A segurança das mulheres é mais importante que o sentimento dos homens

No mundo do ativismo virtual, muitas vezes, nos deparamos com motes que procuram resumir ideias chaves para a militância. Para o papo desse artigo vou trazer a frase “todo homem é um estuprador/abusador em potencial”, que depois de muitos debates nas redes e, provavelmente, nos coletivos feministas presenciais, gerou o título desse texto.
Quando nós tivemos a “Primavera das Mulheres” em 2015, pode-se notar um aumento exponencial de atitudes e medidas diversas para tentar reduzir a violência contra as mulheres.

Não apenas as mulheres começaram a questionar a “rivalidade feminina” inata, mas também muitas juntaram-se para lutar contra o machismo. Entre as iniciativas podemos citar as campanhas do “Vamos Juntas” (mulheres passarem a andar em grupos para se proteger) e “Meu primeiro assédio” (expondo o alarmante número de meninas abusadas na infância), as denúncias em massa de misoginia e violência, assistência jurídica para mulheres, dicas de autodefesa e muitas outras.

A chuva de denúncias de assédio sexual da campanha Meu primeiro assédio que pode ter estimulado o uso da frase “todo homem é um estuprador em potencial”, visto que pode-se constatar que praticamente toda mulher algum abuso/assédio sexual antes de se tornar adulta.

Exagero? Bem, quem aqui pode dizer que nunca levou ao menos uma cantada indesejada, numa hora absolutamente inapropriada? Cantada também é assédio, assim como o beijo roubado (de alguém que ainda não está num relacionamento com a mulher), o sexo que a mulher não queria fazer com o marido num determinado dia é abuso, o homem que se masturba num ônibus olhando para uma mulher. Viu-se ainda que a maioria dos casos de abuso sexual em crianças é perpetrada por conhecidos das vítimas – parentes e amigos.

Questionou-se então as principais falas de culpabilização das vítimas de abuso, que é a de que elas provocaram o agressor ao se vestir de forma provocante, ou andar sozinhas, ou ser desbocada, ou ter feito o homem ficar zangado, ou não ter obedecido. Por fim, o resultado perturbador de toda essa conversa foi a pergunta: em quem podemos confiar? A resposta foi: em ninguém.

Por que não podemos confiar em ninguém? Porque o assédio pode acontecer dentro de casa. É fato (o meu aconteceu perto de casa). E quando saímos à rua, se nos deparamos com um homem estranho (e às vezes, até com quem já conhecemos há algum tempo), não tem como saber que ele é uma boa pessoa. Ninguém traz escrito na testa ou na roupa: “não sou um estuprador, relax”.

Após surgir essa fala do “estuprador em potencial”, houve uma comoção muito grande da parte dos homens e também de mulheres que se defendem dizendo “mas nem todo homem é um estuprador, não vamos generalizar”. Esse artigo é justamente para explicar que, se você é um homem que não estupra, você não precisa ficar ofendido por essa frase. Você está fazendo a sua obrigação como ser humano.

O grande problema de se defender a frase “nem todos os homens são estupradores” é que isso faz com que as mulheres baixem a guarda. Numa dessa, um estuprador em potencial vai se valer disso, conquistar a confiança de uma mulher e atacar. Temos que lembrar que estupro não é sobre desejo sexual – é sobre poder sobre a vítima.

Portanto, não podemos fraquejar na segurança das mulheres para não ofender os homens que não estupram. Não temos esse luxo…

Por Andreia Nobre
Imagem destacada: daqui

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