Vibremos com as conquistas de mulheres negras como se fossem nossas

Acordei e uma chuva de mulheres negras comemorando a presença da mestre em filosofia política, feminista negra e escritora Djamila Ribeiro no programa “Amor & Sexo” da TV aberta.

Todas orgulhosas e sentindo-se bem representadas por ela, que abordou, estrategicamente e de forma didática, temas que nos são caros: machismo e racismo. Coisas que o povo precisa ouvir, precisa saber e não podem ficar apenas nos círculos daqueles que já sabem.

Estar na TV aberta, que deve respeitar diversidade de um povo, já que atua através de concessão pública, é um direito. As críticas que se fundamentam com “capitalismo não se desconstrói, mas se apropria das pautas dos oprimidos” só podem ter o objetivo de subestimar, para além de ser um tipo de crítica que não direcionam quando homens brancos de esquerda ocupam esses lugares, o que tornam tais críticas em racista e machista.

As redes sociais são importantes, pois parecem mais democráticas, mas não alcançam a maioria que precisa tomar conhecimento de tudo que se é falado sobre os temas mencionados. Primeiro porque tem muita gente (!) que sequer sabe usar a internet como ferramenta de pesquisa, não sabem pesquisar e também não sabem por onde começar, mas a TV aberta é muito mais acessível e culturalmente faz parte do entretenimento da maioria da população e não é à toa que exerce grande poder no quesito formadora de opinião do povo. Diante de todos os fatos que estão acontecendo e levando o país para um buraco sem fundo, aceitar estar na maior emissora de TV do país, emissora essa considerada golpista, é um ato de coragem.

Djamila e as outras mulheres que participaram do programa não foram lá falar de futilidades, não usaram a visibilidade que elas têm para virarem casaca. Usaram uma coisa chamada estratégia, visto que são intelectuais, não apenas acadêmicas mas também orgânicas, que não têm como objetivo deter o conhecimento apenas para si mesmas, mas disseminá-lo para quem precisa. Poderia ter sido qualquer uma de nós, que também estamos na luta, mas a gente sabe que isso é impossível, e devemos estar felizes em saber que algumas de nós se propõem a estar lá, passando o recado da forma magnífica, didática e eficiente, contrapondo os estereótipos negativos que feministas carregam nos ombros historicamente. A esquerda branca e machista hi-happy, escolheu seus homens brancos classe média alta e ricos para os representarem, num movimento óbvio de proteção dos privilégios que passam de mãos em mãos.

Djamila e as feministas que participaram do Amor & Sexo usaram uma coisa chamada estratégia, visto que são intelectuais que tem como objetivo disseminar conhecimento.

Nós, mulheres negras, indígenas, transexuais, lgbts, etc, temos nossas mulheres, devidamente ascendendo nos espaços com muita luta e vencendo as barreiras sociais impostas. Se a Djamila e outras feministas estão num palanque, se na Globo, se nas redes sociais, se nas mesas de debates em eventos no Brasil e no mundo , eu sinto que estou lá também. Sem estratégia jamais conseguiremos derrubar um esquema implementado desde 1500 aqui.

Admirar quem tem estratégicas honestas, coerentes , plenamente admissíveis e legítimas, é o mínimo que podemos fazer. Já pensou que sua chefia, que é machista e racista com você , sequer perde tempo entrando em redes sociais para ler mulheres negras? Mas já pensou, nossa chefia, sentada no sofá de casa e pensando “vou assistir esse programa “Amor & Sexo” hoje pra distrair a cabeça”, leva da Djamila Ribeiro um soco no estômago à distância e fica “Que?”.

Sem estratégia, nenhuma batalha pode ser vitoriosa.

É isso pessoal!

Não dá pra gente esfregar os textos da Djamila e de outras negras incríveis na cara dos machistas e racistas que convivem com a gente no trabalho, na família e em todos os espaços, mas ela fez isso em cadeia nacional num programa que muitos acham sem pretensão alguma e pegou desprevenida toda essa gente que ainda não foi alcançada pelos textões de redes sociais. Sem estratégia, nenhuma batalha pode ser vitoriosa. E se, por algum motivo, a escolheram para falar de nossas pautas, num programa já dito sem grandes pretensões nesse sentido, vamos apoiar a Djamila e as outras mulheres historicamente excluídas dos espaços de visibilidade, não desestimular.

Ela é mulher, negra, feminista interseccional, mãe, irmã, mestre em filosofia política e que talvez nunca tivesse imaginado que algum dia teria tanta projeção, se considerado o país racista e machista em que vivemos. Sejamos felizes pelos espaços que ela e outras estão ocupando e nos representando positivamente.

E a cada uma que conseguir chegar onde elas estão chegando, de forma honesta, fiquemos felizes e realizadas também. Obrigada, Djamila e a todas que deram nosso recado em rede nacional.

Por Laura Astrolabio, Preta, Carioca, Aquariana, Feminista internacional, Advogada especialista em Direito Público na UCAM e Pós graduanda em Relações Étnico-raciais pelo CEFET/RJ, e Joice Berth, Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa. Feminista.
Imagem destacada, enviada pela autora, via Geledés Institudo da Mulher Negra

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