Sexta-feira 13 de maio de 2016

A sexta-feira 13 complementa a narrativa da #surrealpolitik, cujo dramático desenrolar nos últimos anos se intensificou de forma arrebatadora nos últimos dias. São tempos turbulentos para ser brasileira. São tempos árduos para ser uma feminista no Brasil.

Debater questões feministas nunca foi fácil, mas a explosão de discursos e práticas feministas no país, especialmente visíveis em 2015, nos encheu de garra para a construção de um projeto mais abrangente de emancipação e empoderamento das mulheres, um passo crucial do caminho em direção à equidade, de gênero e social.

Ao mesmo tempo em que o projeto feminista ganhou visibilidade e uma profusão inédita de canais de divulgação, especialmente na internet, a violência simbólica e real contra feministas, prática antiga, se intensificou.

Esta intensificação coincide com a intensificação da violência simbólica – também misógina – que caracterizou o debate político no país.

Ao sermos tomados por narrativas novelísticas de polarizações, com mocinhos e bandidos intercambiáveis e reviravoltas no enredo, e com conceitos como “democracia” sendo disputados ideológica e linguisticamente, assistimos ansiosos o aumento no clima de hostilidade no debate.

A polarização do discurso no contexto político brasileiro é manifesta no uso de expressões como petrlha, coxinha, ou variantes, como artifício para desarticular o argumento do outro antes mesmo que o argumento seja feito. A polarização se vê na disputa baseada em cor de camisa, como se fosse futebol. Em pensar esquerda e direita como monólitos imutáveis, e não conceitos sobre estruturas de valores e sistemas político-sociais.

Se a polarização é o modus operandi do debate, inevitavelmente tudo será dragado para um ou para o outro polo.

O feminismo – que é agitado pelo lado de dentro, embora menos polarizado, e me arrisco a atribuir isto ao feminismo interseccional – foi, neste período, feito massa de manobra. Mas resistiu, e rápido, e bem. Mulherada de grelo duro.

Visto os atores e o contexto histórico, e o fato de que feminismo é político, seria risível não esperar que análises feministas sobre o cenário político fossem feitas: Dilma Rousseff é a primeira presidenta eleita, e o governo que agora se apresenta não representa: tem zero mulheres. Prato cheio e amargo para análises de gênero.

Há quem defenda ou execre qualquer ideia ou pessoa cegamente, no feminismo e fora. Mas sempre há nuance no pensamento crítico.

Expor os ataques misóginos a que Dilma Rousseff foi grotescamente submetida não tem nada a ver com apoiar ou não o governo – são categorias diferentes de análise, que não têm relação nem invalidam uma à outra. Tanto é assim que expomos os ataques misóginos a que todas as mulheres públicas deste período são expostas, vide Janaína Paschoal e Marcela Temer.

Ser contra ou a favor o impeachment/golpe, exige outras categoria de análise – pode-se querer o fim de um governo, ou se opor ao começo de um outro, por motivos diferentes.

No modus operandi da polarização a nuance não encontra espaço. Não há lugar para a pluralidade vocal. Para a dúvida, então, nem pensar. O outro abjeto precisa ser facilmente identificado, fomenta-se o clima de nós vs eles, e lá se vai o diálogo.

Às vezes, no entanto, isto se faz necessário. É inevitável. Nem o diálogo é perfeito, e o debate acerca da violência não se encerra aqui – pelo contrário, o autoritarismo e a violência vêm crescendo.

O feminismo, sendo uma luta por direitos e um projeto dialético, pontua essa discussão política apesar de sua polarização. Críticas feministas são: ao patriarcado, ao machismo e à misoginia, que são violentos, institucionalizados, sistêmicos e performativos.

Criticar é uma ação, uma ação política, e uma ação política que fundamenta projetos como o feminismo. Mulheres dizem que é preciso mais mulheres no poder. Os negros dizem que é preciso mais negros no poder. E os homens brancos dizem que isso é bobagem, que o importante é competência.

A importância da representação e da representatividade é verdadeiramente um mistério para quem sempre se viu representado.

Ontem os sinais do novo governo começaram a se apresentar, e a falta de representatividade, sozinha, é alarmante. É urgente que se saiba que a falta de representatividade institucional de mulheres em posições de poder é uma questão sistêmica que exige mais engajamento social do que o que cada mulher pode fazer individualmente. Este é um bom momento para constatar isso. E entender melhor o feminismo.

Por isso vamos continuar: falando sobre as nossas experiências, apurando nossos estudos, produzindo conteúdo, e nutrindo uma episteme que foi, e é produzida maciçamente por mulheres. São conhecimentos femininos, saberes oriundos das experiências de muitas mulheres ao longo da história, organizados sob o nome feminismo.

As mulheres não estão neste governo. Mas as feministas seguem aqui.

 

Por Joanna Burigo
Imagem destacada: daqui

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