Berlim, minha mãe, arte e liberdade

Uma das lembranças mais lindas que tenho é ir ganhar dinheiro que precisava para ir para a Euro Disney (opa, entregando minha idade aqui) tocando berimbau no metrô de Kreuzberg em Berlim, porque minha mãe não criou filha para gostar de coisas imperialistas.

Tá, eu vou explicar melhor.

Eu tinha 13 anos e queria muito ir na Euro Disney, mas muito. Tinha acabado de chegar na casa da minha mãe para mais uma temporada, diretamente da periferia da Amazônia, vulgo casa da minha vó, onde eu tava de boa até que eu descobrir que tinha uma Disney na França e perceber a possibilidade de ir curtir um Mickey no verão. E cheguei determinada para isso.

Dona Martha nem acreditou nisso, ela ficou entre rir e chorar e logo soltou um “não tenho dinheiro, bicho” (aliás, para quem interessar possa, é dela que vem meu “bicho” retrô-quase-sem-sentido no meio de uma conversa). Esse “não tenho dinheiro” logo transformou-se num “Ahhh Sarah, Disney? Sério? Com tanta coisa legal na tua vida para ver, vais dar dinheiro para esse enlatado sem alma dos EUA?”.

Sim, minha mãe era o máximo. Não, eu não conseguia entender isso aos 13 anos. Um negócio me subiu e eu usei tudo que ela me disse a vida toda: “Mas você fala tanto que eu sou livre! Eu não tenho liberdade para escolher meus planos do verão?”

A partir daí já não lembro bem se eu tive a iniciativa sozinha ou se ela que deu um empurrão, só sei que em 30 minutos eu estava tocando berimbau com o chapéu nos meus pés, cheio de moedas colocadas por mim mesma. Foi muito natural pois eu eu já tinha visto minha mãe fazer isso tantas vezes, né? Nem lembrei que só sabia tocar três músicas, se é que posso chamar aquilo de “tocar”.

Minha lembrança a partir daí resume-se em estômago revirado pelo medo da vaia e o barulho de algumas moedas sendo colocadas no chapéu. Após uma música inteira percebi que ainda estava viva, as pernas tinham parado de tremer e meu estômago se acalmou. Toquei outra já com coragem de levantar os olhos para espiar o meu redor.

Foi aí que cruzei com os olhos da minha mãe, que ria, e muito. Provavelmente de quão mal eu estava tocando. Ela se juntou a mim me passando o pandeiro e retirando o berimbau da minha mão, salvando-o (e aquelas pessoas) da tortura musical que eu devia estar submetendo-os.

Aquela foi a primeira de muitas vezes que a gente fez isso, tocar juntas na rua. E o engraçado que mesmo eu tendo visto minha mãe fazer isso tantas vezes, até aquele momento eu nunca tinha conseguido enxergar o que ela fazia para além do chapéu, sabe?

Naquele dia eu finalmente entendi o que era ser um artista, de ter todos sob teu comando apenas com um olhar, apenas com a arte. Eu entendi a nobreza da arte que te cobre como um manto seja lá onde você estiver, e também entendi a grandiosidade da rua, o maior palco de todos.

Depois, voltando para casa, ela me disse como sofria de saudades do Brasil, como morria um pouco todo dia que amanhecia longe dos nossos tambores, da nossa comida, etc., mas que ela tinha escolhido Berlim pois ali ela podia ser livre, e ser livre é a verdadeira felicidade.

Ela me levou para a Euro Disney no dia seguinte.

Eu tô aqui dizendo tudo isso porque acho que não existe cidade no mundo igual àquela. Ali eu pude entender o que é liberdade, o que é arte, o que é respeito, o que é humanidade.

Lá eu fiz uma promessa para minha mãe: eu nunca ia me contentar com menos do que ser livre.

Ela morreu 01 ano depois desse dia, e alguns anos depois eu resignifiquei essa promessa e passei a buscar ser um agente de liberdade para as pessoas. Eu escolhi a cultura para trabalhar, para produzir, para viver. E escolhi o Brasil de peito aberto para ser o local desta construção.

Nestes tempos nefastos, quando Berlim foi atacada e nosso País (em especial o RS) está sofrendo tantos golpes contra sua produção simbólica e contra liberdades, eu precisava contar isso para alguém. Eu precisava jogar isso aos ventos digitais para fortalecer ainda mais essas lições que carrego dentro de mim, como se a publicização me deixasse ainda mais comprometida às promessas que fiz a minha mãe e a mim mesma.

E mesmo com tudo o que estamos vivendo, eu reafirmo minhas escolhas. Me recuso a me paralisar e ficar com medo de futuro. O medo, ele ataca nossa liberdade.

Mas a gente é livre e não vai deixar o medo vencer. Não vai.

Não vai ter medo.
Vai ter ocupação.
Vai ter cultura.
Vai ter luta.

Vai ter muita luta pela felicidade, viu mãe?

Por Sarah de Almeida Brito
Na imagem destacada: a Dona Martha, mãe da Sarah, sendo deusa. 

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