The Crown e a tentativa de humanizar a Rainha

Além do prazer que sinto em ver seriados no formato maratona — quando tu esquece um pouco da vida — acho divertido tirar um tempo pra ler como outras pessoas foram tocadas pelas histórias, através de análises pela internet. Decidi, então, compartilhar as discussões que ficavam entre amigas e, quem sabe, expandir o olhar sobre esses episódios que exigem o que muitos consideram sem preço: nosso tempo — contando algumas percepções que tive.

Minha primeira “análise” aberta será sobre The Crown, série nova da Netflix, que conta a história fictícia-real da Rainha Elizabeth II. Mas por que falar dela agora? Por que eu vim de um looping entre a terceira temporada de The Fall (que talvez eu tente expressar aqui a maravilhosidade que foi esse fim) e The Crown.

Talvez ter visto essas duas quase em paralelo me deixou mais sensível a algumas questões relacionadas ao feminino, pois ambas possuem papéis de mulheres com grandes personalidades e lutas.

Indo logo ao que interessa, eu assisti toda a primeira temporada de The Crown e, mesmo não gostando de spoilers, corro o risco de soltar algumas verdades. Então, se tu, assim como eu, gosta de manter as expectativas pra quando for assistir, talvez seja melhor voltar a esse texto em um pós-série. Deixa ele salvo em algum lugar que tu lembre, aí podemos voltar a conversar outra hora.

Para aqueles que não são apegados ou que não pretendem assistir, sigamos o barco, porque o papo acabou se estendendo. Acontece.

Nunca fui de acompanhar muito a história da Rainha Elizabeth, acho que não cheguei a pegar os tempos de glória da monarquia. Talvez por isso, tive muitas surpresas com relação à sua construção. Primeiro que eu nunca tinha pensado em como a Igreja tinha um papel tão sério nessa história toda. Como monarca, a Rainha representava a fé, então ela meio que era um dos “contatos” mais próximos com Deus. É no que eles acreditavam, mas não vamos entrar na religião aqui.

Indivíduo x coroa

Logo que Elizabeth começa a ter uma relação mais próxima com o primeiro ministro da Inglaterra, vai ficando claro o que se é esperado dela como Queen. Ele repete, sempre que considera necessário, que, ao ser coroada, ela deixa de ser um indivíduo para se tornar um ideal. Se fala muito sobre isso em toda a temporada, sobre ela deixar de ser Elizabeth Windsor e se tornar Elizabeth II. O peso da coroa é abrir mão de ser mulher, mãe, esposa, filha, irmã – uma luta interna que a Rainha sofre desde o momento em que seu pai morre.

Há uma cena no último episódio em que a Rainha liga para seu tio, Eduardo VIII (que havia abdicado ao trono), para pedir um conselho. Ele afirma que a sensação de estar dividida entre ser mulher e rainha sempre irá existir, a dúvida entre defender a família ou o trono. Mesmo sem ter o que governar, Eduardo conta que ainda se sentia meio-rei e que ela provavelmente também fosse viver entre metades.

Nessa hora, lembrei dos papéis que são esperados das mulheres socialmente e que “todo mundo” — patriarcado — acha normal elas serem sobrecarregadas enquanto os homens ficam vendo televisão. Se pra uma mulher normal, que não representa um ideal, já é muito difícil manter tudo equilibrado, imagina uma rainha que tem o estado dizendo uma coisa, a igreja outra e ela querendo fazer uma terceira que faz mais sentido pra ela?

O governo 100% masculino, branco e acima dos 40 — estamos na década de 50.

Outro momento que me chamou atenção foi um puxão de orelha que ela teve que dar no primeiro ministro, que na época estava perto de fazer 80 anos, enquanto ela tinha seus 26. Ninguém a levava a sério pela idade, mesmo com tudo que representava. Então, antes de manifestar o que precisava, ela pediu pra ele deixar de lado o fato de ela ser muito mais jovem que ele – e M U L H E R – pra prestar atenção no que ela tinha a dizer.

O que aconteceu? Ele foi apenas colocado no seu devido lugar de homem, que, mesmo com muita experiência, não tinha amadurecido ainda. Algo que encontramos ainda nos dias de hoje ao nosso redor.

O maridinho — Philip

Bom, na época ela já era casada com Philip e tinha dois filhos. A vida começou a ficar diferente desde o dia em que seu pai se tornou rei, pois ela precisava ser preparada decorando toda a constituição e aprendendo a ser uma princesa — “uma mulher que sabe quando ficar em silêncio.”

Sei que de todo mundo Philip era o menos preparado para ter a esposa como sua rainha. Um dia antes dela ser coroada, Elizabeth pergunta se ele irá se ajoelhar na solenidade e, pasmem, ele não anda muito afim. Imagina só um homem, ex-militar, se curvar perante a esposa? Pode machucar o joelhinho.

Fica evidente o quanto ele se sente castrado, pois, com a coroação, a Rainha teria que decidir onde morar e qual nome seria usado pela família — o dela ou o do marido. Eles já viviam em outra casa recém reformada e o boy queria ficar por lá, assim como não suportava a ideia de ser o único homem da Inglaterra que iria ter o nome da esposa. Muito coitadinho ele.

Todo mundo ao redor sentia que ele não estava muito contente em “viver na sombra” da esposa. Mesmo ela super tentando entender como seria esse arranjo de Rainha-esposa, ele parecia só querer saber de andar de avião e sair beber. Bem adulto.

Por fim, como ele não fazia mais nada na vida a não ser reclamar e nunca estar presente, ele resolveu começar a ser grosseiro. Porque esse é o natural processo de uma criança que não é ouvida: brigar. A guria já estava super sobrecarregada tentando decidir quem ela era como Rainha, mulher, mãe e, nesse momento, filha e irmã (tinha umas tretas rolando), e o chatonildo resolve dar mais um sinal de sua imaturidade lembrando que ela, também, não andava sendo uma boa esposa. Fora o fato de que, mesmo ela sendo a Rainha da porra toda, ele achava que tinha posse sobre sua esposa, com direito a ataque de ciúmes ridículo por causa de um amigo que cuidava dos cavalos dela.

Sorria, girl!

Acho que a melhor parte, para finalizar essa análise que é quase o roteiro (eu me empolgo, gente), foi uma viagem que ela fez de 58 dias, 57 cidades. Coitada. Ela sorriu tanto, porque né, não podia não sorrir. Imagina só, iam pensar que ela estava cansada ou até mesmo irritada se não mostrasse os lindos dentinhos.

Resultado: a criatura teve uma espécie de espasmo na bochecha de tanto sorrir. Teve que tomar uma injeção de relaxante muscular pra poder conseguir cumprir o resto da agenda. Ai dela se não cumprisse — o que demonstrou uma certa necessidade de ser sempre perfeita.

Curto muito essa luta entre o feminino e o patriarcado que a história conta, mas é triste ver o lado mulher morrendo aos poucos. Estou louca pra ver o que a Netflix vai escolher contar e como vai construir essa linha, porque a Rainha está muito bem obrigada com seus 90 anos.

Quem sabe esse seriado tenha sido uma tentativa de humanizar a Rainha, que acabou sendo percebida pela mídia como uma pessoa um tanto desprovida de sentimentos. Vendo a série eu entendo como ela ficou assim, pois sempre que a sua opinião tentava sobressair, vinha algum homem mais velho dar conselhos sobre como deixar de lado o indivíduo, “porque ninguém quer ver Elizabeth, e sim a Rainha.”

Por Gabriela Teló Bertolazi
Texto e imagem originalmente publicados no medium.com da autora

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