Textão™ sobre maternidade compulsória e a escolha de ser mãe

Pera que vai vir textão™ sobre maternidade compulsória, child free, laqueadura e a escolha de ser mãe.

A Record acabou de mostrar uma reportagem sobre laqueadura. Então, vamos lá.

Primeiramente, fora Temer.

Segundamente, a matéria focou no arrependimento da mulher e quis mostrar que a mulher que quer a laqueadura é uma mulher fútil, que não quer filhos porque não quer atrapalhar sua vida.

O que mais me chamou a atenção foi o discurso de uma médica, que foi o seguinte: “a mulher tem todo o direito de não querer ter filho, mas eu acho que deveria ser o último recurso.” Mas não dá maiores explicações.

Pois bem.

Uma mulher que escolhe não ter filhos é chamada de child free. Eu sou uma.

A Record mostrou algumas postagens de páginas child free em que as mulheres relatam a dificuldade de se conseguir a laqueadura. Além disso focou em como elas tem ojeriza à ideia de ser mãe. Percebe-se claramente que eles visaram apenas um tipo de mulher child free.

Vamos à lei.

A lei diz o seguinte: mulher ou homem acima dos 25 anos OU dois filhos, dentro das faculdades mentais e saudáveis. Fim. Não exige que seja casado/a. A lei também diz que você precisa passar por uma análise psicológica e sociológica pra isso. Ou seja, pra que você não queira filhos você precisa estar comprovadamente sã, ciente, ter mais de 25 anos e passar pelo crivo de pessoas que você nunca viu, e que não conhecem sua vida.

Pra ter filho sem ter idade, estrutura psicológica, social e financeira? Só fazer.

Vamos falar sobre maternidade compulsória.

A mulher nasce e a sociedade determina que ela será mãe. Ela deve ser mãe. Pra ser feliz e ter realização na vida, ela deve ser mãe.

Enquanto meninos brincam de trator, bola, peças de montar, lego, dominó, futebol, carrinho, pipa, lutinha, tudo, meninas são ensinadas como dar comida pra boneca.

Quando um cara fala que não pensa em ter filhos, a reação mais comum é “você faz certo. Dá trabalho, gasta dinheiro, você não se diverte mais.” Uma mulher fala que não quer ter filhos, a reação mais comum é: “é porque não teve o seu ainda. Neném é tão gostoso. É cansativo, mas você vai gostar. E seu marido? Também não quer?”

Ou seja, um cara que não quer ter filho é uma decisão acertada. Uma mulher que não quer ter filhos só vai saber se queria ou não ter filhos depois de ter filhos.

Ok.

Voltando à reportagem.

Colocaram uma médica cara a cara falando com uma moça que não quer ter filhos.

A médica insistindo no hormônio e a moça dizendo que não quer porque não se adaptou. A médica insiste e diz que ela, com a laqueadura, terá mais cólica e maior sangramento. O que, até onde li, não acontece. O ciclo segue normal. Quem sente diferença é porque usava hormônios e parou. Diferente do D.I.U. de cobre, oferecido pelo SUS que realmente aumenta a cólica e o sangramento.

Agora vou falar sobre eu não querer ter filhos e ter optado pelo D.I.U. hormonal.

A primeira médica disse que não coloca D.I.U. em quem nunca teve filho. O segundo que não colocaria porque não queria. Precisei ameaçar o plano de saúde e passar por um terceiro médico pra conseguir.

O médico não tem que dar palpite no que o paciente decide a menos que isso possa lhe causar algum tipo de dano, como morte, agravar doença e tudo mais.

Eu só não fui atrás de laqueadura porque sei a Via Crucis que é. E isso que não tenho mais 25 anos faz tempo.

Muitos médicos não levam em consideração a condição de saúde do paciente, sua escolha, a dinâmica de sua vida. Colocam sua convicção pessoal acima da escolha do paciente.

Eu escolhi não ter filhos porque nunca tive vontade de passar pelo processo de uma gestação.

“Mas você trabalha com criança. Não gosta de criança?”

Amo criança. Amo brincar, ensinar, cuidar.

Mas eu não tenho tempo, espaço e nem dinheiro pra cuidar de um filho. Gosto de ficar o dia todo em casa de preguiça, de poder sair pra beber sem me preocupar com quem deixar uma criança. Gosto de ficar sozinha, de ir na casa das amigas sem ter hora pra voltar, de ir ao cinema com meu marido sem ter que ficar preocupada se meu filho vai se comportar.

Eu trabalho numa creche. Boa parte das crianças ficam 11h lá. Com os pais ficam umas 4/5h. Não quero ter filho pra ficar o menos tempo possível comigo.

Sem contar que você chega em casa cansada, no máximo vai dar banho, alimentar e por na frente da TV porque está muito cansada pra qualquer coisa.

“Mas e se você quiser ter filhos?”

Eu tenho vontade de adotar. Também tenho vontade de ser mãe social.

Vocês sabiam que existe um programa de lar temporário pra crianças em situação de risco? Você pode ser lar temporário pra essas crianças – e recebe auxílio do governo pra isso. Isso eu tenho muita vontade de fazer.

Por último, sobre querer ser mãe.

Seja. Se essa é sua vontade, seja. Poste fotos, comente sobre o preço da fralda, me chame pro aniversário e pra cuidar do seu filho. Vou amar! Só não ache que eu quero o mesmo.

Por Fran Ruiz
Imagem destacada: do texto sobre maternidade compulsória do blog desarmandoacensura.

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