Maria, Maria

Imagine você, internauta, que tivesse a grata oportunidade de conhecer Maria Luísa. Vinda de uma família de classe média baixa e conseguiu estudar nas melhores universidades do país. E, logo cedo, destacou-se em sua carreira a ponto de receber uma carta de uma das autoridades do ramo a considerando sua “sucessora”.

Uma mulher como Maria, claro, tem suas ideologias e posições políticas. Ela defende, por exemplo, que as mulheres tenham acesso aos direitos reprodutivos e seu reconhecimento histórico. Também é militante dos direitos humanos e luta contra a xenofobia. E, claro, vota em um partido que foi derrotado nas últimas eleições.

O que podemos dizer de Maria Luísa? Muita coisa, principalmente se contabilizarmos os prêmios que ganhou ao longo de sua carreira e o fato de que, aos 67 anos, continua trabalhando normalmente e se recusa a interpretar um papel que não é: de uma mulher que não aceita sua própria idade, seu corpo, suas rugas, seus óculos.

Maria Luísa existe e não é invenção da minha cabeça. Seu sobrenome é Streep e eu só traduzi o original Mary Louise para demonstrar que ela e sua carreira não precisam ser resumidos “apenas” como ganhadora de três Oscars (como se pouco fosse) e indicada a 19. “Só” Globo de Ouro ela ganhou nove. E foi indicada a 29. Definitivamente, é uma das melhores atrizes de todos os tempos.

Meryl Streep, entretanto, usou o tempo que tinha para agradecer seu nono Globo de Ouro para fazer um discurso firme e contundente. Sem citar nomes, ela defendeu a liberdade de expressão e de imprensa e condenou a xenofobia, discurso que está se tornando cada vez mais forte para expulsar imigrantes. Com argumentos reais e coesos ela elegantemente deu seu recado: o de uma cidadã e atriz que não estava satisfeita com os rumos que seu país estava tomando.

O que dizer então de Meryl Streep? Que ela é uma atriz bem sucedida (no mínimo) mesmo não concordando com o discurso dela. Não foi isso que fez o presidente eleito Donald Trump ao chamá-la de uma atriz que é mais elogiada do que realmente merece ser (?) e uma puxa-saco de Hillary Clinton.

Parece que, para Trump, a crítica, os fãs, jornalistas, colegas, todos aqueles que reconhecem que Meryl Streep é uma grande atriz são tolos que não sabem o que dizem e acabam exagerando demais nos elogios. O fato dela ter uma posição política e escolher uma candidata faz dela um capacho.

Para ele – e homens como ele – é impensável reconhecer uma mulher com diploma de Yale e Dartmouth como uma mulher estudiosa e intelectual. Uma mulher com três Oscars não é competente – é só idealizada demais. Uma mulher com este currículo e esta estatura não é capaz de pensar por si própria e defender suas próprias ideias, ela é serva de alguém.

Em poucas palavras, foi isso que ele disse. Que uma mulher com opinião e esclarecimento não deve ser levada a sério por ser manipulada.

Relembrando: Donald Trump, que não tem experiência política alguma, está falando de Meryl Streep. Meryl Streep! Assim, como se não fosse ninguém.

Ainda que não fosse ninguém, Maria, Mary, enfim, qualquer uma, tem direito sim a pensar e ter sua opinião, sua visão, seus valores sem ser fruto de manipulação ou como se tivesse imbuído em seu cérebro. O pensamento de Trump é que mulheres não têm capacidade de pensar por si próprias.

Infelizmente, ele não é o único. E mais triste ainda é saber que existe até nomenclatura para este comportamento: machismo e misognia. E destes, nem Marias e nem Meryl Streep escapam.

Por Ivy Farias, 35 anos, jornalista, estudante de Direito da UMC Campus Villa-Lobos Lapa em São Paulo e uma das co-fundadoras do Movimento Mais Mulheres no Direito.

Imagem destacada: El País, que publicou o discurso da atriz, na íntegra, traduzido para português.

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