Máquinas burocráticas de classificação e significação

Hoje vamos falar das máquinas de classificar da burocracia e dos significados de travestilidades e transexualidades.

Vou colocar abaixo as definições que a Secretaria de Estado da Saúde utiliza para travesti e transexual em documentos que você faz pra fazer denúncias.

Primeiro de tudo, é preciso dizer que existe a declaração de “orientação sexual” nestes documentos, e colocam as travestilidades e transexualidades como se fossem formas de orientação sexual – o que constitui já equivocidade, já que o correto mesmo, já que estamos falando em fichas de classificação, seria opor as identidades trans à cisgeneridade, e não às identidades que dizem respeito à orientação sexual.

Vejamos então os sentidos que a secretaria faz pra distinguir travesti de transexual:

“TRANSEXUAL (pessoas que nasceram com o sexo biológico masculino ou feminino, mas a identidade de gênero é o outro sexo, podendo chegar a corrigir seu órgão sexual cirurgicamente)

TRAVESTI (pessoas que nasceram com o órgão sexual masculino, mas tem identidade de gênero feminino e prática sexual ambivalente)”

Vamos falar sobre sexualidade e identidade de gênero.

Primeiro, é fundamental dizer que travestilidade e transexualidade em si não configuram orientações sexuais, o que implica dizer que: travestis e transexuais podem ter n sexualidades – incluindo a assexualidade. Dizer isso não significa deixar de considerar que muitas vezes a sexualidade é parte fundamental de como travestis e transexuais constituem suas identidades. Para muitas travestis e transexuais, a sexualidade constitui parte de como suas identidades de gênero se expressam. Contudo, para outras travestis e transexuais, a sexualidade pode não ter a mesma importância quando falamos de identidade de gênero.

Compreender esta relação entre sexualidade e identidade de gênero – em como ora são campos distintos, ora campos imbricados – é uma tarefa complexa que me parece ainda um desafio para maior parte dos discursos de militância.

Digo que se trata de um desafio porque é preciso compreender AO MESMO TEMPO que

1) travestilidade e transexualidade NÃO SÃO em si formas de sexualidade, e sim identidades de gênero;
2) identidade de gênero e orientação sexual são campos distintos;
3) identidade de gênero pode estar imbricada – ou não – na forma como as pessoas narram e constituem suas identidades de gênero, sendo que não há relação unívoca (determinista) entre a travestilidade e transexualidade e determinada orientação sexual.

Ou seja, é correto afirmar que não existe uma única sexualidade que se associa à travestilidade ou transexualidade ao mesmo tempo em que é possível falar sobre a sexualidade de pessoas trans em sua diversidade.

Agora vamos voltar às definições da Secretária de Saúde. São obviamente definições extremamente ultrapassadas, que não dão conta das formas múltiplas de identificação das pessoas travestis e transexuais e de nossas questões políticas e existenciais. Curioso notar que se associa a esta definição a sexualidade (“prática sexual ambivalente”) apenas às travestis – aliás, fiquei curiosa em que diabos de lugar a secretária de saúde foi pra poder inventar tal definição de sexualidade “ambivalente”.

Querer descobrir a travestilidade numa forma “ambivalente” de sexualidade – seja lá o que isso signifique – é um equívoco. Querer descobrir a transexualidade a partir de uma “identidade de outro sexo” – seja lá o que isso signifique – é um equívoco. Falar em “nascer com sexo” ou “órgão sexual”, neste contexto, é equívoco.
Querer encontrar definições de travestilidade e transexualidade a partir destas referências é profundamente equívoco. Querer encontrar uma pretensa diferença essencial entre travestilidade e transexualidade nestes termos é em si também equívoco.

Precisamos entender que não há efeito de fechamento absoluto de sentidos sobre as identidades de travestis e transexuais. Precisamos entender que existem diferenças históricas entre travestis e transexuais, mas tais diferenças, por serem históricas, não são essências que poderiam ser encontradas nas sexualidades e identidades dos sujeitos.

Isto porque as forma como nos identificamos (ora como) travestis e (ora como) transexuais podem ter, em determinado contexto, muito mais semelhanças do que diferenças. E as diferenças nós articulamos como forma de visibilizar especificidades políticas, não essências de ordem da sexualidade ou da psicologia individual.

É preciso entender que existem muito mais semelhanças entre travestis e transexuais do que se costuma acreditar; ao mesmo tempo, há muita diferença que é de fato ignorada, pois se trata aqui não de diferenças a nível de identificações individuais, mas sim diferenças que tem relevância na representação política.

Quando se tenta diferenciar a travesti da transexual por meio de um discurso que pretende chegar a uma verdade escondida da psicologia/sexualidade do indivíduo, estamos ignorando quais diferenças de fato importam.

Por Beatriz Pagliarini Bagagli
Imagem: “Becoming An Image Performance Still No. 4” de Heather Cassils, via WideWalls

 

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