Escola Sem Partido e Com Censura

Cena 1 – 2015 – Escola particular: Era professora de redação numa escola privada da minha cidade, no norte do Tocantins. Eu era umas das poucas professoras que tinham liberdade na sala de aula, inclusive para não seguir à risca o apostilado Ânglo. Durante todo o ano, trabalhei com a turma de 9º ano temas relacionados à mulher e sujeitos negros, preferencialmente. Contextualização: esse “respeito” à minha liberdade se dava por eu ser a única mestre e com perspectiva de entrar no doutorado. A escola me convidou para dar uma palestra na véspera do Enem. Na ocasião, falei do tema aborto. A diretora e coordenadora levantaram dados de todas as minhas aulas e ‘descobriram’ que esse era um tema que já discutia há tempos com os alunos. Me abordaram, falando que tal tema não era aceito pela escola, pois eram FTB. Me pediram que eu fizesse no máximo um debate para ver quem concordava ou não com a legalização. Me neguei a debater com os alunos temas que eles em absoluto desconheciam. Levei os textos e mostrei que eu preferencialmente discutia dados estatísticos com os alunos, focando preferencialmente fatores políticos e sociais. Por fim, sugeriram que eu abandonasse definitivamente o tema, mas voltaram atrás quando viram que só eu conseguia debater “assuntos que caíam no Enem”.

Cena – 2015 – Escola pública: Fui convidada por uma colega do doutorado, coordenadora de uma escola pública, a discutir, numa aula de sociologia, o tema “mulher”. Como o debate ocorreu semanas após o Enem, levei os dados para tentar entender com os alunos o motivo de as mulheres ainda serem vítimas de violência, considerando alguns avanços políticos, sociais e econômicos ao longo da história. Discuti escolarização, exploração da mulher negra, mulher no mercado de trabalho, mulher na propaganda, entre muitos outros recorte e contextos que as mulheres são vítimas de algum tipo de violência. Lembro-me que, na ocasião, um aluno reagiu de forma muito violenta à minha fala. A turma precisou contê-lo. Resultado: a diretora (que aqui é nomeada pelo governador, a partir de alianças políticas, independente da competência) ficou sabendo do teor do tema, levou o caso para outras escola e eu sou um nome proibido em todas as escolas estaduais da minha cidade. Minha colega veio pedir me desculpas (e à minha colega, que debateu sobre homofobia) e avisar que perdi o direito de entrar em qualquer escola.

A Escola sem Partido é uma realidade para nós, professores e professoras. Somos coagidos de diferentes formas. No mar de ilegalidade que funcionam nossas instituições pretensamente legais, são dados largos passos em direção à criminalização da prática de ensino. Uma coisa é certa: serei uma criminosa a partir do primeiro segundo em que essa insanidade ganhar legitimidade, pois jamais perpetuarei opressões ou serei conivente com a exclusão.

Prefiro deixar este texto anônimo. Eu sou bolsista e não sei como será minha vida após o doutorado. Já há muita resistência à minha figura na minha cidade por eu ser feminista e pesquisar sobre. Aqui (acredito que em outros lugares também) há perseguição política sórdida.

Imagem destacada: daqui

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