O patriarcado é um sistema de dominação

Até há pouco tempo atrás, eu desconhecia o real significado do termo patriarcado. Para mim, essa palavra significava apenas “uma família centrada na figura do patriarca”, assim como existiriam famílias centradas na figura de matriarcas. O que eu não sabia é que uma matriarca, nessa sociedade em que vivemos, só pode assumir esse posto na ausência de um patriarca, nunca antes. É preciso, muitas vezes, haver uma ausência crônica de homens para que uma mulher assuma cargos de alta confiança.

Sempre que eu pensava nas desigualdades de gênero, havia alguém que atirava o argumento de que os homens dominam em algumas áreas sim, mas as mulheres dominam em outras. Um exemplo clássico que sempre surgia era: olha só as escolas primárias. Você não vê um professor nelas. Só há mulheres, desde a moça da cantina, a merendeira, até a diretora. Por anos a fio, eu aceitei esse argumento como sendo uma verdade universal.

Mas então, fui finalmente apresentada ao movimento feminista com a Primavera das Mulheres em 2015. Esse movimento, até então, era um ilustre desconhecido. Eu já tinha ouvido falar e sempre tinha me considerado feminista. Mas somente com uma mente aberta para novas informações e para o questionamento é que pude, finalmente, ser acolhida por um corpo dessa magnitude para aprender conceitos fundamentais que as maioria das mulheres desconhece. Conceitos que são escondidos de nós propositalmente para manter o status quo da classe dominante: a dos homens. Conceitos como “homem-explicanismo“, “gaslighting“, “homem-interrompismo”, “broderagem” e “cultura do estupro“, entre muitos outros.

Muita gente ainda não acredita que os homens são a classe dominante na nossa sociedade. Eu custei a compreender. Somente o questionamento promove a elucidação. Eu, como jornalista, deveria saber. Quando se faz as perguntas certas, você chega a uma epifania. Se é fato que as escolas primárias são povoadas, principalmente, por mulheres, o mesmo não se pode dizer das posições de poder. As que tomam as reais decisões.

Basta um olhar mais profundo para enxergar a dimensão do problema. Quem dá aulas no ensino primário? Mulheres, na maioria. Quem está nos cargos de direção dessas escolas? Mulheres, na sua maioria também. Mas quando subimos um pouco mais a hierarquia, já enxergamos as discrepâncias, que se tornam alertas gritantes quanto mais alto for o cargo. Acima da diretora, quem está? A secretaria de educação. Embora o corpo bruto possa mesmo ser composto majoritariamente por mulheres, no cargo de secretário estarão vários e muitos homens. Quem está acima do secretário? O prefeito. Que sabemos muito bem, na maioria dos casos, será um homem. Temos poucas prefeitas. Acima de prefeito? O governador. Quanto mais alto o cargo, menos mulheres. Acima do governador? Presidente. Sabemos também muito bem a quantidade ínfima de presidentas até agora no mundo. Ainda dá pra contar nos dedos das mãos.

Representatividade faz diferença. Mas ter mulheres conscientes do sistema patriarcal em altos cargos decisivos é de fundamental importância para que políticas que beneficiem de verdade as mulheres sejam finalmente cogitadas e postas em prática. O sistema patriarcal não está restrito a um núcleo familiar. Está impregnado em todos os setores. Embora invisível, às vezes, nas camadas onde se situam quem põe em prática as políticas elaboradas, ele é forte e domina completamente as posições que legislam e que, portanto, decidem a nossa vida como a classe reprodutora e do sexo. Vide as medidas de Trump contra o aborto que estão afetando ações a nível mundial.

O patriarcado é um sistema de dominação. Ele domina toda a sociedade ao ocupar os cargos que possuem maior capacidade de decisão. Cargos que a sociedade inteira respeita. Enquanto não questionarmos profissões, cargos e locais onde só entram homens, e que não possuem motivos óbvios para excluir mulheres, não haverá mudança.

Porque, veja bem, há locais que deveriam ser exclusivos para pessoas que possuem capacidade reprodutiva como as mulheres e nem estes estão a salvo da presença masculina. O patriarcado tem um sistema de vigilância muito eficiente. E também possui ferramentas que procuram iludir as dominadas para quem pensem que possuem escolhas. Não há escolha sem informação, e se você não sabe que existe uma classe dominante e outra dominada, você não está informada.

Por Andreia Nobre
Imagem destacada: da página da Anticandidatura de Beatriz Vargas ao STF. Saiba mais

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