Nos vemos, nos despimos.

O grande problema que o feminismo atual parece enfrentar é assumir-se como luta exclusiva pela mulheres.

Gostaria muito que cada mulher meditasse profundamente sobre isso. Sem raiva, sem pré-conceitos, sem medos de se descobrir, de descobrir um lado muito profundo, que talvez sequer goste de ver. O feminismo é sobre priorizar mulheres e todas as suas vivências exclusivas. Nenhum outro grupo é questionado pela sociedade por isso, nem os negros, nem os gays, nem homens ou mulheres trans, nem estrangeiros etc.

Como a mulher sempre foi definida em contraposição ao outro, “ao homem”, nossa identidade, mais do que outros grupos, sempre foi relacional. Sou mulher porque não sou homem. Sou mulher porque sou mãe de alguém. Enquanto o homem é. Desmontar essa memória secular que pesa sobre nós não é tarefa de uma geração. Pensar-se a partir da sua própria aventura na vida, algo que não envolva relações amorosas, nem a família, como ponto final.

Pensar-se para a criação, para a descoberta e amor ao próprio corpo para si, não para o outro. Amar seu corpo não pelo poder de atração que ele desperta no outro. Amar sua própria inteligência, seu humor, sua suavidade, sua raiva, pelo que suas características trazem para si e não para os outros. Ignorar o outro a ponto de ser ver. Aprender com as mulheres negras (obrigada Paula ) que a passagem de um cabelo alisado para a descoberta do próprio cabelo pode ser também um rito metafórico para todas as mulheres, incluindo as brancas. O que nos foi “alisado”, imposto, estranho a nós e que agora estamos aqui escolhendo por nós? Nossos pelos, ter ou não ter filhos, nossa forma de amar, nossa forma de estar só?

Meditar sobre si profundamente até o outro desaparecer. O ódio que essa prática feminista desperta é resultado do nosso lugar de espelho e objeto do mundo masculino. Ao deixarmos de priorizar todos os outros que surgem para nos cobrar, enfrentamos o próprio olhar sobre nós.

Nos vemos, nos despimos.

Me chamam radical, apesar de não ser, e se fosse assumiria sem dramas, por eu respeitar uma forma de feminismo que inclua apenas as mulheres nascidas e socializadas como mulheres. Percebam a loucura. Percebam o medo. Percebam como uma mulher que se nega a aquiescer será sempre marginalizada.

E não me identifico como radical porque não acredito que gênero seja resultado tão somente da socialização, o que me obrigaria a ser uma materialista ferrenha, o que nunca fui. Porque sei que o que eu vivo por ter um corpo de mulher – hormonalmente, de mulher – um corpo que menstrua e dói e chora e se cala e se alarga na gravidez (ah, a gravidez para aquelas desejantes) e faz crescer seios, e possui um clitóris, o único órgão unicamente voltado para o prazer, e também pelos, e cabelos brancos, e celulites, e ter cheiros únicos, e produzir leite e líquidos e porque eu acredito no saber desse corpo hormonal, secular, visionário, eu não poderia ser materialista.

Se há uma coisa muito chata em qualquer militância de qualquer canto e causa é o pouco espaço reservado às subjetividades. Em tempos sem nuances, as redes resolveram que isso é materialismo x pós-modernidade, como se Marx, entre outros, não tivesse pensado o sujeito, ou se o contemporâneo virasse às costas para as estruturas (alguns até viram, mas aí já é problema de ego).

Que lutas, cada vez mais necessárias , contra o racismo, a misoginia, a xenofobia etc, tenham que criar saídas para a maioria, em que o reinado do sujeito pouco interessa, é um fato. Que o sujeito, desde a infância, precise ser ouvido em sua unicidade, é outro. Como isso se equilibra é o segredo.

Por Giovanna Dealtry
Imagem: detalhe de A maja nua (La maja desnuda), de Francisco de Goya. 

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