Nós, mulheres negras, lutamos por amor também

A falta de empatia de brancas em relação às negras, e estou incluindo aqui todas as intersecções possíveis de opressões, aparece ao dizer que o Feminismo não luta por amor, mas por melhores salários, etc.

Nós, mulheres negras, lutamos por amor também. Amor este que nos foi e é negado todos os dias quando somos a maioria das chefes de família, mulheres abandonadas e mães solo.

A solidão da mulher negra não é um fenômeno apenas da mulher negra heterossexual, mas que perpassa a vida de todas nós: lésbicas, bissexuais, trans. Quais são as exceções trans que conquistaram relacionamentos estáveis que conhecemos? E coloco exceções porque trans brancas também tem imensa dificuldade em serem reconhecidas por namorados/as, apresentadas para a famílias porque a intersecção da opressão lhes invisibiliza mais ainda em relação a mulheres cis. Não nego estas opressões no país que mais mata trans no mundo!

É falta de empatia quando brancas querem balizar objetificação, como se fosse algo igual para brancas e negras. O desejo é diferenciado também. A sociedade aponta a mulher branca como padrão desejado O TEMPO TODO. Ou seja, a gostosa da TV, do comercial de cerveja, é gostosa que você tem que ter ao lado e exibir. E ela é branca. À mulher negra relega-se as vinhetas Globeleza. Quer coisa mais efêmera do que Carnaval? Que mais imputa o desejo a algo passageiro, pela volúpia que se encerra após uma noite?

Mulheres brancas são amadas. Mulheres negras não. E o Feminismo negro, além de lutar para salário, anteriormente luta para sermos reconhecidas como gente e a ter empregos dignos, quer amor. Quer que sejamos amadas. Pra quem sempre foi, é fácil negar isso. Isso não quer dizer negar que todas sofremos opressão de gênero, mas parem de usar a régua de vocês. Entender sobre interseccionalidade é entender isso.

E não sei (aliás, sei) porquê incomoda tanto quando mulheres negras decidem ter voz, visibilizar suas pautas e apoiar-se umas nas outras. Não venham querer nos ensinar o que é opressão e o que devemos fazer. Falar sobre nós não quer dizer negar o outro, porque, mais uma vez, não é sobre vocês. É sobre nós.

Temos sororidade, mas temos ‪#‎Ubuntu‬ também. Vão ler Audre Lorde, bell hooks e Claudete Alves antes de falar de amor e de quem tem direito a ele, antes de falar em irmandade prioritária entre nós. Porque ainda somos nós que deixamos nossos filhos na rua, porque não há política pública para eles, pra ninar os filhos de vocês.

Por Juliana Borges
Imagem destacada: daqui

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