A menina do Rio: notas sobre revolta, feminismo e desamparo

Tentei viver a semana do dia 25 de maio embaixo de uma pedra. Do momento em que acordava até a hora de ir dormir, encarnava a jornalista que busca a qualquer custo se alienar dos jornais, da TV, das redes sociais – de tudo que fosse necessário para escapar do estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro. Quando soube do caso, o Twitter já suspendera a conta que expusera a vítima de 16 anos em vídeo. Mesmo determinada a permanecer ignorante sobre o crime, precisei entregar os pontos quase que imediatamente: na internet e fora dela, os comentários repercutindo o abuso se multiplicavam como água. Hoje acho até difícil acreditar que o tumulto começou há pouco menos de duas semanas.

Por outro lado, fiquei impressionada com o quanto a minha timeline do Facebook – uma das minhas principais fontes de informação – me permitiu seguir tão perdida quanto eu gostaria naquele intervalo. No início, eu organizava aleatoriamente uma cronologia porca dos fatos e pescava versões, números e nomes (alguns dos quais eu sequer deveria ter acesso, como o da própria vítima adolescente). Mas eram tantas as narrativas paralelas surgindo – cultura do estupro, socialização masculina, apropriação cultural, feminismo radical vs. transfeminismo – que, no final das contas, eu continuava sem saber muita coisa sobre o acontecimento em si, os envolvidos no caso, o andamento das investigações e até as providências que as feministas estavam tomando.

É verdade que, em grande parte, essa desorientação se devia ao calor do momento: o crime acontecera há poucos dias e ninguém, nem as autoridades, sabia de nada (ainda que, a julgar pela comoção, quase todo mundo já tivesse uma opinião sólida sobre a coisa toda).

Mas a confusão também se explica porque o acontecimento factual de onde todas as discussões partiram parecia pouco relevante para o falatório sobre ele.

Conforme a investigação se desenrolava, algumas feministas atualizavam o seu Facebook reparando informações errôneas divulgadas anteriormente: “não se tratou de um ‘estupro corretivo’”, “não se sabe se o ex-namorado estava entre os 33 homens”, “sabe-se que foram pelo menos 30, mas não se sabe ao certo quantos são os envolvidos”… Precavidas, várias dessas postagens faziam o adendo: “não que isso [o fato novo] faça qualquer diferença [na interpretação do caso], mas…”.

É claro que tememos pela fragilidade da nossa posição enquanto feministas. Estamos tão acostumadas com a descrença alheia que internalizamos certa necessidade de reiterar como, no geral, os detalhes não alteram – pelo menos, não invalidam – nossos argumentos e reivindicações básicas.

De fato, nenhuma informação nova sobre o caso interferiu no seu eixo fundamental: o que temos nas mãos é um bárbaro estupro de vulnerável, ponto final. Mesmo que o sexo ocorrido antes da gravação das imagens tivesse sido consentido, como alguns áudios divulgados sugeriam, o momento do vídeo em si já constitui crime segundo a nova legislação. Mas será que nós, feministas, não revelamos algo um pouco mais inquietante com ressalvas desse tipo? É possível que a nossa cautela eventualmente nos pegue pelas costas e, por priorizar a narrativa geral, nós terminemos por descaracterizar casos particulares? Por que, em relação ao caso do Rio, detalhes que podem não ser tão pequenos assim aparentemente não nos interessam?

* * *

Quase todas as informações que reuni sobre o caso vieram da cobertura do programa Conexão Repórter , do SBT. Na reportagem, a adolescente conta a Roberto Cabrini que foi drogada e estuprada em um local diferente de onde dormiu na noite do dia 21 de maio, e que acordou com 33 homens desconhecidos sobre ela. (Por razões óbvias, o número de envolvidos no estupro coletivo permanece como o único ponto nebuloso do relato da jovem). Tendo chegado em casa sem ação e sangrando, ela tomou banho, dormiu imediatamente e não pensava em denunciar o ocorrido. Moradora de um condomínio de classe média, a garota é mãe de um menino de 3 anos, que a avó afirma ter como pai um traficante. Um dos principais pontos de tensão da matéria é a relação da menina com as drogas: enquanto ela confirma fazer uso ocasional de loló e ecstasy e não vê nenhuma relação entre esse hábito e o estupro sofrido, a mãe explica que a filha se submete a situações degradantes e de risco para sustentar o vício há pelo menos três anos. Acrescenta, ainda, que buscou várias vezes interná-la em clínicas de reabilitação.

O programa também exibe áudios onde ditos frequentadores dos bailes funk e moradores da comunidade onde o estupro se deu endossam a versão da mãe da jovem. Uma mulher diz que nas festas onde “tem indola de loló, […] os meninos fazem isso com ela sempre, sempre”. A veracidade das gravações não é confirmada, mas, tomando-se por “isso” o estupro coletivo em questão, a fala insinua uma recorrência da violência sexual no cotidiano da adolescente, cujos abusos anteriores o público amplo simplesmente calhou de não ter acesso. A propósito, é desconcertante constatar que boa parte da resistência à versão da vítima surgiu da própria comunidade e de pessoas que alegavam conhecer a jovem “para além da mídia”. A rede de apoio formada a partir das denúncias do vídeo foi em muito uma iniciativa exógena, constituída por uma classe média difusa e distante da realidade da menina. No Morro do Barão, o estranhamento parecia estar menos no estupro de proporções bárbaras (que foi inclusive contestado) do que no vazamento de registros dele, essa sim a percebida particularidade do caso.

Aqui, é difícil não pensar que o que está colocado é um conflito de significação.

Como é possível que algo que escandalizou tantos brasileiros seja tratado com tanta banalidade e desconfiança por outros, inclusive alguns mais próximos da cena do crime? O que explica essa dissonância e por que ela parece tão difícil de realinhar? Alguém poderia dizer que essa reação prova, justamente, a vigência da cultura do estupro no país. Ainda que esse argumento não seja errado (não é), ele me parece muito generalista e vazio para funcionar como explicação desse desencontro de perspectivas. Como um dos poucos textos mais criteriosos sobre o caso observou, “restringi[-lo] somente à vítima e ao agressor é ter um olhar superficial sobre o tema” – e eu arrisco concordar que a ênfase na dimensão do gênero está eclipsando outras variáveis igualmente importantes para a compreensão do caso, como as questões de classe e a relação entre Estado e poderes paralelos.

O mesmo texto aponta que a publicação de um vídeo no Twitter é sintomática do quanto, além dos homens envolvidos, a própria comunidade devia abordar crimes sexuais com naturalidade. Se é importante identificar os estupradores e puni-los, é igualmente necessário reconhecer que a responsabilidade pela violência recai sobre um sem-número de pessoas que contribuíram para o acontecimento de forma passiva, e que o fazem da favela aos bairros nobres de todo o Brasil.

Desse ponto de vista, faz todo sentido levantar o debate sobre a cultura do estupro – uma onde a violência sexual contra as mulheres é normalizada, anistiada e incentivada. O que eu questiono é: podemos corresponder o silêncio da comunidade somente à conformidade instaurada por essa moldura social? Nós – feministas de classe média, que englobam a maior parte daquelas ativas na internet – estamos suficientemente a par das relações de poder envolvidas nesse contexto social para fazer uma afirmação tão categórica?

Retornemos por um momento à matéria do Conexão Repórter. Se a jovem estuprada é mãe de uma criança de 3 anos aos 16, ela engravidou de outro estupro de vulnerável aos 12 ou 13 anos. Somando-se essa informação aos áudios exibidos e às falas da mãe da menina, surgem as seguintes perguntas: o que alguém que aparenta carregar uma bagagem tão pesada de violação sexual compreende por “consentimento”? Não é lógico supor que uma menina que convive com o abuso desde cedo tenha dificuldades de impor seus limites no sexo – e, logo, tenha naturalizado o estupro tanto quanto as pessoas que se voltaram contra ela? Desse modo, o que causou a ruptura no seu processo de significação dos acontecimentos? O que se passou na madrugada do dia 22 de maio que permitiu à garota nomear o “sexo grupal” como “estupro coletivo”?

Essas questões me ocorreram especificamente no trecho 16’15” da reportagem, onde, de repente, a menina diz a Cabrini: “então se eu ando na rua e uma pessoa vem atrás de mim, eu fico com medo, assim, se um carro vai devagar do meu lado, eu fico com medo”. Meu mal-estar não foi com o conteúdo da fala, mas com o lugar deslocado que ela ocupa no conjunto da matéria. Os dois não conversavam sobre assédio de rua. Eles não retomam o assunto posteriormente. Acima de tudo, esse é um dos três momentos em que o discurso da adolescente surrealmente se aproxima da minha timeline do Facebook. Os outros dois são aos 14’40”, quando ela justifica a decisão inicial de não denunciar o ocorrido (“[a] punição só chegaria a mim, não neles [os estupradores]”), e aos 17’30”, quando a jovem especula que os homens a estupraram “para sentir poder sobre uma pessoa”.

Cogitei sinceramente que a fala perdida não passasse de uma questão de edição. Mas outro ponto da entrevista sugere uma origem diferente para este excesso: aquele em que a adolescente conta ter lido comentários sobre o caso no Facebook. Aos 15’50”: “estão falando assim: ‘ah, foi culpa dela, ela que gosta… Foi ela que […] ‘tava de roupa curta, ela que se drogou, ela que fez isso, ela que quis ir pra lá’, entendeu? […] Como se a culpa fosse minha”. A menina decidiu denunciar o estupro coletivo após o dia 24 de maio, quando o vídeo de exposição foi divulgado. Entre os dias 26 e 27, ela agradeceu em seu perfil pessoal na rede o apoio que estava recebendo online. Embora eu não saiba por qual meio as mensagens foram transmitidas, pergunto-me se a tal ruptura na significação do acontecimento – a nomeação do estupro coletivo – ocorreu nesse ínterim, a partir de um feedback estranho e inesperado.

Será que o apoio enviado, essencialmente feminista em seu conteúdo, contribuiu para um giro na perspectiva da adolescente? Não tenho dúvidas de que ela se sentisse suja e envergonhada após o crime, como alega à Cabrini. Mas daí a processar que a experiência tinha a ver com poder e não com desejo soa como um grande salto para alguém com um repertório tão intenso de violência sexual.

Na entrevista, a menina pontuava que “ainda não [caíra] a ficha” de tudo o que fora vivido no fim de semana anterior. Sendo assim, é possível que a comoção imediata suscitada pelo vídeo nas redes sociais tenha se sobreposto à sua assimilação do estupro? Podemos imaginar que a torrente feminista que se seguiu à exposição, pela velocidade com que se articulou, tenha sugestionado a jovem para além do seu próprio entendimento? Se sim, o que esse atropelamento representa para ela e, principalmente, para nós enquanto movimento?

* * *

Toda essa reflexão nasceu de uma angústia que me acompanha desde o dia em que o vídeo do estupro veio à tona. Um dos primeiros sintomas de desconforto foi o surgimento de uma percepção elástica do tempo: nem 24 horas haviam se passado e eu sentia como se estivesse lendo “estupro”, “vítima” e “todo homem é um estuprador em potencial” há meses, enquanto muitas companheiras feministas estavam a todo vapor, ocupando-se com outras coisas. Hoje acho que o que me incomodava, afinal, é que a experiência da web me ensina o seguinte: por via de regra, todo fluxo muito intenso de informação gerado de forma orgânica em um curtíssimo intervalo de tempo anuncia o silêncio que se seguirá, na mesma velocidade, até o próximo frisson.

Se a consciência de ser vítima de um estupro coletivo foi ou será libertadora para a menina, convém indagar a que preço essa liberdade foi enfim alcançada. Penso que todas as mulheres atravessam um período muito conflituoso quando começam a negociar a sua opressão internamente, enxergando problemas, abusos e traumas onde antes não havia (quase) nada. A diferença é que quase nenhuma de nós faz isso sob a pressão de deixar o estado onde vive e perigando ter o acesso à internet e ao celular cortado e ter de assumir uma nova identidade . Essa virada é recente e não me surpreende que pouco tenha se falado sobre ela até agora.

Proponho, portanto, que dediquemos um momento para refletir sobre o impacto que as ações que nós, em muito, ajudamos a mobilizar estão surtindo sobre a vida de um indivíduo bastante desamparado em sua trajetória pessoal.

Se confirmado, o abandono forçado da identidade será um acontecimento fortemente simbólico. Trata-se do cúmulo de ter a própria vida reduzida à violência que lhe foi infligida: por conta do estupro que ousou denunciar, a jovem se verá obrigada a abrir mão de toda a sua história até hoje.

Não faço a menor ideia de como ela encara essa possibilidade; as autoridades relatam que ela está muito assustada e “disposta a mudar de vida”. O que sei é que enquanto esse procedimento é passível de ser realizado no âmbito da Lei – pela adoção de outro nome, atualização dos documentos e burocracias do gênero –, ele é infinitamente mais complexo de ser empreendido subjetivamente. Como alguém rompe com 16 anos de existência? Nunca conheceremos os próximos capítulos dessa narrativa, mas de qualquer maneira, cabe avaliar as chances da adolescente receber um acompanhamento adequado nesse percurso. Cabe, inclusive, avaliar as chances de ela se encontrar na mesma situação de abuso no futuro, sofrendo com outro nome e na mão de outros homens, caso o aconselhamento necessário não venha.

Alguém poderia argumentar que o movimento feminista está lutando para que nem ela, nem nenhuma adolescente no futuro tenha de enfrentar o mesmo horror ou penar por muito menos por conta de seu gênero. Eu detesto ocupar um lugar tão cético justo neste momento, mas a trajetória mesma deste caso de estupro coletivo não me deixa otimista em relação a esse projeto. Até agora, nossa estratégia de luta se ancorou basicamente sobre a denúncia da cultura do estupro: o debate foi direcionado especialmente aos homens, conclamados a reconhecer seu potencial opressor e assumir responsabilidade pelas violências que perpetram.

Enquanto demandar mudanças da ordem da cultura é vital para a erradicação do machismo e da misoginia, este movimento repercute a longo prazo e gera resultados práticos a muito, muito custo. No caso em questão, acho seguro afirmar que os principais efeitos até agora foram, para a vítima, ameaças à integridade física e a iminência de uma virada dramática na própria vida. Para a sociedade como um todo, foi a amplificação do estresse que já carcome a saúde e as relações de mulheres e homens, dentro e fora da internet. Fim da história.

Não se trata de avacalhar o feminismo sugerindo que tudo o que vem sendo feito está “errado”. Trata-se de apontar que mudanças estruturais entrarão em marcha conforme ações localizadas, pragmáticas, micropolíticas forem sendo empreendidas. Esses dois níveis são interdependentes e não podem ser endereçados em separado, como uma inacreditável quantidade de ativistas insiste em defender. Estou pautando a ideia de que as mobilizações feministas têm carecido de foco e, por isso e paradoxalmente, estão galgando um alcance muito amplo e uma efetividade limitada.

Um bom exemplo dessa contradição se expressa na concomitância da cobertura jornalística sobre o caso do Rio de Janeiro e a aprovação do PL nº 5.069/2013 pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, no dia 30 de maio. Pelo que acompanhei na internet, na TV e no rádio, posso afirmar que nunca vi tantas feministas sendo procuradas pela mídia e verbalizando nossos discursos para o público amplo antes. Ironicamente, o projeto de lei que, se aprovado, teria barrado o atendimento hospitalar de emergência à própria menina estuprada segue tramitando para avaliação em Brasília.

Um grande risco de mobilizações em torno de pautas muito amplas (“pelo fim da cultura do estupro”) é o alargamento de sentido que seus atos simbólicos sofrem, promovido por quem se mobiliza e por quem assiste à mobilização.

Por isso, eu penso que não é à toa que a mídia tradicional esteja optando por acompanhar o caso do Rio pela nossa ótica. “Cultura do estupro” é um conceito geral o suficiente para engajar a feminista jovem e conectada; a mulher que é feminista e não sabe; os homens que “não são como aqueles monstros”; os machistas benevolentes, que reprovam o estupro porque pensam nas “suas” mulheres; e, finalmente, os fascistas que querem os estupradores castrados ou mortos.

A massificação do debate é algo que reverte mais audiência para todos os meios cobrindo o assunto enquanto cutuca uma série de outros discursos que instrumentalizam a comoção feminista para pressionar agendas distintas das do próprio movimento. Esse ponto se torna especialmente preocupante quando lembramos que a mídia, no Brasil, é uma influenciadora decisiva dos poderes institucionais. Nesse cenário, quem poderia garantir que quaisquer excessos da polícia no acompanhamento do caso – os mesmos que nós combatemos em outras circunstâncias – realmente não teriam nada a ver conosco?

Na verdade, não precisamos sequer avaliar as posturas “externas” para perceber a delicadeza e o imponderável de nossas ações: basta observarmos a relação do feminismo online com o caso até o momento. Em questão de horas, o que começou com o horror pela barbarização de uma menor de idade foi cedendo espaço para um fluxo intenso de desabafos pessoais, a negociação da violência com todos os homens do mundo, o cisma entre filtros de perfil para mulheres brancas e para mulheres negras, o resgate da treta entre mulheres trans e mulheres cis que não se admitem cis. Muito mais discretas foram as postagens que falavam sobre a vivência da masculinidade tóxica por homens socialmente marginalizados , o impacto desse fenômeno sobre as mulheres do mesmo estrato social, como as vítimas de estupro podem conseguir assistência médica, jurídica e terapêutica , a própria aprovação do PL n° 5.069/2013 pela Comissão da Câmara.

Novamente, não se trata de afirmar que as discussões levantadas não são importantes, mas de questionar a pertinência de cada uma em relação a este estupro coletivo em particular.

Perder de vista a origem da mobilização e o contexto que envolve o estupro em si implica a irresponsabilidade de diluir uma violência brutal e tudo o que a singulariza em pretextos para falarmos sobre nós mesmas.

Para ficar apenas na questão “cultura do estupro”, observemos o seguinte: este compilado de dados oficiais indica que a maior parte dos estupros no Brasil acontece dentro de casa e é perpetrada por parentes, parceiros, amigos e conhecidos da vítima. Informa, ainda, que a probabilidade de o agressor ser um estranho aumenta conforme aumenta a idade da vítima. Para as feministas, esses achados são batidos – mas, inconvenientemente, não se aplicam ao estupro do dia 22 de maio. A vítima, menor de idade, afirma que foi violentada em local desconhecido, por adultos desconhecidos. Da mesma forma, o caso se enquadra nos “meros” 15% de estupros que envolvem mais de um agressor simultâneo – ou seja, está (bem) na contramão de 85% dos casos notificados.

É curioso perceber como o abuso que provocou a maior discussão sobre cultura do estupro no Brasil pouco se identifica com a esmagadora maioria dos casos registrados: os denominadores comuns são o fato de os estupradores serem homens (como em 97% das ocorrências) e da vítima ser uma adolescente (mais de 70% das ocorrências).

Se somos um grupo que pretensamente se preocupa em não apagar especificidades de luta, por que não sabemos denunciar o estupro como um problema que atravessa a sociedade, mas que é único para cada vítima? Por que transformamos este caso em mero gancho para outras questões tão distantes dele, familiares em sua maioria à nossa bolha online?

Aqui cabe retomar a provocação de Sthéfani Luane em seu texto no portal Geledés: “estamos dispostas [enquanto feministas] a fazer esse deslocamento [da internet e dos atos simbólicos até as comunidades]?”. Por um minuto, sejamos impiedosas para conosco: estamos devidamente atentas ao que caracterizou este estupro para gerar ações efetivas para as mulheres propensas a passar pela mesma violência?

* * *

O Brasil configura há algum tempo um cenário que praticamente exige a polarização e repudia zonas cinzentas, margens essenciais de qualquer debate aprofundado. Assistimos, desolados, à casa cair por tanto tempo que já não nos sentimos no direito de hesitar sobre nada.

Desse modo, algumas feministas podem se perceber em uma posição difícil. Eu sei que estou nela: me incomoda profundamente ser constrangida por minhas companheiras a repetir os mesmos slogans, não “viajar” demais, empobrecer as discussões porque “lá fora”, ainda estamos inventando a roda, tendo de ensinar às pessoas que sexo com alguém desacordado é estupro. Ou porque entre nós mesmas, o microfascismo é o que dá as cartas e, para não ser “rachada”, é melhor engolir as próprias inquietações.

Escrevi antecipando suspeitas sobre o seu objetivo, mas acredito que essas notas trazem interrogações que não são só minhas e que são importantes para que o feminismo permaneça vigilante e fiel às suas responsabilidades.

Enquanto movimento social, respeitamos de fato a privacidade e o processo da jovem vitimada ou nos distraímos com a disputa discursiva, incorrendo em uma espécie de colonização do acontecimento? Acredito que empreendemos as duas coisas, apenas de forma muito desorganizada. Sendo assim, o que fizemos de mais?

É possível que, majoritariamente, estejamos tão apaixonadas pela causa que, sem ter a intenção nem a consciência disso, sacrificamos o indivíduo que buscamos tanto resgatar? De que natureza é esse apoio? Um movimento – ou alguns movimentos – que abrem mão da crítica para se visibilizar mais facilmente em um país medieval pode garantir que essa escolha valerá a pena?

Nenhuma de nossas comoções é eterna: um dia, removemos o filtro da foto de perfil, abandonamos as tretas, desativamos nossas contas nas redes sociais. Somente as vítimas – de estupro coletivo, de abuso sexual, de pedofilia, que seja – têm de conviver com esses casos pelo resto da vida.

Para a menina do Rio, essa tarefa pode incluir acomodar um passado legalmente inexistente – e aqui, jamais será em nós como será nela. Jamais #seremostodasfulana. O que de fato oferecemos a ela para a sua jornada? O que, afinal, fizemos e estamos fazendo?

 

Por Stefanie Cirne
Imagem destacada: daqui

Comments

Comentários