Trans: tirando o debate da euforia estética e vazia

Tá foda. Sério, cansa, e é assustador pra mim às vezes o quanto essa euforia estética alucinada mantém a gente presa na superfície das questões sobre transexualidade e travestilidade, amarradas e amarrados a uma perspectiva de pretensa e falsa ruptura que começa e termina da relação complexa e contraditória que homens gays tem com a feminilidade.

E sabe, não é sobre isso. Nunca foi.

E a gente fica presa, amarrada a isso sem perceber, na encruzilhada de um monte de movimento que não é o nosso. De mulheres LB (e HT) que são críticas a nós porque acham que a nossa “performatividade” não nos isenta de sermos da “classe opressora dos machos”; ou de homens gays que projetam os seus (compreensíveis) complexos com as feminilidades em nós e por mais que dizem que não, parece que colocam a gente num pedestal de “super-eles”, de super-bichas ou super-sapatas; ou de feminismos que se opõem às radicais porque acham a nossa “performatividade” incrível, questionadora e livre; ou heterossexuais ricos e de setores médios entediados com a sua falta de problemas sérios e procurando sua dose de “contravenção” ou seu alívio de consciência pesada, etc etc etc.

Seja pra quem for, do nosso lado ou do outro, pra todo mundo parece ser sobre “performatividade” e foda-se, não é. E a gente sabe que não é.

E honestamente, já não deu não? Isso é uma babaquice e está prejudicando a gente. E não só a gente, mas o feminismo, o movimento LGBT… Isso é nocivo, é infantil até.

Isso não é sobre roupa, maquiagem, trejeitos e comportamentos, não é. A própria Butler, que todo mundo adora citar pra justificar botar uma roupa diferente ou pra criticar quem bota, sabia que performatividade é a ponta do iceberg, que o aprendizado das performatividades é coercitivo, imposto e condicionado a mecanismos estruturais de dominação de gênero. Mas não, foda-se, essa parte fica convenientemente posta de lado. Conveniente pra quem? Não pra nós. Pra ninguém, na real, mas definitivamente não pra nós.

Aí ficam lá as pretensas “radicais” no seu pseudo-materialismo formal e mecânico querendo discutir os aspectos estruturais do sistema sexo-gênero (e óbvio que não chamam assim), mas cagando dois baldes pra TOTALIDADE e pra REALIDADE do sistema de gênero como é hoje, no nosso tempo – a discussão pára no limite dos seus preconceitos, justificados por retóricas calculadas e teorias conspiratórias.

Foda-se que com buceta ou sem, a realidade da nossa população é de submissão machista, de estupros, abusos, violações, exploração sexual, exploração e abuso domésticos e a porra toda. Não, isso é irrelevante. Gostos, preferências e subjetividades são imposições sociais, coerção e dominação, mas não sobre nós? Vão se foder. O gênero é imposto, mas não pra gente, parece que a gente é um bando de masoquista fetichista que adora se foder na vida.

E aí vem uma outa galera que sai na hora em nossa defesa pra nos salvar das “radicais malvadonas” mas não consegue superar a aparência também. Vira sobre batons, sobre saias e maquiagens, sobre “poder fazer o que quiser com o corpo e a aparência”, e o resultado é um bando de homem de batom e saia posando pra foto e dando close em passeata, numa catarse muito positiva e saudável, mas que absolutamente não é sobre nós.

E todo mundo já aprendeu o truque: é só falar de prostituição e homicídio que pronto, tá absolvido, tudo bem disfarçadinho de “crítica estrutural”.

Mas isso não é sobre “poder fazer o que quiser com o corpo”. Não é. Isso é sobre coerção também, é sobre não poder existir de outra forma. É sobre não ter outra escolha senão transicionar e arcar com as consequências disso pra minimamente existir, e isso não tem nada a ver com “liberdade sobre o corpo”, ou com gostar ou não de batom, saia, maquiagem ou o que for. A gente não é o que é porque tá questionando o sistema, a gente é o que é porque é parte dele. E porque é uma parte que se fode pra caralho dele.

E a gente PRECISA falar sobre isso. Discutir isso, estudar isso, produzir conhecimento, produzir ferramentas de luta.

 

E vejam, eu acho massa que pessoas e movimentos estejam questionando padrões de comportamento e vestimenta, e se permitindo experimentar, fazer diferente, etc. Acho massa que homens gays tentem mesmo trabalhar essa relação complexa e de base misógina que eles tem com a feminilidade, também. Acho fundamental que mulheres desnaturalizem os comportamentos de submissão impostos e descubram que pode ser diferente. Acho importante que os movimentos pensem sexo e afeto pra além do que a gente aprende e é educado a saber. Mas nada disso é sobre nós, não na raiz. Isso é só a superfície, e nosso trilho é outro, tá mais embaixo, mais profundo e quase às moscas porque a gente não consegue sair dessa porra dessa festinha pseudo-queer que é tão superficial que frequentemente parece revista de fofoca ou coluna social.

Eu tô cansada.

Cansada de passar o que a gente passa, de ver amigas e amigos passando por tudo o que a gente passa, e ver geral rodando em círculos em debates estéticos e superficiais e toda movimentação discordante é soterrada. Ou são “as dinossauras do movimento”, ou são “as pobrezinhas e pobrezinhos que não tiveram ‘acesso ao debate'”, ou é “a esquerda ortodoxa que precisa se renovar”, ou é “esse bando de academicista”… Seja da forma que for, querer ir além dessa festinha eufórica é imperdoável. Fodam-se, sério.

A gente precisa muito falar sobre nós, e é massa que a gente tá começando a falar. Mas não é falar qualquer coisa, é sobre nós de fato. Com outra qualidade. E não é só a gente que precisa, a luta precisa, a luta da classe, a luta contra o sistema de gênero, a luta por emancipação precisa. Porque na real mesmo, nosso trilho, nosso caminho, o que é nosso DE FATO, corta na carne dessa festinha hippie dos XXI.

Quando o senso comum militante e a galerinha descolada roupas-sem-gênero parar de bater palminha pra qualquer porra que a gente fala nessa mistura bizarra de complexo de culpa, fetichização e condescendência, aí sim, talvez, a gente esteja começando a achar o nosso lugar. Tamo precisando.

Por Amanda Palha

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