Estamos em luto, mas vamos à luta

Essa é a segunda vez que eu moro nos EUA. É a segunda vez que eu participo, como expectadora, de um escândalo político de proporções desastrosas. Em 1998 eu ainda era uma adolescente quando vim para este país morar com a minha prima. Ela, jornalista, fazia a cobertura da Casa Branca para uma rede de TV. Lembro direitinho do dia em que ela me ligou e falou que ia chegar tarde porque o Clinton, presidente na época, estava envolvido até o pescoço numa fofoca daquelas. O que aconteceu depois dessa ligação, o mundo inteiro sabe.

Dezesseis anos depois, voltei pra cá. E a vida foi seguindo tranquila, sem grandes sobressaltos. Até que meu filho fez doze anos. Meu garoto fez aniversário em novembro. Mais precisamente no dia em que os resultados das eleições de 2016 saíram. Apagamos as velinhas com o coração apertado de tristeza.

Passei dias chorando. Semanas, até. O inconformismo me assolava, o medo me invadia as entranhas e não foram poucas as vezes em que eu me senti a mais impotente das criaturas. E foi então que, conversando com uma amiga, ela me falou: pode esperar, as americanas vão transformar o choro em luta.

Dito e feito. Em menos de três meses, milhares de organizações começaram a pipocar pelo país. As minhas redes sociais foram invadidas por notificações de amigos e amigas confirmando presença em eventos, fundraisings, campanhas virtuais. Milhões de dólares foram arrecadados. Artistas se uniram, Meryl Streep brilhou e a mídia não deu trégua. Só se falou do legado de Obama. Toda a imprensa só queria saber de Michelle, Sasha e Malia. Até sobre os cachorros dos Obama as revistas fizeram reportagens. Ninguém quis saber de Trump.

A posse é amanhã. Como acontece todas as vezes que um novo presidente é empossado, Washington fica borbulhando. Mas dessa vez as coisas estão diferentes. Embora todas as passagens aéreas e de trem estejam esgotadas, o motivo é outro. Um evento gigantesco chamado “Marcha das Mulheres” está unindo pessoas do país inteiro. Washington será invadida por milhares de mulheres, crianças, homens, idosos, negros, imigrantes, LGBTs, muçulmanos e toda a gente que repudia o futuro presidente.

Só para se ter uma ideia, a prefeitura de Washington emitiu mais do triplo de permissões de estacionamento para ônibus da marcha do que para ônibus que participarão da cerimônia oficial. Diversas cidades ao redor do país estão programando eventos locais, vinculados à marcha. Pessoas que não conseguiram passagem estão indo à pé, em pleno inverno, só para marchar. Uma ONG arrecadou meio milhão de dólares em um campanha virtual para imprimir cartazes de protesto. Professores de universidades famosas como Harvard e MIT já confirmaram presença na marcha. Políticos, prefeitos e governadores também estarão na marcha. A polícia já não sabe mais onde – e como – vai alocar tanta gente.

E não é só. Para além da marcha, os protestos continuam. E das formas mais inusitadas. Em Boston, os museus vão fechar amanhã. Nenhum artista famoso concordou em tocar na cerimônia oficial. Nenhum grupo artístico quis se apresentar na posse. Nenhum estilista famoso topou assinar o vestido da Melania.

Ao que tudo indica, Trump será mesmo o 45º presidente dos EUA. Mas certamente assumirá o cargo com a menor popularidade da história. E isso tudo porque nós, mulheres, decidimos enxugar o choro e lutar. Que fique claro que foram as mulheres, as imigrantes, as mães solteiras e as muçulmanas que deram início a este movimento. Essa revolução é feminina desde a sua origem. A marcha é das mulheres, pelas mulheres e por todos aqueles que dela precisarem. Porque mulher é assim: mesmo de luto, vai à luta. Avante!

Por Carol Campos
Imagem destacada: página oficial da Marcha das Mulheres em Washington no Facebook

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