Piorou porque melhorou (mas não muito)

Minha família, meus filhos, meu deus, minha pátria. Como isso ganhou tais proporções?

Impossível não enxergar que houve, nos últimos anos, uma liberação de novos modos de existência, de novos corpos e novas sexualidades. A inclusão da vida no fazer político aparece nas lutas das mulheres, nas causas LGBT e trans, na força dos movimentos de negras e negros. Isso se dá como resistência ao conservadorismo? Também, mas podemos inverter a causalidade.

Política também é subjetividade, pois o indivíduo não é um dado, uma instância a ser pensada como já feita.

Pessoas são processos, sujeitos se constituem a partir das relações sociais e os processos de construção de sujeitos têm sido intensos. Por razões materiais e inconscientes. Claro que um mínimo de diminuição da desigualdade em um país construído sobre o privilégio, com relações sociais calcadas na desigualdade e na exploração, já faz muita coisa explodir. Aqui a história da patroa que se incomoda com a ascensão da empregada é verdade. Imaginem hoje em dia o medo de um pai machista de que um filho vire gay? Isso se tornou muito mais possível que antes, o que aumenta exponencialmente o pavor e a reação das famílias. É natural que, em seguida, haja um de valores retrógrados, arcaicos, um aumento da violência para impedir esses desbloqueios. Todo mundo de volta pro armário, por bem ou por mal!

Mas aqui tem outro dado. E pra aqueles que ficam vigiando se esse é um post a favor ou contra o PT, vou dizendo que é os dois. O inconsciente que explodiu o macho-adulto-branco-sempre-no-comando é sim produto das políticas de redução da desigualdade, de inclusão, da radical transformação na universidade. Foi pouco? Foi, mas precisava de pouco pra explodir.

Só que a organização dessas forças é um passo adiante. E aqui o PT falhou feio, assim como toda a esquerda. Os arcaísmos funcionam tão bem, hoje em dia, porque não há perspectiva de transformação na ordem das relações de forças, no plano de uma nova institucionalidade.

As formas de subjetivação efervescentes não conseguiram – ainda- constituir espaços nos quais essas novas relações sociais possam se enfrentar o conservadorismo. Esses fenômenos moleculares não são interpretados corretamente pelas coordenadas políticas da nossa época (nem partidárias, nem sindicais, nem nenhuma instância capaz de atravessar os grupos e os guetos). Uma grande dobra tenta, então, recolocar essas subjetividades nos eixos, ou seja, no seio da família ou da igreja (ou mesmo de partidos burocratizados e outras organizações que são de esquerda, mas são reacionárias). Quem é politizado vai continuar resistindo, claro, mas a dobra conservadora vai levar muita gente.

Após junho de 2013, tentou-se inserir as coordenadas de subjetivação na grande política, mas não deu certo. E quando não funciona, há uma retomada dos antigos modos. Eles retomarão o poder tão mais intensamente quanto mais difícil for, para os processos de subjetivação em curso, encontrar sua própria duração, sua própria memória. Ustra entrando descaradamente na sala deixa explícito que a guerra se dá também nesse âmbito. Respondemos com cuspe e Marighella. É um começo. Mas ainda há muito a fazer.

Como criar uma racionalidade progressista capaz de tirar da intimidade os processos de subjetivação? Como criar espaços de pertencimento transversais para que as lutas minoritárias possam ser mais do que reconhecimento e identidade? Essas não podem ser somente iniciativas por fora do sistema político. Se não encontrarmos um jeito de incluir a subjetividade na política, de criar esses espaços de conexão e de subjetivação coletiva, correremos o risco de entregar pra igreja e pra família todo esse plano pulsante dos afetos, da espiritualidade e dos modos de vida.

 

Por Tatiana Roque
Imagem daqui.

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