Por que é tão difícil aceitar que é machismo?

Agora qualquer coisa é machismo? Tudo é machismo?

Ilusão de intencionalidade

Em geral existe a ideia equivocada de que só podemos chamar de machismo quando há uma ação deliberada e intencional, na tentativa de diminuir, desqualificar ou agredir fisicamente uma mulher. Para que o senso comum credite machismo como tal, é preciso ainda que o autor da ação tenha o estereótipo apropriado: de homem grosseiro, que odeia mulheres, sem algum respeito por elas e diga abertamente que mulheres são inferiores aos homens. Quando a pessoa é considerada “boa gente” e não há a intenção de agressão na ação, apontar machismo vira quase uma heresia, uma calúnia.

O machismo é tão naturalizado, que homens e mulheres tem grande dificuldade de identificá-lo em seus cotidianos, mesmo quando ele acontece diante de nossos olhos. Mesmo quando a mulher é vítima, é comum que ela não enxergue nada de errado e ainda acredite ter sido culpada pelo ocorrido.

Construção Social

O machismo se expressa o tempo todo em quase todas as interações entre pessoas e aparece em pequenos detalhes. Isso não acontece porque seres humanos são monstros malvados, ou todos os homens que cometem atos machistas e mulheres que reproduzem essa lógica, são pessoas odiosas que merecem ser punidas. Infelizmente a nossa cultura, nosso sistema, nossa educação nos ensinou que existem certas diferenças entre homens e mulheres que justificam uma determinada hierarquia e determinam as coisas como são. A sociologia chama isso de Construção Social.

Construção social é um conjunto de acordos coletivos entre sociedade e indivíduos, que determinam valores e significados sobre: moral, ética, costumes, regras de etiqueta, padrões de beleza, padrões normativos e até o que chamamos de “gosto pessoal”. Ela não é estática, sofre influência dos acontecimentos e vai mudando de forma ao longo do tempo.

Fantasmas de um passado recente:

Do ponto de vista dos direitos da mulher, houveram inúmeros avanços. No entanto, essas mudanças aconteceram num passado bastante recente, e portanto, a forma que enxergamos a capacidade de autonomia, racionalidade e potencialidades da mulher, ainda sofre influência desse antigo olhar. Repare o quão recente são algumas conquistas:

  • Em 1915 mulheres conquistaram o direito de movimentar contas bancárias. Mas somente com a autorização de seus maridos.
  • Até meados de 1923, mulheres tinham escolarização diferenciada. Não havia em seus currículos matérias como Geometria e outras disciplinas do campo de ciências exatas, para dar lugar a aulas de costura, bordados, culinária e engomados.
  • Em 1932, as mulheres conquistaram o direito ao voto.
  • Em 1962, a mulher passou a ter o direito a trabalhar fora de casa, sem a autorização formal do seu marido. Nesse mesmo ano conquistou o direito de receber herança e em caso de separação, pôde, recorrer a guarda dos filhos.

Não herdamos somente dinheiro e bens materiais de nossas famílias, herdamos capital intelectual, tradições e visões de mundo. Por mais que as leis tenham mudado a realidade dos direitos, uma antiga visão sobre os limites e fronteiras que uma mulher pode se aventurar e ousar ultrapassar, ainda permanece. Mas permanece dentro de um imaginário, uma espécie de tabu, como algo velado, onde as críticas que censuram quem ousa ultrapassar essas fronteiras entram no plano do “inadequado”, “cômico” ou “confrontador”.

Aprendemos que as coisas são como são, que o mundo funciona de uma determinada forma e, questionar suas lógicas de funcionamento soa como falta de habilidade para lidar com a realidade. Questionar o status quo, é mexer em lugares de conforto.

No livro O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, ela explica que o “Eu” do pensamento filosófico é masculino enquanto o “outro” é feminino. O “Eu” é ativo e consciente, enquanto o “outro” é tudo o que o “Eu” rejeita: passivo, sem voz, sem poder. O que pensamos sobre o mundo e sobre nós mesmos, como sujeitos sociais, foi muito influenciado pela filosofia e por pensadores como Platão, Aristóteles, Sócrates e outros. A representação do mundo foi obra dos homens e a história foi contada pelo ponto de vista masculino.

Relações de poder

A Sociologia indica que uma das questões fundamentais para se entender as relações humanas, é observar as relações de poder.

Para o historiador e filósofo Michel Foucault, o Poder não é uma coisa que se tem, é algo que se exerce e se exerce em rede, inclusive nas relações do cotidiano. Ele afirma que associamos poder à punição, ao castigo. Em nome da ordem e da moral, se permite punir, vigiar e controlar. Mesmo fora de um local de controle, o indivíduo continua governado por certa lógica disciplinar onde as pessoas vigiam e controlam umas as outras. Esse sistema de poder é capaz de moldar o indivíduo, transformando-o em um indivíduo útil economicamente e dócil politicamente. Para Foucault, o poder não somente reprime, mas também produz efeitos, constituindo verdades, práticas e subjetividades.

Foucault diz ainda que a forma como nos enxergamos não é dada pela nossa natureza, nem de uma essência pessoal; ela é influenciada pelo olhar e julgamento externo, que criam sujeitos: a Sujeição.

Através de seus mecanismos, o poder atua como uma força coagindo, disciplinando e controlando os indivíduos.

“Foucault nos faz entender que a modernidade investiu no poder, no controle, nas formas de dominação 24 horas por dia, produzindo o indivíduo, o corpo, o desejo, dizendo o que você é, o que você deve gostar, o que é errado, o que é normal, da religião à ciência, que, aliás, bebe na fonte da religião”, Margareth Rago/Historiadora

Max Weber, um dos fundadores da sociologia, fala bastante sobre as relações de dominação/submissão. Ele diz que a dominação é sempre resultado de uma relação social de poder desigual, onde se percebe claramente a existência de um lado que comanda (domina) e outro que obedece. Segundo Weber, dominação difere das relações de poder em geral por apresentar uma tendência a se estabilizar, a procurar se manter sem provocar confrontos. Assim, as relações de dominação na sociedade se caracterizam por buscar formas de legitimação, de ser reconhecidas como necessárias para a manutenção da ordem social.

Influência Cristã

Importante considerar que vivemos numa sociedade cristã, nosso calendário respeita as festividades religiosas católicas, a forma com que enxergamos a mulher e o seu papel na sociedade sofre influência direta dos ensinamentos cristãos. A história de Adão e Eva diz muito sobre como enxergamos a mulher:

*1 “Deus (homem) criou o homem à sua imagem e semelhança, e lhe deu tudo aquilo que havia criado: natureza, fauna, água e os animais, todos alocados no paraíso (…). Ao passar do tempo, o homem percebeu que todos os animais tinham seus correspondentes, fêmea e macho. Diante dessa observação, foi sentindo-se sozinho e triste. Deus então percebeu que sua criação estava melancólica, e resolveu presenteá-la; pegou uma de suas costelas e modelou a mulher, sendo este seu presente. A mulher, como agrado, nasce com a função de fazer companhia ao homem.”

Ainda hoje, não é raro assistirmos numa cerimônia de casamento cristão em que digam à noiva que ela deve ser fiel e submissa ao seu marido. É difícil admitirmos que em tempos tão modernos existe um “lugar de mulher”, uma hierarquia de sexos e papéis de gênero tão marcados. Mas existe, e é preciso admitirmos isso.

Nascemos todos dentro de uma mesma cultura, sujeitos a mesma construção social, herdamos capital intelectual de nossas famílias que viveram em um tempo onde mulheres eram cidadãs de segunda categoria, e portanto, deixar de atuar dentro dessa lógica depende necessariamente de um trabalho diário de desconstrução de alguns valores e crenças.

Esse trabalho começa somente quando reconhecemos que todos nós reproduzimos em algum grau, o machismo. Só é possível mudar uma realidade quando saímos do estado de negação e a reconhecemos.

Por Raquel de Souza. Post originalmente publicado no medium da autora, de onde também vem a imagem destacada.  

Referências
Maria Luiza Heilborn — Gênero e Hierarquia — A costela de Adão revisitada:
Edimar Inocêncio Brígido — Michel Foucault: Uma Análise do Poder
Marinete dos Santos Silva — “TUDO MUDA, MAS NADA MUDA”: o diferencial feminino e a divisão sexual do trabalho
1) Artigo de Carla da Silva — A desigualdade imposta pelos papeis de Homem e Mulher: uma possibilidade de construção da igualdade de gênero.
Daniel da Rosa Eslabão — O conceito de dominação em max Weber. Um estudo sobre a legitimidade do poder.

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