Reflexões sobre prostituição e feminismo radical

Alguns setores de todos os movimentos sociais apresentam uma mania de vanguarda iluminada e normalmente não querem dialogar com ninguém, por pensarem que seu discurso se basta e se auto-justifica em si mesmo.

Entretanto, quem não dialoga e se prende em seus próprios dogmas, obviamente acaba sozinha, circundada apenas por quem compactua, integralmente, com o dogmatismo proposto pelo grupo. Ficar girando em torno de si e daquelas que lhes são comuns (o que é de uma homogeneidade purista e de uma coerência dura), assim como desqualificar as vozes que se pretende representar, não é nem nunca foi algo radical.

É possível, ao invés de dizer que só pode se dizer radical quem é contra certas práticas materiais das pessoas, debater acerca dessas práticas em torno dos conceitos propostos pela teoria radical. Até porque, ser radical é muito bom: é ir na raiz. Mas quem define o que é ou não é a “raiz” não é o feminismo radical, e sim o debate teórico entre perspectivas.

Então é possível ser a favor da regulamentação da prostituição e denominar-se feminista radical? Sim, para quem está interessada em ir às raízes das violências — que são mais plurais do que se pensa.

Para quem está interessada em ler outras feministas para refletir e não ser injusta com outras eventuais reflexões sobre prostituição, sexualidades e feminismos, deixamos algumas perguntas.

  • Por que ser contra regulamentar a prostituição como forma de reduzir a marginalização de prostitutas e de inclui-las no mercado de trabalho formal, lhes concedendo direitos trabalhistas?
  • É possível ser contra o PL Gabriela Leite mas a favor da regulamentação de outra forma?
  • Legalmente falando – e não em termos de teoria feminista – qual seria a melhor solução?
  • Qual é a alternativa prática e material, capaz de influir de fato na realidade das prostitutas?

A teoria radical dá inúmeras contribuições importantes e tem várias demandas e problematizações essenciais aos feminismos. Entretanto, cada vez que se lê que “ou concorda com  X, Y, Z ou não pode se dizer feminista radical”, respiramos aliviadas por nos declararmos, antes de declarar adesão a quaisquer vertentes, como não mais que feministas.

Sugerimos que, coletivamente, revisitemos o significado de “doutrina” no dicionário, e reflitamos acerca do quanto a construção de conhecimento, de conscientização social e de processos de emancipação são, todos e por essência, avessos ao pensamento doutrinário.

Já que não temos certezas, e já que nossas concepções podem mudar (e necessariamente mudam) enquanto muda o tempo, o contexto sociocultural, a dimensão econômica, as mídias, as relações entre indivíduos e tantas demais questões que incidem no gênero e que são incididos por ele, dogmas nos dão coceira – bem como paradigmas internamente inertes e externamente fechados (para demais contribuições) nos deixam inquietas.

As mulheres são múltiplas e plurais, e acreditamos que os feminismos também devem ser. A salvação ou a libertação de uma, caso parta, exclusivamente, dos termos de outra, é também violência.

Mais diálogo, minas!

Por Casa da Mãe Joanna
Imagem destacada: daqui

 

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