Não se compra poder na esquina

Vocês já perceberam a quantidade de marcas e veículos de comunicação falando de empoderamento? Olhos bem abertos aí pois, particularmente, não gosto da palavra empoderamento. Não existe uma fórmula mágica que acabe com a disparidade de salários, as injustiças na vida doméstica, o assédio nas ruas e toda a incompreensão de gênero na sociedade. O tal empoderamento mágico  à venda, lamento informar, não existe. Marcas podem se esforçar, pessoas podem inspirar, mas o buraco é bem mais fundo.

Por isso, dou uma risadinha amarela quando me falam em girl power, virar o jogo, empreendedorismo feminino. Menina, você estudou pra ser advogada, ganhar causas, ser uma bióloga que vai descobrir a cura para um vírus terrível, mas aí, você tem filhos, fica em casa e abre uma lojinha com o dinheiro do queridão, aquele mesmo que te oprime. Aí você fica mais na mão ainda do teu investidor, patrocinador, dono, sei lá, chame como quiser.

Empoderada mesmo á mulher que não depende nem financeiramente nem emocionalmente de ninguém. Se você é nova/o na discussão, entenda: uma dona de casa que não baixa a cabeça para o marido está muito mais empoderada que uma mulher super bem sucedida que sustenta um marido/namorado abusador.

Não compre a história pela metade. Não acredite em tudo que lhe disserem. A Frida Kahlo é o novo Che Guevara. Não é porque uma marca está falando com você que ela está te respeitando. As revistas estão cheias de modelos negras, de mulheres gordas. Mas, experimente visitar seus escritórios para entender a falácia. Quantos negros, quantas mães, quantas mulheres gordas trabalham nessas empresas?

Não é porque uma marca está falando com você que ela está te respeitando.

Feminismo não é empoderamento. É outra coisa. Feminismo é conhecimento. Beyoncé canta “OK, ladies, now let’s get in formation”, e sugerimos também a aquisição de “information”. Porque o feminismo mais te revolta, como disse Gloria Steinem, do que te empodera. Uma mãe ou um pai, um ícone pop, uma professora, uma grande mentora ou uma ídola podem ensinar coisas para uma menina que a façam pensar: ah, não, eu não vou aceitar ser tratada desse jeito.

A auto-afirmação sim é linda. Mulheres negras abandonando a chapinha. Palmas. Turbantes, cores vibrantes? Tudo lindo. Reivindicar direito e denunciar apropriação? Sim. O tombamento cultural que as feministas negras estão cimentando é revolucionário. A página Eu, Empregada doméstica é pra lá de necessária.

Outro dia um radialista me jogou a batata quente: ô feminista branquela, tá na tua mão mudar o mundo. Na minha e de todas as mulheres. Não vou empoderar ninguém, não. Não sei fazer isso. Eu to no jogo denunciando machismos, criando filhas feministas, falando sobre assuntos que ninguém quer falar, mas o dever não é só meu, não. Aproveito minha visibilidade momentânea para gritar as causas que o espaço que me está sendo concedido permitem. Ok, Sheryl Sandberg, estou lutando para ocupar mais e mais. Porque nada está dado, não é natural uma mulher ser consultada antes do que um homem, mesmo quando ela tem mais propriedade para falar de um assunto.

Eu to no jogo denunciando machismos, criando filhas feministas, falando sobre assuntos que ninguém quer falar, mas o dever não é só meu, não.

Logicamente as questões vão muito além do que eu dou conta. Precisamos de mais mulheres na mídia, na política, mais chefes e mentoras inspiradoras, mais líderes, menos competição entre as mulheres, mais direito para discutir o que quisermos, menos modelos de sucesso e beleza impostos por homens e mais tranqüilidade em nossas vidas. Ou seja, precisamos de mais feminismo.

Empoderamento não se compra na banca, não se adquire em curso. Conhecimento é dor, é reconhecimento, é empatia e transformação. É um processo fascinante e sem volta. Pode até resultar em empoderamento, mas cuidado, tá?

Duvide, questione, pergunte. Nós, enquanto consumidoras – ou seja, agentes mantenedoras desse sistema -, devemos cobrar coerência das marcas, dos discursos e de nós mesmas.

Ana Emília é colunista da Casa da Mãe Joanna, integrante do Falo&Falo e autora do best seller A Mamãe é Rock. Imagem destacada: por Juliana Macedo, com exclusividade para este texto. 

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