A ausência que preenche tudo
“A ausência que preenche tudo” é um livro de Marcella Mattar que se posiciona contra os clichês sobre a mulher na literatura. Abaixo a autora escreve sobre a obra com exclusividade para a Casa da Mãe Joanna.
Quando digo que sou escritora, as pessoas imaginam que escrevo romances “femininos” (notem bem as aspas) inspirados em Nicholas Sparks. O meu livro venderia bem mais se fosse uma história de romance em que a vida da mina gira em torno de um cara. Ou uma história de vampiros. Ou, principalmente, uma história de romance com vampiros.
Mas não é.
O meu livro gira em torno de uma mulher. Até aí tudo bem. Na história, ela se envolve não com um cara, mas com vários. A maioria sem grande romantismo. E eles são só o pano de fundo da história.
A história é passada em Porto Alegre, num espaço que oscila entre a faculdade, bares e a casa da personagem. Como muitas de nós, ela se sente só e angustiada, incapaz de encarar uma realidade que lhe é opressora. É bastante evidente que o único caminho encontrado para lidar com tudo isso é o isolamento.
O livro traz temas como a depressão na juventude, as relações descartáveis da nossa geração e a passagem para a vida adulta.
“Enquanto estava sentada ali quieta, foi tomada pela ideia de que não queria nada daquilo. Nada do que as colegas estavam falando lhe atraía. Não conseguia pensar em nada além do fato de que ela morria lentamente. Algo morria, algo se calava. Não havia o que pronunciar. Não queria festa de formatura, não queria um currículo de cinco nem de oitenta páginas. Aquilo não a representaria. Tudo o que as pessoas faziam era por estarem buscando alguma coisa. Mas e ela, estaria buscando o quê? Enquanto a maioria das pessoas buscava incessantemente o amor, ela sabia que isso era só uma distração para aquilo que as pessoas realmente deviam buscar. Ainda não sabia o que desejar. Se deixarmos de lado os desejos materialistas, as vontades fúteis e o próprio desejo de agradar aos outros, o que é que sobra? Não tinha nenhuma intenção de casar e abominava a ideia de maternidade. Sentia-se imaginativamente recusando a tudo o que lhe oferecessem. Tentava pensar em algo que realmente quisesse, mas não vinha nada. E, ao mesmo tempo, vinham todos os desejos mesclados numa forma de agonia. Queria escrever um livro, viajar, conhecer desertos, montanhas e praias. Queria ficar com o professor, mas também queria conhecer outros homens, quando, a bem da verdade, não queria conhecer ninguém, apenas ser só, e tudo era tão confuso que até a fazia pensar que não queria nada disso”.
O meu livro nunca vai ser um best-seller, porque a personagem não está esperando por um homem que a resgate. Ela é incapaz de desejar aquilo que a sociedade espera que ela deseje. Ela quer mais. Ela precisa de mais. Mas ela não consegue ir além de si mesma. E, então, como muitas de nós, se afunda em uma depressão da qual não espera ser salva.
“Vitória abre as venezianas, olha a cidade mais uma vez, o forte vento rangendo. Existe um mundo por trás da janela. Sabe que, muito mais fácil que ter o controle da própria vida, é ter o controle da própria morte. A vida não – a vida é difícil, uma incógnita infinita. A morte é um ponto só, sem maiores questionamentos, na morte não há nada, escura e fechada em si mesma, um pulo e fim”.
No entanto, quando uma mulher – principalmente da nossa geração – lê o livro, ela me escreve: “Caramba, não acredito, é exatamente assim que eu me sinto. Não achei que mais alguém se sentia assim”.
É esse o papel da literatura. Mostrar que não estamos sós. Que nunca estivemos.
Não criar mais estereótipos de que temos de ser acolhidas, amparadas ou até mesmo compreendidas por um homem. Deixa isso com a Disney e com o Nicholas Sparks.
Fico bem triste em ver que ainda é esse tipo de literatura o que mais vende e mais se publica. Mas não importa. Contanto que ainda exista alguma literatura que vise a expressar como nós realmente nos sentimos, e não como deveríamos nos sentir. E, nesse encontro autora-leitora, podemos ter a certeza de sermos protagonistas de qualquer história – na literatura e na vida.
Leia a sinopse
Vitória é uma típica jovem da geração Y. Prestes a se formar na faculdade, sente-se incapaz de enxergar qualquer rumo para sua vida. Gosta de ouvir Pink Floyd, Radiohead e ler livros, mas não consegue se empolgar muito com nada. Em uma sociedade obcecada com o conceito de “aproveitar a juventude”, essa indiferença parece uma anarquia. Em meio a música, álcool e sexo casual, ela tenta lidar com um vazio inescapável.
Cansada do contato superficial com rapazes da sua idade, Vitória se envolve com o seu professor de Escrita Criativa. Ele é a única pessoa com quem ela consegue estabelecer uma relação minimamente verdadeira – ele compreende o seu drama, e isso a alivia no início. “O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza”, ele sublinhou no livro que lhe emprestara. No entanto, a relação com o professor acaba por trazer apenas mais incertezas. Ainda apegada à adolescência, a vida pede que ela cresça. Presa na própria solidão, Vitória se vê encurralada: sabe que deve terminar a faculdade e que deveria estar buscando uma relação que não fosse só sexo. Contudo, encarar a vida adulta parece uma tarefa impossível no momento.
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