A imposição de gênero

Esse texto não vai ser sobre uma vertente feminista em específico, embora eu tenha começado a estudar o Feminismo Radical há algum tempo. Nesse artigo, quero explorar a socialização a que somos expostas desde o nascimento e que, segundo a teoria radical, determina o nosso comportamento futuro, e que está na raiz da opressão feminina pelo sistema patriarcal.

Acredito que descrever um pouco a minha própria socialização aqui seja necessária e bem vinda porque, embora generalizações sejem extremamente perigosas na maioria dos casos, o que fizeram comigo fizeram com muitas. Sei disso. Sabemos todas.

Eu devo ter tido um pouco de sorte por ter uma mãe como a minha. Ela colocou vestidos nas suas duas filhas, sim. Deu bonecas. Mas posso dizer que não foi muito além disso em termos de aparência feminina para nós. Lembro que quando comecei a pré-escola acabou a era dos vestidos até a adolescência. Minha mãe era costureira e fazia as nossas roupas. Todas. Até calcinha e, mais tarde, sutiâ. A vida era humilde no interior com mãe solo de três.

A saia da escola era muito cara de fazer, exigia pano demais pra fazer o pregueado. O sapato-boneca era caro, só havia dinheiro pro sapato fechado, ou pior, pro conguinha mesmo. Fui praticamente impedida de ser feminina no vestir porque tudo que fosse mais feminino era inacessível a pessoas mais desfavorecidas. Lembro de ficar sentida por ir vestida de “menino” pra escola. O neutro não era feminino o suficiente para mim, e eu era tida como uma menina masculinizada. Minha irmã ainda ganhou saia, sapato boneca, e blusas de escola com um pouco de frufru porque era uma menina grande pra idade, as vizinhas doaram.

O neutro não era feminino o suficiente para mim, e eu era tida como uma menina masculinizada.

Acabei me conformando com a roupa neutra na puberdade. Ou a puberdade trouxe consequências desagradáveis de ser feminina. Ganhei uma saia azul curta aos 13 anos. Minha primeira saia “sexy”. Ia até o meio das coxas e não era rodada, era justa nos quadris e abria um pouco só para baixo. Fui fazer algo pra minha mãe no bazar da esquina. Passou um cara que reclamou comigo: arrrgh, que troço mais feio, para de rebolar essa bunda magra na minha frente. Pensou que eu ia levar cantada, né? Eu não era o padrão estabelecido. Era magra demais.

Dessa época em diante, passei a assumir um visual mais coberto para “para de ofender os homens” com a minha magreza. Era fã de rock e nele encontrei um estilo neutro. Pedi ao irmão mais velho que me doasse suas calças jeans quando não servissem mais – magicamente, eu não tinha mais direito à neutralidade no visu. Minha mãe agora só costurava coisas rosas e femininas. Ainda que fosse calças baggies.

Gênero como se entende hoje em dia é uma coisa construída socialmente. Não é inato menina usar rosa. A deusa sabe como eu odeio essa cor. E sou hétera. Esse gênero que conhecemos atualmente é imposto e impostor. As mulheres, às vezes, não conseguem sequer questionar porque fazem determinadas coisas. Eu estou chegando aos 40 anos e ainda não consegui parar de raspar pelos. Acabei de ler um artigo falando dos perigos de se retirar os pelos ao redor da vulva e do canal vaginal. Eu quero muito deixar crescer. Mas me dá ansiedade sair com as pernas, virilha e axilas normais, sem raspar, porque o julgamento em cima da mulher é terrível.

Esse gênero que conhecemos atualmente é imposto e impostor.

Quase aos 40, tenho muito cabelo branco na cabeleira castanha escura. E todo mês, há três anos, passo pelo mesmo ritual de ajeitar os cabelos o melhor possível para me fazer desistir de pintá-los. Enquanto isso, meu esposo tem uma vasta cabeleira grisalha e nunca lhe passou pela cabeça pintar o cabelo. Ele nunca sofreu essa pressão. Ele é considerado um homem bonito sem usar nenhum creme facial, maquiagem, tintura, jóias, nem mesmo precisa usar uma roupa bonita – basta uma calca larga e uma camiseta de malha e mesmo assim é uma pessoa bonita.

Aos 16 anos, eu me vestia exatamente assim. Calça jeans larga, sem marcar o corpo. Camiseta lisa, branca ou preta, sem marcar o corpo. Sem brincos, maquiagem, e com cabelo curto “a lá Joãozinho”. Um dia fui parada por um homem, que pedia direções para um lugar. Comecei a dizer onde era, e quando o olhei novamente para ver se ele tinha entendido, ele me olhava de maneira agressiva. Tinha percebido que falava com uma moça. Esse estranho partiu pra cima de mim para me agredir por eu não estar vestida de forma feminina.

A minha frustração não é apenas não ser considerada uma pessoa bonita se colocar uma calça larga, camiseta e manter meus pelos, além de mostrar a minha idade com meus cabelos brancos e meu rosto sem maquiagem. É ser agredida por não andar hipersexualizada o tempo todo. Eu quero andar hipersexualizada sim, dá licença. Mas na hora que eu quero fazer sexo. Não dá mais para homens assumirem que todas as mulheres querem fazer sexo até mesmo quando vão na esquina comprar pão com crianças a tira-colo, ou quando vão fazer um depósito num banco, pagar uma conta, trabalhar.

A hipersexualização é um problema crônico. Eu sofro desse mal. Eu troquei todas as minhas camisetas – uma peça essencial pra mim, neutra – por blusinhas justas com botões até abaixo dos seios para amamentar. Questão de prática mesmo, a blusa justa protege mais do frio e moro num país frio, os botões ajudam a não mostrar muita pele. Mas sinto falta das camisetas. Me davam uma sensação de ser uma pessoa, ao invés de ser mulher.

A hipersexualização é um problema crônico.

Porque ser mulher, atualmente, tá caule (trocadilho, em vez de osso, porque sou vegetariana). Não quero raspar pelos, pintar os cabelos, vestir roupa sexy, usar salto, brincos, maquiagem, mas quero não só não ser execrada, mas também ser exaltada como exemplo de beleza. Mas o que na verdade acontece é que ser magra (agora) é minha única “virtude” nesse padrão estranho que o patriarcado inventou. Tenta se aceitar gorda. O patriarcado não deixa.

A minha satisfação, porém, é saber que a minha maior feminilidade foi ter sido mãe, parindo dois bebês e os amamentando com seios minúsculos, o mais novo já se vão três anos amamentando, botando a biologia feminina pra trabalhar. Não precisei de brinco, maquiagem, salto, nada disso para ser mulher, tá, ô patriarcado?

Não precisei de brinco, maquiagem, salto, nada disso para ser mulher, tá, ô patriarcado?

E o que desejo para as mulheres a partir de agora é que elas não precisem de prova de feminilidade nenhuma no futuro. Que tal uma prova de pessoidade pra variar, e as mulheres poderem ter como maior prova do seu valor o seu trabalho reconhecido – seja esse trabalho uma carreira, a sua maternagem ou as suas aventuras pessoais? Torcendo pelo dia em que voltaremos a ser pessoas que produzem óvulos, que têm vagina, útero, seios ou apenas alguns deles, e que mesmo que sejamos consideradas mulheres pelo “conjunto da obra”, como é o meu caso, que isso não signifique que nós somos parte de uma casta inferior a outra qualquer.

Por Andreia Nobre
Imagem destacada: Panmela Castro, “Anarkia Andarilha

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