Matheus, homofobia e morte

Eu nunca parei, de fato, pra pensar sobre a morte. Talvez, vez ou outra. Bom, meu pai morreu assim que nasci, morte sempre foi coisa fácil pra mim. Estava, pela vida adulta, ocupada – acredito, ao menos – lutando pela vida das mulheres e população LGBT, grupos os quais me são caros e familiares. Seja lá o sentido que você interpretar do que é família. Pois bem, pensava eu sobre vida. Nunca sobre morte.

Ontem (16/01/2017), aqui em Caxias do Sul, uma criatura solar se foi. Fez de uma corda arma de sufoco. Sufoco, que, penso eu, ele tenha vivido e revivido dia após dia. Sufocado pela vida, escolheu a corda, se enforcou. Um garoto! 17 anos, cabelos felizes, ora rosa, laranja, uma pessoa arco-íris. Se foi para sei lá onde este ser colorido.

Eu o conhecia, mas não muito bem. O via em festas as quais eu tocava – sou DJ pra quem não sabe – ou por interações breves no Facebook. Lembro-me bem dele: rosto juvenil sempre ajudando-me, sem saber, a segurar minha autoestima feminista prejudicada, dizendo-me ser diva, maravilhosa, rainha, coisa afins. Ele nunca soube o bem que me fez.

Ele nunca soube o bem que me fez.

Ele acreditava não ser merecedor deste mundo. Tinha certeza que não era amado. Ou decente, digno. Não sei bem, na real, o que Matheus pensava. Julgo ser verdade por entender carências de uma vida. Julgo assim, por estar ali, no meio, expectadora. Julgo, ninguém quer compreender nossas doídas dúvidas. Julgo… Não julgo. Sei! Ninguém quer ajudar.

Acontece que Matheus morreu, se matou. Suicídio. Quero e não quero entender o porquê ele teve a audácia. Eu nunca seria tão forte como ele. Nunca tão corajosa. Talvez eu até seja grata por minha covardia. Minhas palavras não bastam. Nunca bastarão!

Desde que soube da morte do Matheus, não posso fechar os olhos. Matheus vem às minhas retinas, enforcado, com seus cabelos rosas. Abro os olhos, choro. No banheiro, choro. Escondida, pois não tenho razão para sentir sua dor, nem a sua nem dos seus. Mas dói. E dói tanto. E me assusta. E tenho medo pelos outros, iguais a ele.

Eu odeio dizer: Matheus era gay. Odeio porque não é algo que se é preciso dizer. Ele era um garoto doce, inofensivo, amável e preocupado em fazer o outro se sentir bem. Pena, não é, que o mundo, pelo jeito, não se importou em saber como ele estava.

Odeio dizer “ele era gay”. Odeio porque não é algo que se é preciso dizer.

Eu, boa/ feminista lutei tanto por nós, mulheres, e por todos os quais o machismo repudia, inclusive Matheus. Não foi suficiente. Quero me livrar dos dizeres e acolher nos braços os fazeres e ‘salvares’, mas como? Como salvar a vida de alguém? Como trazer o Matheus e tantos outros de volta à vida? Mesmo aqueles que ainda não morreram. Tem gente que morre no dia que nasce: ser infeliz por toda vida é ausência de vida e isso conjura morte. Eu sei! Todos sabem.

Tem gente que morre no dia que nasce: ser infeliz por toda vida é ausência de vida e isso conjura morte.

Eu não quero pensar em seus pais, não quero culpa-los. Não vou! Com a teoria, adquirida em anos de feminismo teórico, também, aprendi que somos construtos sociais. Eu não vou pensar em seus pais. Não vou. Nem posso. Eu os odiaria. Sou puro ódio e mágoa agora, sabe? Me desculpe. Posso culpar a sociedade, mas ela vai a nosso mil avô. Eu não tô pra teoria. Tô pra dor.

Matheus, garoto, 17 anos, triste, sozinho. Penso em seus cabelos coloridos e meu corpo desestabiliza, corro para o banheiro e choro. De novo choro. E choro. Tenho amigos que choram como eu, por Matheus, por outro, por tantos.
Tenho outros amigos, como Matheus. Quando volto do banheiro, tenho medo de dormir. Medo de dormir e perdê-los.

Tenho medo. Tanto medo.

Por Sandra Cecília Peradelles

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