O dia em que eu mulher comi as palavras

O dia em que eu mulher comi as palavras.
As palavras, gênero, formas e respiração

O que nasce do esquecimento
Por Tyr Peret

Naquele dia as ruas estavam vazias
O frio já havia chegado.
Decidi então me aninhar junto às palavras.
Fui me ajeitando aos poucos, tentando me localizar naquele espaço, naquelas curvas.
Fui tocando uma a uma, letra a letra.
Observando seu movimento, suas formas, gênero; respiração.
A cada toque uma surpresa, um encantamento, uma decepção.
Até que se apresentou o paradoxo, suas singularidades e pluralidades.
Decidi então ascender a luz para compreender melhor o que se passava.
Mas aquele contato íntimo tinha me ofuscado a visão, ou melhor, tinha eu caído em extrema cegueira.
Só era possível sentir, tocar, cheirar as palavras, mas não mais vê-las.
Inicialmente fiquei com medo, mas aos poucos fui me acostumando com o escuro e a experiência íntima com estes impronunciáveis seres.
Fui tomada por uma sensação de feliztristeza, um sentimento nobre jamais sentido antes, não daquela maneira.
Caí num pranto e minhas lágrimas molharam as palavras.
Elas se dissiparam uma a uma, letra a letra.
Foram descansar novamente no tempo e no espaço.
Na manhã seguinte acordei com uma única frase presa na memória recente que se repetia intermitentemente –
Comi as palavras
Comi as palavras
Comi as palavras…

***

Imagem destacada: fotografia de Karen Cantú, encontrada em Pinterest

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