Que raios de política é essa?

Nesses meus 33 anos de vida a política sempre esteve nos meus pensamentos. Nos últimos 16 anos tenho acompanhado as reviravoltas que permeiam a política brasileira. Apesar de termos uma democracia jovem, passamos por diversos atentados à sua existência e permanência na realidade, que poderiam servir de roteiro para filmes de drama e suspense com múltiplos personagens de facetas interessantíssimas.

Os últimos três anos têm sido surpreendentes no que se diz e se vê ocorrer. Protestos nas ruas, nas varandas, golpe em curso e inconformismo da classe média. O conservadorismo político e moral espalhado pela sociedade brasileira, heróis nacionais com poderes midiáticos e estandartes anti-corrupção. Estamos atordoados, como num filme de ação em que você não tem muita ideia do que o roteiro tem preparado pra o espectador.

Quem ganha e quem perde? A direita pode sair vencedora do processo de impedimento que deve durar no mínimo seis meses para retirar Dilma Rousseff do poder. Já a democracia e a imagem do país fica manchada em relação às suas instituições democráticas e o respeito ao voto popular, nossa carta magna e seus preceitos por suas instituições políticas e jurídicas.

Como chegamos até aqui? Para chegar ao poder é preciso fazer concessões, e o PT as fez, e caminhou para o espectro centro-direita e cada vez mais neoliberal, ganhando a simpatia de empresários e suas instituições (Fecomercio, Fiesp e afins). Vendeu a alma ao neoliberalismo pelo poder, mesmo que tenha feito muito em favor dos mais pobres.

A impessoalidade de Dilma em seu segundo mandato de governo também demonstra como está sendo a solidão do poder. Tenho pensado no esforço dela em preservar a alma de tanto ódio e ataques à sua pessoa. Como feminista, me solidarizo com a presidente e aplaudo seu auto-cuidado em meio à turbulência de ódio, misoginia; são ataques machista não só por ser uma mulher no comando da nação, mas por incomodar o mundo da política, que em quase todas suas esferas de poder é regido por homens brancos e cis. (n.e.: #patriarcado)

O crescimento do conservadorismo político e moral no Brasil desde os protestos de junho de 2013 crescem em magnitude e isso me preocupa ainda mais quando religião e política se casam e manipulam valores em busca de poder. O sonho e pesadelo de muitos é uma direita evangélica e oportunista no poder,  e o congresso nacional existente demonstra esta realidade.

Não tenho uma resposta para o que tenho observado, mas ressalto que foram os 53 milhões de votos da última eleição que elegeram o governo para dar continuação a um processo que não deveria ser interrompido. Enquanto a classe média sai às ruas de verde e amarelo, a periferia pode ainda ser a resposta para uma esquerda que precisa fazer um exame de autoconsciência e se reavaliar em prol de se refazer como esquerda política sem ares de direita comercial.

Não creio em colonização política, mas acredito que seja o futuro da política passa pela periferia, e é preciso ver e agir para que a periferia não se venda ou seja inebriada pelas ilusões de uma direita econômica, conservadora, autocentrada e sem nenhum projeto perene de política sociais.

Infelizmente, não acho que haja mais volta para o processo de impedimento, e os próximos meses podem definir um futuro sombrio para a democracia brasileira e para as próximas gerações. O processo pra mim, pode mudar de ares caso uma revolução aconteça, mas deixo algumas perguntas: Qual deve ser o impulso para uma revolução das minorias silenciadas em defesa da democracia? Que futuro político nos aguarda?

 

Por Anamaria Modesto Vieira

Comments

Comentários