Notas sobre a cultura do estupro

(1) Acabei de saber que a menina brutalmente estuprada está prestando depoimento na mesma delegacia que o homem que a estuprou. Ela está no mesmo ambiente que o homem que reuniu outros 33 homens para estuprá-la;

(2) Os jornais internacionais relacionam o caso à “violência nas favelas brasileiras”. Aqui é importante frisar que a cultura do estupro atravessa todas as camadas sociais. Não vamos nos esquecer dos casos de estupro na Faculdade de Medicina da USP, um dos cursos mais elitistas de São Paulo. Nem dos casos de estupros em festas de grêmio de colégios de classe alta da Zona Sul do Rio de Janeiro. Esse tipo de discurso não só carrega uma forte opressão de classe, mas também pretende determinar que estupradores são sempre os outros: os mais pobres, os de outra cultura, de outra época;

(3) Como muitas mulheres já falaram, estupradores não são monstros; são homens. E esse mal não está unicamente em comportamentos individuais considerados monstruosos, mas em todos os comportamentos que sustentam a cultura do estupro. Está no puxão de cabelo na balada, na piada sobre estupro, está no assédio a meninas cada vez mais jovens. Está numa sociedade em que não se pode falar em consentimento pleno. Numa sociedade em que meninos aprendem que meninas são objetos, propriedade, troféus. Aprendem que meninas são menos humanas. Aqui é importante frisar que isso não é “culpa das mães de meninos” – parem de culpar mulheres, porra! Nenhum esforço de nenhuma mãe vai proteger um menino de ser ensinado numa sociedade misógina. Essa mudança não vai vir individualmente;

(4) Não é possível mensurar a dor que essa menina sofreu, é uma dor indizível. É o horror pleno que se repete no vídeo, nas piadas, no silêncio. É um horror que nos atinge de diferentes formas quando estamos sozinhas com um homem – seja ele conhecido ou não. A função da cultura do estupro é justamente essa: criar o medo e, consequentemente, controlar. Essa luta não começou hoje e não vai terminar amanhã. Mas estamos juntas nisso.

Estamos juntas contra esse poder. Um poder que se revela em tudo – do silêncio das escolas, faculdades, famílias, Igrejas, imprensa, enfim, da sociedade, à uma “justiça” que obriga uma menina estuprada a estar no mesmo ambiente que o seu estuprador.

Por Daniela Lima
Imagem destacada: daqui

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