Eu dispenso a “união” e a marcha das mulheres

Neste sábado*, espera-se que centenas de milhares de mulheres cheguem em Washington, D.C., para a Marcha das Mulheres, uma reunião que destina-se a enviar para a nova Administração (de Donald Trump) a corajosa mensagem: “os direitos das mulheres são direitos humanos”. Mais de seiscentas “marchas irmãs” acontecerão no mesmo dia em todo o mundo, tornando esta a maior demonstração anti-Trump até hoje.

A Marcha se identifica como interseccional. Seu comitê nacional, estadunidense, que inclui Angela Davis e Dolores Huerta, é diversificado, certamente. E a plataforma de propostas destaca as experiências e necessidades dos muitos gêneros e das mulheres de cor. No entanto, há uma grande diferença entre a plataforma política “radical” dos organizadores e a forma como a marcha se desenrola nas ruas. As respostas das participantes após uma das organizadoras do eventos ter publicado um comunicado sobre diversidade no Facebook diziam coisas como “Nenhuma mulher, não importa de que raça, é privilegiada”“Esta divisão tem que parar”, disse outra mulher branca, dizendo ainda: “Eu vou marchar. Espero que algum dia tenhamos unidade antes que seja tarde demais”. Até mesmo a questão do aborto tem sido uma fonte de divisão.

Estes comentários são apenas uma pequena amostra, mas demonstram como chamados para criar “unidade” podem servir para novamente silenciar as mulheres mais vulneráveis. Em vez de provar erradas nossas dúvidas, pedidos por unidade sugerem que muitas das mulheres brancas marchando irão descartar nossas demandas e gaslight mulheres de cor até que elas pensem que são o problema. O livro de Judith Butler Problemas do Gênero: Feminismo e Subversão de Identidade é uma das muitas críticas da “unidade”; como explica Butler, assumindo uma “unidade” pré-existente entre mulheres falhamos em reconhecer as relações de poder e sistemas de opressão que nos separam.

Ao invés de “princípios de unidade”, proponho um conjunto de “princípios de diálogo” porque Marcha das Mulheres devem ser um começo, e não o fim de uma conversa. Como Jamilah Lemieux, com razão, pede às mulheres não-negras nesta marcha: estamos dispostas a fazer um pedido formal de desculpas às mulheres negras por nossos crimes contra elas? Estão as organizadoras da Marcha dispostas a abordar seus fracassos, tal qual terem removido a cláusula em favor das trabalhadoras sexuais nos seus princípios de unidade? Antes de considerar “união” com mulheres brancas, eu preciso de respostas:

  • Eu preciso saber que quando Trump vier para cima da minha família em situação irregular, estas mulheres vão literalmente colocar seus corpos na linha de frente por nós.
  • Eu preciso de um contrato. Uma declaração. Uma declaração assinada. Isso me assegura que quando a merda bater no ventilador e as vidas de nossas irmãs pretas, muçulmanas, não-documentadas e nativas estiverem em perigo, as mulheres brancas serão as primeiras a estar lá.
  • Eu preciso saber que as mulheres brancas entendem que elas (e suas mães e as avós) votaram no Trump.
  • Preciso que mulheres brancas reconheçam que muitas de nós têm lutado durante toda a nossa vida. O racismo não é novo para nós e nunca foi uma resistência opcional.
  • Além marchar por um dia, eu preciso que mulheres brancas se comprometam com a luta contra o ódio e a opressão em todas as suas formas ao longo da vida.

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“O feminismo branco foi construído nas costas de mulheres de cor”
Foto da Marcha das Mulheres Washington, via AFROPUNK

Unidade, se é para ser alcançada e mesmo que essa seja uma meta a ser buscada, só pode acontecer se essas conversas ocorrerem antes. As mulheres de cor estão entrando nesta conversa a partir de um lugar de raiva e traição, feridas pela violência recorrente que enfrentamos nas mãos de nossas “irmãs” brancas. Vamos ser as que mais sofrem como resultado das escolhas que uma maioria de mulheres brancas fez em 8 de novembro. Este é um processo doloroso e antes que o tema da “unidade” possa ser abordado, queremos provas de que as mulheres brancas estão do nosso lado.

Unidade não pode ocorrer até que demonstrem que a promessa seja demonstrada. Sem isso, eu fico a imaginar se as mulheres que tomam as ruas no sábado estão fazendo isso por solidariedade real ou apenas para algum teatro de auto-felicitação de aliados. E porque há uma chance realmente grande de que o último ocorra, eu vou ficar em casa este sábado.

*21/01/2017, data da Marcha das Mulheres

Artigo de Barbara Sostaita, originalmente publicado em inglês no site Feministing.
Imagem destacada via Femifesto 
(tradução: “Vejo vocês, caras mulheres brancas, na próxima marcha #VidasNegrasImportam, certo?“)

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