A quem serve o mito da agressividade da mulher negra?

Eu estou exausta. Cansada e com muita raiva. Acho que tenho estado cansada desde tão tenra idade que antes mesmo de me entender enquanto uma mulher já era um ser humano absolutamente exausto. Cansada e calejada aos 18 anos como se eu tivesse 60. Aos 28 anos sinto que as coisas pequenas e cotidianas na vida de uma mulher negra são tão massivas e destrutivas que é surpreendente ainda estar viva. Mas estou. Não morri e sigo os dias vivendo de raiva.

Não sou a primeira, tampouco serei a última mulher negra, a expressar o quanto de raiva tenho carregado em mim. Chimamanda Ngozi Adiche, no seu já lendário discurso no TedX Euston fala sobre raiva, existem textos milhares de ativistas negras com o mesmo sentimento, vídeos, músicas, vivências. Temos todas as razões do mundo para ter raiva, mas nenhuma de nós, nenhuma de nós agride ninguém com as raivas que carregamos. Atribuir agressividade à uma mulher negra é uma falácia, um mito. E hoje, com toda a raiva que me é inerente, que tá inscrita em cada célula do meu corpo, escrevo sobre o mito da agressividade da mulher negra.

Escrever é a minha única saída. A ferramenta que tenho. Compartilhar meus escritos é a única forma de expressão que me é possível. Se eu soubesse tocar um instrumento faria canções, se eu soubesse atuar imprimiria minha raiva nos meus personagens, se me fosse possível articular a raiva em verso faria poesias com raiva. Mas não sou artística, então traduzo em prosa o que me corroí a alma e machuca tão profundamente que as vezes me impede de dormir.

Eu geralmente sou chamada de agressiva quando alguém não tem condições de desarticular algum argumento ou pensamento que eu apresento. A pecha de agressiva é quase sempre vocalizada por homens, especialmente por homens brancos em alguma posição hierárquica superior a minha que se sentem desconfortáveis por eu me permitir discordar deles. Ou tentar demonstrar que eles não compreendem sobre tudo no mundo e não são o repositório da verdade universal. A agressividade se apresenta como uma deslegitimação. Ao atribuir “agressividade” a fala de uma mulher negra, você a desumaniza. É uma estratégia sexista caracterizar mulheres dessa forma.

No geral, mulheres localizadas em espaços que não são socialmente construídos para elas é que vão sentir como essa caracterização da agressividade enquanto depreciação é na realidade uma ferramenta para lhes retirar a credibilidade. A raiva, nesse discurso, exerce o papel de desvalorização das potencialidades dessas mulheres porque ela vem acompanhada de uma ideia de ausência de auto-controle.

Em “Sejamos Todas Feministas!”, Chimamanda explicita de forma didática como a perpetuação desse estereótipo de agressividade é uma forma de manter mulheres, especialmente mulheres negras, controladas. Naquilo que chamamos de “devido lugar”. Reproduzo aqui parte do texto para ilustrar o que digo:

“A raiva,o tom dele dizia, não cai bem em mulheres. Uma mulher não deve expressar sua raiva, porque a raiva ameaça. Tenho uma amiga americana que substituiu um homem num cargo de gerência. Seu predecessor era considerado ‘um cara durão’, que conseguia tudo;[…] Ela assumiu o cargo, e se imaginava tão dura quanto o chefe anterior, mas talvez um pouco mais generosa[…]. Em poucas semanas no emprego, ela puniu um empregado por ter falsificado a folha de ponto — exatamente como seu predecessor teria feito. O empregado reclamou com o gerente sênior, dizendo que ela era agressiva e difícil.”

O mito da agressividade da mulher negra vem me perseguindo há muitos anos, mas ele se tornou mais presente conforme fui avançando na minha militância. Eu estou muito longe de exercer uma posição de poder. Tenho plena consciência da mulher que sou: inteligente, bem articulada, justa, solidária e absolutamente carinhosa. Não nego carinho, ombro, conforto e ajuda para ninguém. Nunca. Nas situações mais espinhosas da minha vida, fui capaz de suprimir as minhas próprias dores para ajudar o outro a suportar as suas, a pensar uma estratégia para superar adversidades ou inesperados.

Ainda assim, convivo diariamente com as consequências do mito da agressividade da mulher negra. As pessoas, constantemente, dizem que tem medo de mim. Sempre que alguém diz que tem medo de mim fico surpresa. Medo exatamente de que?

Depois de um certo tempo entendi de onde vinha esse suposto medo. É o medo branco. O medo de uma sociedade em que as mulheres negras como um todo sejam capazes de articular mudanças a partir de suas raivas. Logo, ao imprimir essa ideia de agressividade nessas mulheres, como uma característica depreciativa, a sociedade não permite que se fomente consciências que sejam capazes de mobilizar a totalidade das raivas das mulheres negras para subverter a ordem. Porque temos raivas sociais.

Temos raiva do número de mulheres negras que morrem em razão do racismo, temos raiva da falta de acesso a educação para o povo negro, temos raiva dos estereótipos violentos sobre os nossos corpos, temos raiva de ter nossas potencialidades limitadas por construções sociais excludentes. Nossas raivas são genuínas e catalisadoras de mudanças tamanhas que são capazes de alterar profundamente a ordem das coisas. Portanto, são deslegitimadas por essa imagem tacanha de uma agressividade sem razão.

 

Assim, para todos vocês que me perguntam “para que tanta raiva Winnie?”, eu respondo :

Tenho raiva para ser capaz de suportar a exaustão. Tenho raiva para ser capaz de continuar resistindo, tenho raiva porque vivo numa sociedade em que eu tenho que ser milhares de vezes mais esforçada do que uma pessoa branca medíocre para alcançar 1/3 do que ela alcança sem esforço algum. Tenho raiva porque minhas ancestrais foram sexualmente violentadas pelos ancestrais de muitos de vocês que hoje compartilham o mundo comigo, e elas continuam silenciadas. Tenho raiva porque sei que hoje mulheres negras são estupradas em seus locais de trabalho e nada podem fazer a respeito porque serão deslegitimadas.

Tenho razões infinitas para ter raiva, você é que deveria se questionar por que você não tem raiva das mesmas coisas que eu.

Por Winnie Bueno
Imagem destacada: Nicki Minaj no VMA de 2015, MTV

Comments

Comentários