais desgastadas: é nada mais nada menos que gaslighting.

#‎IstoÉMachismo‬.

 

Por Joanna Burigo
A imagem destacada vem do blog “Plaquinhas Feministas

NOTA: por amor à dialética, e para não arriscar ser mal-compreendida, este texto não se trata de opinião, nem de partidarismo político, mas sim de uma análise discursiva de linguagem de mídia sobre gênero

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