TPM ou Gaslighting?

Toda manhã tenho por hábito ligar a televisão naqueles programas locais para me informar sobre previsão do tempo, trânsito, greves, paralisações, enfim, todas as coisas a que estamos sujeitas na rotina moderna. Nesses programas, entre a previsão do tempo e alguma notícia qualquer, eles costumam incorporar aquelas reportagens de utilidade pública ou sobre saúde e comportamento. Até aí tudo bem, sempre é bom saber quais as últimas atualizações nessas áreas com coisas do tipo: café é bom para memória, café é ruim para gastrite, deve-se tomar uma taça de vinho todos os dias, ovo faz bem, ovo faz mal, e por aí vai.

Porém, hoje uma dessas matérias me chamou atenção, sobre a tal questão da TPM, que vira e mexe é um dos assuntos abordados. A reportagem era sobre quais os alimentos que são indicados e que podem diminuir os sintomas de TPM. O que é tranquilo, afinal, qualquer dica de bem-estar é sempre bem-vinda. Porém, no final da reportagem tanto a entrevistada quanto a apresentadora e a repórter falaram do irritamento que a TPM causa e como isso atrapalha na vida da mulher. Ficou aquela coisa de que o descontrole hormonal do período pré-menstrual aparecendo como única justificativa do descontrole emocional da mulher, quase como ou algo muito correlato ao gaslighting. O que me incomodou muito. Eu nunca havia percebido a similaridade da reação da sociedade ao fenômeno da TPM e o abuso psicológico do gaslighting.

Eu nunca havia percebido a similaridade da reação da sociedade ao fenômeno da TPM e o abuso psicológico do gaslighting.

Eu, como qualquer mulher que nasceu com útero, sei muito bem dos sintomas da TPM, apesar da minha ser quase imperceptível. O que eu sei que é tenho muita sorte em comparação às mulheres que sofrem com sintomas rigorosos da TPM. Portanto, não acho que a TPM não exista, ou que seja invenção ou frescura. O que me incomoda é o tom pejorativo que ela carrega. Sim, porque TPM virou sinônimo de descontrole emocional feminino, coisa do tipo – quando a mulher fica doida e nós homens temos que compreender- sabe? Eu mesma cansei de ouvir piadinhas desse tipo nos meus momentos de irritação com alguma coisa feita ou dita por homens naquele tom jocoso:

– Só pode ser TPM!

Não acho que a TPM não exista, ou que seja invenção ou frescura. O que me incomoda é o tom pejorativo que ela carrega.

Sim! Pode ser TPM, porque os hormônios mexem com a nossa capacidade de responder à estímulos sensoriais ou psicológicos nos deixando mais propensas à irritação, ou será que nos deixa com menos paciência para a babaquice machista?

Vamos pensar: diariamente todas nós mulheres temos que aguentar todo tipo de discriminação, piada machista, insegurança, relacionamentos abusivos, e várias situações adversas seja em casa, na escola, no trabalho, enfim, em qualquer lugar. Todos os dias temos que aguentar firme todo tipo de desrespeito e provocação, seja do serviço doméstico que cai integralmente sobre as nossas costas, seja das cantadas inconvenientes que temos que ouvir por aí. Todos os dias, o dia todo, da hora em que acordamos até a hora em que dormimos, somos afrontadas pela sociedade que nos discrimina apenas pela nossa condição biológica. E então, num determinado período do mês nossos hormônios nos tornam hipersensíveis a essa realidade nos fazendo responder a toda essa agressão de maneira menos controlada. E então, vem alguém decretar:

-Deve estar na TPM!

É claro que estou na TPM, ou posso não estar. Todavia, isso não invalida quantidade de atitudes execráveis que temos que aturar na nossa rotina de mulher. O que a sociedade interpreta como uma atitude exagerada com relação ao estímulo negativo que estou recebendo, pode ser na verdade a gota d’água que faltava para que eu perdesse a máscara do controle social – onde tudo eu suporto – e finalmente começo a reagir à afronta que estou recebendo. E eu não estou negando a possibilidade de que realmente possa haver casos em que a TPM seja patológica, apenas estou discutindo o modo com a TPM virou uma forma de gaslighting praticado por qualquer indivíduo da sociedade sobre a mulher. E até mesmo de mulheres contra mulheres. E eu entendo o motivo. É muito mais fácil na sociedade fazer a mulher acreditar que a irritação dela é causada por um problema hormonal, do que uma resposta ao estimulo negativo diário que ela enfrenta na sociedade machista.

O que a sociedade interpreta como uma atitude exagerada pode ser a gota d’água que faltava para que eu perdesse a máscara do controle social e finalmente começo a reagir à afronta que estou recebendo.

A mesma sociedade que nos faz esconder a menstruação como algo nojento ou impuro, é a mesma que nos faz acreditar que o nervosismo que ela (a sociedade) provoca em nós mulheres é apenas culpa do nosso sistema reprodutor. E assim recai novamente sobre as mulheres a culpa sobre as nossas mazelas e as mazelas da sociedade.

Porque é muito mais fácil assim, é assim que somos mantidas sob controle. O controle que no passado era feito nos manicômios, para onde mulheres desviantes eram enviadas como forma de punição por sua rebeldia, hoje tem um tom mais farmacológico, e é feito com controle de remédios que são utilizados para nos manter calmas e sob controle. Afinal, ninguém aguenta mulheres histéricas, ou será que são mulheres conscientes de sua condição social que ousam mesmo que uma vez por mês se rebelarem contra o sistema que as oprime?

Mulheres histéricas, ou mulheres conscientes de sua condição social que ousam se rebelar contra o sistema que as oprime?

O sistema não está disposto a mudar para tornar a vida das mulheres menos oprimida ou dar a elas igualdade, o que seria o ideal. O sistema prefere nos manter sob controle fazendo-nos acreditar que é tudo uma grande teoria da conspiração feminista e que todas estamos imaginando coisas que não estão ali. O que o sistema diz é:

– Isso é apenas TPM! E machismo é coisa da sua cabeça.

Por Renata Floriano
Imagem destacada: daqui

Comments

Comentários