Ser negro tá na moda

“A cultura negra é popular, mas as pessoas negras não” – B. Easy

Festa bacana. Lugar afudê. Três minas negras (eu e mais duas).

Muitas Kardashians, muitos Kanyes Wests – brancos.

E aí eu tive a minha mais recente experiência sobre apropriação cultural e foi um teto (ruim).

Apropriação cultural é a adoção de alguns ou vários elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. E PAH: ser negro tá na moda.

O que eu vi ontem foi o retrato claro do embranquecimento e elitização do rap, do hip hop, e de nós, negros. Meninos e meninas se comportando, dançando e representando quem eles não são. Estou falando do apagamento de quem sempre foi inferiorizado e agora vê sua cultura ganhando proporções maiores, mas com outro protagonista.

“Mas meus avós eram negros, eu também tenho uma ligação com a cultura”. De certa forma, sim. E você também tem o benefício de se dizer negro quando lhe é conveniente.

Errados são os negros (errada sou eu?) por quererem reconhecimento sobre seus próprios feitos culturais?

E, veja bem, isso não é globalização. É um processo onde agora a moda é ser negra, mas o negro não está na moda, porque ser negro continua sendo ruim. Não se (e me) engane.

Se a minha cultura sempre, sempre foi marginalizada e inferiorizada, como posso enxergar uma troca no que está acontecendo?

A moda ~black dá uma falsa ideia de maior aceitação dos negros, mas fora das redes sociais mundiais o genocídio e o racismo continuam.

Eu superentendo o conceito de troca, de intercâmbio de culturas e isso é extremamente positivo. Mas se a minha cultura sempre, sempre foi marginalizada e inferiorizada, como posso enxergar uma troca no que está acontecendo?

Como disse, essa apropriação que tá rolando não se transforma em respeito e em direitos na prática do dia-a-dia. Mulheres negras não passam a ser tratadas com dignidade porque o rap ou o samba ganharam status. As pessoas não atravessam menos a rua porque um homem negro está vindo em sua direção. A nossa carne continua sim sendo a mais barata do mercado.

Acho muito que, em tempos como esse, as pessoas deveriam pensar melhor sobre seus discursos e atitudes. Sei que têm pessoas que vão ler esse texto e se ofender. Mas de nada adianta as pessoas quererem se inserir em um contexto negro se não estiverem dispostas a nos ouvir.

Que ótimo que vocês gostam e se interessam pela nossa música, nosso jeito de vestir, nossas tranças, nossos turbantes. Mas mais do que isso, se interessem por nós, pela nossa história, nos deem espaço pra falar.

Deem-nos a vez da fala, porque já ficamos demais em silêncio.

Por Poliana Corrêa
Imagem destacada: Solange Knowles, A Seat at the Table

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