Mulher, negra e livre para ser o que quiser

Esses dias eu estava refletindo sobre, afinal de contas, o que é ser uma mulher negra? Me peguei com esse pensamento fixo na minha cabeça porque nos últimos anos parece que tem uma fórmula para ser uma “mulher negra empoderada”, um pacote que inclui um cabelo super descolado, crespo ou trançado e de preferência colorido, batons, roupas com estampas étnicas africanas ou então com referências ao movimento hip-hop. Precisa gostar da Beyoncé, da MC Carol e de todas as mulheres negras que estão em evidência no cenário midiático. É preciso também ter opinião sobre tudo, e ser lacradora.

Empoderamento, nos últimos anos, tem estado diretamente relacionado com um padrão estético. E entendam um enquanto numeral. É uma estética única, universal, o que é destoante com o discurso de reconhecimento da diferença que vem acompanhado dele. Existe um nós, unívoco. E um eles, unívoco também. Aparentemente, estamos também presos na lógica das padronizações, a diferença é que agora temos um padrão para ser negra e uma receita de bolo para um reconhecimento entre nós.

Aparentemente, estamos também presos na lógica das padronizações, a diferença é que agora temos um padrão para ser negra e uma receita de bolo para um reconhecimento entre nós.

O enigma da esfinge, decifra-me ou te devoro, me pegou de jeito e fiquei ali, andando em círculos em volta daquele felino com cara de gente e cabelo black-power. Então, entre tantas outras coisas que eu queria abordar nesses textos sobre consciência negra, comecei a dialogar com a Larielly sobre a mulher negra, sobre as infinitas possibilidade de ser mulher negra no Brasil e sobre romper com estereótipos do passado e do presente.

As mulheres brancas têm um reconhecimento com a sua feminilidade que apresenta diferenças com a forma que isso se dá pra gente. Primeiro porque o que é tido como “mulher” é mais facilmente alcançável para elas, ainda que para isso seja necessário ceder a uma série de violências. É óbvio que algumas se negam a reproduzir as naturalizações de gênero, escapam disso a partir de um conhecimento político, de uma militância no movimento feminista (em todas as suas nuances e correntes), das suas possibilidades de auto-conhecimento. Para nós, mulheres negras, é recente a ideia de que não somos coisas. Que a nossa trajetória pode ser muito mais do que mulatas exportação ou mães pretas. Romper com o auto-ódio, se reconhecer, se abraçar enquanto uma pessoa completa, com desejos, dúvidas, vontades, dores e sentimentos é novo. Novo e desafiador.

As representações hegemônicas sobre o feminino historicamente não consideram as subjetividades das mulheres não negras. O ser mulher não engloba as mulheres negras, mas sim uma imagem padronizada de mulher. Por isso, o desafio para as mulheres negras é constituir uma identidade que seja capaz de conter uma pluralidade de possibilidades de ser sujeita da sua própria história.

A idéia da mulher negra como uma super mulher, forte, que aguenta tudo que lhe é imposto, a mãe provedora que contra tudo e contra todos dá conta de uma carga absolutamente pesada de responsabilidades é uma imagem que precisa ser questionada. A mulher negra desde a época da colonização é vista como objeto que tudo aguenta, trazendo em sua bagagem uma história de dor e muita repressão. A quem serve a ideia de que as mulheres negras aguentam tudo? Que suportam todas as dores? A quem serve a ideia que essa mulher pode perder seus filhos, seu emprego, sua casa, sua família e ainda assim seguirá resistindo e lutando? Não pode parecer natural que estejamos a todo o tempo dispostas a segurar todas as barras, todos os infortúnios, sem perecer.

A naturalização das nossas dores é algo que não traz nada de bom, nos adoece internamente e é absolutamente tóxica. Precisamos do auto-cuidado, precisamos de um dia de folga, precisamos nos dar ao luxo de cansar e poder descansar.

Ao conversar com mulheres negras mais velhas a gente percebe o quanto essas ideias estão enraizadas no imaginário popular e quanto elas são cruéis. Nós somos aquelas que não temos direito a sentir e quando compartilhamos tristezas quase sempre ouvimos : “tu é forte, logo passa.” Somos criadas para cuidar do outro, para amenizar a dor do outro, para solucionar o problema do outro. Criadas para servir. O histórico de representações hostis sobre a mulher negra tem se alterado gradualmente, no último período temos visto uma maior representatividade na mídia. Mas essa maior representatividade traz consigo uma nova construção padronizada sobre a estética negra. O empoderamento explorado pela mídia é de um tipo que demanda muito dinheiro e, portanto, caímos mais uma vez numa lógica de exploração.

Somos criadas para cuidar do outro, para amenizar a dor do outro, para solucionar o problema do outro.

É preciso compreender que assim como existe uma pluralidade de subjetividades para as mulheres brancas, elas também existem para as mulheres negras. O debate torna-se mais rico quando somos capazes de olhar umas para as outras e reconhecer nossas diferenças e compartilhar nossas pluralidades de vivências. Os implícitos sobre as mulheres negras precisam ser rompidos, tanto aqueles que permanecem desde a escravização, quanto estes novos.

Empoderar-se é poder estar tranquila com aquilo que se é, confortável com nossos corpos, com a coloração da nossa pele, com nosso cabelo, seja ele um cabelo bem curtinho, seja ele uma juba colorida.

Por Winnie BuenoLarielly Donini
Imagem destacada: detalhe de Two Women, 1950, de Loïs Mailou Jones

(Texto originalmente publicado no medium de Winnie Bueno e reproduzido aqui com permissão da autora.)

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