Feminismos dialógicos – parte I

Uma discussão extremamente educativa aconteceu no grupo de debate da Casa da Mãe Joanna, e decidimos compilar os melhores momentos deste diálogo por aqui – pois ele foi muito rico, e transformá-lo em postagem pode ser útil não apenas para elucidar questões de gênero/feminismo radical/teoria queer, mas também questões relacionadas à dialética. Para a gente, o importante é estabelecer diálogo, e o processo dialético entre teorias requer que assimilemos conhecimentos oriundos de todas antes de os refutarmos. Acreditamos que a teoria radical e a teoria queer têm mais pontos de convergência do que de dissonância, e propomos mais diálogo – entre feministas e vertentes. 

Dúvida: radfem é transfóbico?

Não necessariamente. Precisamos parar de aglutinar conceitos, e precisamos ter cuidado com sofismas e paralogismos. É bom lembrar que transfobia é uma coisa e feminismo radical é outra. Se uma feminista radical é transfóbica, isso não significa que todo o feminismo radical é predicado na ideia da transfobia.

Vejo muito a asserção “mulheres transsexuais não são mulheres de verdade, pois não tiveram criação feminina”. Apagar a identidade transsexuais não seria transfóbico?

Tão importante quanto pensar em transfobia neste momento, é problematizar a parte do “mulheres de verdade”.O que é, afinal, uma mulher “de verdade”?

Sendo objetiva e perigando ser generalista: na internet, a tendência é que quem se identifica como “feminista radical” tenha, sim, um alinhamento transfóbico. Seja porque tem um conhecimento limitado da teoria radical, seja porque não acompanhou as críticas que já foram feitas pelo próprio feminismo à teoria radical, seja porque fez tudo isso mas viu Fulana ou Beltrana reproduzindo discurso transfóbico e acha que “é o certo”. Cada caso é um caso.

Feminismo radical prega a abolição de gênero porque entende que seria uma forma de opressão. Existe uma discordância ideológica entre as vertentes feministas liberal e radical, mas penso ser incorreto afirmar que radfems sejam majoritariamente transfóbicas.

A opressão trans é diferente da opressão contra a mulher. O feminismo radical apenas diferencia isso. Não totalmente diferente, pois elas se cruzamMas vários fatores que oprimem mulheres, como identificações com o feminino (usar maquiagem, usar salto, falar fino…) são fatores que mulheres trans reproduzem. 

O problema é que nesse processo, a feminilidade é desconsiderada como experiência múltipla e singular. Não precisamos discutir a feminilidade trans pra ver como isso é crítico: existem radfems que consideram mulheres trans “fetichistas da opressão feminina”, mas usam maquiagem. Elas também estão fetichizando a própria opressão? Será que elas usam maquiagem só porque “foram socializadas para isso”? Será que toda mulher (cis ou trans) se relaciona com os imperativos de gênero da mesma forma?

Feminilidade é uma coisa, mulheridade é outra. Vivenciar feminilidade não torna ninguém mulher, esse é o ponto. Acho difícil aceitar dizerem que radfems são transfóbicas ao afirmarem que não existe mulher trans, sem termos uma definição fixa sobre o que é ser mulher.

Enquanto a confusão sobre o que é ser ou não mulher existir apenas na semântica, vale o fazer o debate sem amarras. Mas – eu, nascida fêmea, que me identifico como mulher – não me sinto no direito de determinar quem não pode se determinar mulher apenas por não ter nascido fêmea. Quando em dúvida ideológica, me pergunto: o discurso proposto promove a inclusão de quem é historicamente e sistematicamente excluído? Se sim, adoto. Se não, tenho cautela.

Então ser “mulher” é uma identidade? Mas essa identidade é determinada então pelo conjunto de regras dadas pela socialização?

Não, é muito mais complexo que isso. A formação subjetiva é uma interação dialética entre o indivíduo e o ambiente, existe uma negociação constante entre ele e o que ele apreende do mundo e esse processo é singular, é único pra cada um. Dizer que as pessoas são simplesmente o que o meio faz delas é de um determinismo que não só é ultrapassado, como não ajuda em nada movimentos de mudança como o feminismo. É um pensamento que não explica sequer como existem mulheres feministas (se eu fui socializada para ser submissa, dócil etc, como eu desenvolvo a consciência e o desejo de afrontar tudo isso?).

Veja bem, não é que a socialização feminina não exista – mas ela é uma análise social e, como tal, não dá conta de explicar muitas nuances e as particularidades das experiências de gênero.

Eu com 4 anos era criança, mas já não aceitava muita coisa do que me diziam. Não tinha por que ser diferente com a minha identidade de gênero. Eu sou mulher porque me reconheço nesse lugar, e calhou de ser o lugar socialmente legitimado pra mim. Não é assim com todo mundo.

Se você perguntar, dentro do feminismo radical, o que é ser mulher, a resposta será: ter buceta. Eu quero entender outros pontos de vista. 

Não tem problema em afirmar que a feminilidade se associa à vagina, porque isso é verdade. O problema é acreditar que a vagina é a condição da feminilidade, é o que caracteriza a feminilidade “verdadeira” – e é isso que muitas feministas ditas radicais fazem.

Infelizmente, a Butler é uma autora extremamente mal interpretada até porque ela escreve de uma forma complicada, mas ela tá desde 1990 chamando atenção pro fato de que o sexo não é simplesmente um fato biológico inocente que tá além do questionamento pela teoria de gênero. Se tu for procurar na própria história da Medicina, tu vai ver que até o século XVIII, o corpo humano não era entendido como “masculino” e “feminino”, mas como um único corpo cujo gênero se resumia a uma variação de grau. A divisão sexual não existia da forma como nós conhecemos hoje, e isso mostra como a própria leitura do sexo, do genital, é influenciada pela cultura e pelos códigos sociais.

A tese central dela é de que o sexo TAMBÉM é gênero, e não um elemento oposto a ele: não é que o sexo seja uma coisa e o gênero seja outra coisa construída SOBRE ele, mas o nosso corpo é uma formação discursiva moldada pela própria matriz de gênero. Por isso, hoje, nos estudos de gênero, não faz muito sentido ficar marcando que “mulher é só quem tem vagina”. Já é amplamente aceito que a feminilidade é um construto que embasa até a nossa noção de sexo, e a “genitalização” do debate mostra que algumas pessoas continuam colocando a ênfase no lugar errado (por n motivos, mas isso é outra discussão).

Então o que é “feminilidade”? Mulher = feminilidade? É isso?

Estas são definições muito categóricas sobre coisas que são muito complexas.

Existe uma feminilidade hegemônica que é representada pelo ideal heteronormativo de mulher: um corpo com vagina, seios desenvolvidos, branco, heterossexual, delicado, vaidoso, dócil etc. Mas existem mulheres que não se encaixam nesse ideal e não deixam de ser mulheres, então feminilidade é uma coisa múltipla, é um apanhado muito extenso de signos que mudam de cultura pra cultura e através do tempo.

E assim, é importante diferenciar a identidade “mulher” do conceito de feminilidade. A mulher pode ser um símbolo da feminilidade – como pode ser a cor rosa, tecidos finos, um salto alto, maquiagens, comportamentos sensíveis, atitudes delicadas etc. Ou seja, a feminilidade é mais um tema do que uma corporalidade.

Ok, então feminilidade é um conjunto de signos, seria isso? Se a gente diferencia a identidade “mulher” do conceito de feminilidade, retorno para a pergunta: o que é então ser mulher?

Sim, pode-se dizer que a feminilidade é um conjunto de signos que são codificados por uma cultura como sendo “próprios” da mulher. “Ser mulher” é uma questão filosófica que tá tentando ser respondida desde pelo menos a Simone de Beauvoir, e existem mil respostas possíveis pra essa pergunta.

Não saberia te dizer para onde, ou o que a maioria delas converge. Não sei se o feminismo radical tá errado em dizer que a feminilidade é um construto voltado para desumanização – ou seja, que esse conceito foi criado para fins políticos, para manter uma categoria de pessoas sob dominação da outra. Eu pessoalmente olho essa ideia com ressalvas porque eu acho que ela é uma interpretação mais pessimista do que realista das coisas. Não só porque a masculinidade também desumaniza, mas porque é achando que a feminilidade é essencialmente opressora que a gente rejeita também os valores morais mais “elevados” associados a ela, como bondade, cuidado, compaixão, generosidade etc.

Então, sei que é horrível ler isso, mas não existe uma definição única do que é ser mulher e já tiveram vários movimentos dentro do feminismo (notavelmente o do feminismo negro e do feminismo classista) mostrando como a busca pela Feminilidade Verdadeira, pelo “ser mulher” que supostamente contemplaria todas as mulheres, é também opressiva e integra um projeto político. As mulheres são mulheres por razões diferentes e a sociedade (des)legitima essa identidade delas por razões específicas, também. Não é simples.

Vc tá dizendo então que ninguém sabe ou definiu ainda o que é ser mulher?

Não, eu tô dizendo que mil sujeitos já fizeram isso e que todas essas definições estão em disputa até hoje. O Estado definiu o que é ser mulher, a Igreja definiu o que é ser mulher, as feministas definiram o que é ser mulher. É por isso que não existe uma única definição válida: porque criar e legitimar conceitos são atos políticos, envolvem interesses específicos e até alguns privilégios.

No Congresso Nacional, a definição de “família” da bancada evangélica é mais legitimada do que a definição de “família” do movimento LGBT. Isso é porque em termos sociais e políticos, um grupo é mais poderoso que o outro, e por isso, a palavra dele “vale” mais. Assim como se disputa a ideia de “família”, se disputa a ideia de “mulher” na sociedade e dentro do próprio feminismo. A política como um todo vive hoje uma crise da representação, e essa indeterminação toda é um reflexo disso.

Então, concretamente, existem vários conceitos sobre o que é ser mulher, seria isso? E aí teria tb a questão da feminilidade, ou é outra coisa? Então existem diversos conceitos do que é ser mulher, cada um com seu conceito de feminilidade? Mas aí qdo alguém diz que é mulher é pq está se identificando com um destes conceitos?

São discussões relacionadas. Existem muitos entendimentos diferentes do que é “ser mulher” e cada um deles carrega, no fundo, um ideal de feminilidade.  Tende a rolar uma certa confusão entre conceito e identidade. Por exemplo, com pessoas que se identificam como mulheres (a identidade de gênero delas é essa): imagino que a maioria delas, quando pensa em “feminilidade”, pensa mais ou menos na mesma coisa: rosa, delicadeza, maquiagem, salto alto, todas essas coisas que a gente ouve como sendo “de mulherzinha”. Só que provavelmente nenhuma mulher “compra” 100% essa ideia (eu nem sei se isso é possível): elas ajustam esse conceito genérico de “feminilidade” à personalidade delas, e isso gera variações de feminilidade.

A verdade é que nenhuma mulher vive a sua vida consciente do seu gênero, ele é simplesmente uma parte de quem ela é e se manifesta mais ou menos em determinadas situações. Tu, por exemplo: o que é ser mulher pra ti?

Honestamente? Pra mim ser mulher tem a ver com as especificidades biológicas do meu corpo e tudo que me foi ensinada a partir disso. Eu recebi uma série de instruções sobre como me comportar (socialização feminina incluindo feminilidade) porque o médico olhou, viu uma buceta e disse aos meus pais: menina. Muito dessa socialização que eu recebi eu rejeitei, como signos de feminilidade por exemplo. E foi isso. Mas tanto a leitura social que eu sofro pelo meu corpo de mulher, quanto as opressões que eu recebo pelo meu corpo de mulher me lembram que eu sou mulher, mesmo que eu seja pouquíssimo feminina. E a sociedade me lembra o tempo inteiro disso me colocando no meu devido lugar, inclusive. Mas tipo, como isso é bem claro e bem objetivo pra mim fiquei curiosa para compreender outros pontos de vista mesmo.

(…)

Existem mais convergências entre a teoria radical e as “demais” do que se pensa. O feminismo influenciado pelo pós-estruturalismo (que se aproxima da teoria queer) em nenhum momento nega que o gênero seja uma fonte de pressão social operante desde antes do nosso nascimento, nem que a nossa identidade individual seja o tempo inteiro legitimada ou desafiada pelo status quo. Mas esse feminismo mostra que a opressão de gênero não é só ~fundada~ na biologia: ela molda inclusive a nossa percepção dessa biologia, e esse insight é importante porque nos permite pensar feminilidades que rompem com o alinhamento sexo-gênero.

É meio como dizer que eu, como mulher cis, sou oprimida porque tenho uma vagina, mas que eu só tenho uma vagina porque o próprio sistema heteronormativo permite essa leitura do meu corpo. A base do conceito de performatividade, da Butler, é essa: nomear alguém como “mulher” é, ao mesmo tempo, fazer referência ao que já se entende como mulher e fortalecer esse conceito pela citação dele.

É preciso separar a teoria da prática. A teoria do feminismo radical, desenvolvida principalmente nos EUA, tem várias limitações, mas isso não significa que ela é, necessariamente, transfóbica. A prática radfem aqui no Brasil tende a ser muito transfóbica sim, infelizmente. É só pegar algumas páginas de feminismo radical e você vai achar alguma postagem transfóbica, mesmo páginas que fazem posts muito legais.

(…)

Lutar contra os estereótipos é fundamental porque eles são os tijolos que cimentam a opressão em cima dos indivíduos que nascem com vagina. porque os corpos femininos são objetificados e explorados. Tudo aquilo que fica na caixinha de gênero “feminino” só reforça isso, não por seu atributo em si, mas porque se contrapõe diretamente a um atributo “masculino” e estabelece uma relação de hierarquia em que o feminino perde.

LEIA A PARTE II DESTA DISCUSSÃO AQUI

Post construído coletivamente pela comunidade da CDMJ – agradecimentos a Gabrielle Lima, Ana Cláudia Delajustine, Manu Port, Rafaela Cacenote, Camila Belinaso, e agradecimentos especiais a Stefanie Cirne e Cecília Santos. 

Links enviados relacionados ao tema:

The End of Gender: Revolution, Not Reform (Video)
A Criação do Patriarcado, por Gerda Lerner (Introdução) (Traduzido)
Why I no longer hate ‘TERFs’, por Penny White
Interpretando o Gênero, por Linda Nicholson

Imagem destacada: daqui

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