Estrelas Além do Tempo

Acabei de chegar em casa depois de ter assistido “Estrelas Além do Tempo” (tradução tosquinha para Hidden Figures), numa sessão especial para convidadas. Primeira coisa a dizer sobre a sessão: tinham mulheres negras entre as convidadas, um número significativo de ativistas negras de Porto Alegre, ainda que a maioria das mulheres presentes a sessão fossem brancas. Mulheres negras que assim como eu furaram algumas barreiras impostas pelo racismo e são referências nas suas áreas de atuação. Muitos rostos queridos e conhecidos, que fiquei muito feliz de ver, mas acho sinceramente que esse filme merece uma outra sessão especial.

Uma sessão especial com mulheres negras professoras da rede estadual que estão com seus salários atrasados e cortados, mulheres negras das periferias, mulheres negras quilombolas, jovens negras estudantes secundaristas de escolas públicas. Esse filme tem a capacidade de acalentar o coração dessas mulheres, como acalentou o meu. E esse filme tem a capacidade de mostrar de forma bastante didática para mulheres não negras a forma com que o sexismo, as barreiras impostas pela condição de gênero, criam adversidades ainda maiores quando elas estão misturadas de maneira tão homogênea com o racismo. Logo, recomendo fortemente que as mulheres não negras assistam também. Aliás, assistam e convidem uma mulher negra para ir com elas. (Convidar implica em pagar o ingresso e a pipoca, fica a dica).

Posso resumir o filme com uma única palavra: sensacional.

A atuação impecável das maravilhosas Taraji P, Henson, Janelle Monáe e Octavia Spencer conduz, com extrema sensibilidade, a trajetória dos até então desconhecidos e ocultados nomes de Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson, três mulheres negras incríveis que foram os cérebros envolvidos no sucesso da corrida norte-americana pela conquista do espaço.

Ver na tela do cinema a trajetória de três mulheres negras que foram cientistas da NASA me emocionou muito. Muito de ir às lágrimas. Muito porque ali estão narradas trajetórias ocultas de muitas mulheres negras que tiveram suas potencialidades intelectuais tolhidas pelo racismo. Ou que então não tiveram seu brilhantismo reconhecido também em razão do racismo. Essas três mulheres vão ser mundialmente conhecidas agora, em 2017, mas seus feitos datam da década 60, momento da segregação racial material nos USA.

O que é visto no filme, as adversidades que essas mulheres enfrentam em razão da sua cor de pele, apesar das diferenças todas entre os conflitos raciais nos Estados Unidos e aqui no Brasil, não são tão distantes em tempo e espaço do que mulheres negras enfrentam ainda hoje no Brasil. Cientistas destacadas não são mais obrigadas a segurar sua vontade de urinar até o limite para poderem desenvolver seus trabalhos com eficiência, mas as poucas cientistas destacadas que temos lidam com o constante questionamento sobre suas capacidades por serem negras. São também descredibilizadas por mulheres brancas da mesma forma demonstrada no filme.

Das três, a única que viveu tempo suficiente para ver seus feitos internacionalmente reconhecidos foi Katherine. Imagino que ela deve ter sentido muito orgulho dos seus feitos e de suas irmãs, que organizaram suas reivindicações para ter direito a utilizar o mesmo banheiro, os mesmos espaços de refeições, as mesmas instalações que pessoas não negras na NASA.

No filme, a quebra de paradigmas raciais no interior da NASA é mostrada numa perspectiva “white savior” (n.e.: “o branco salvador”). Mas isso não é exatamente ruim; não é porque mostra uma lição para branquitude também, uma lição sobre o que fazer com os seus privilégios: quebre-os. Rompa com eles. Os destrua.

O que fazer com os seus privilégios? Quebre-os. Rompa com eles. Os destrua.

Mas essa não é, nem de longe, a mensagem do filme, pelo menos não para mim. O que levei de Hidden Figures, para além da vontade de rever pelo menos mais umas quatro vezes o filme, é a certeza que somos especiais, que os limites que nos são impostos são articulados para que permaneçamos anônimas, porque a branquitude sabe, a branquitude tem total noção que ao assinarmos nosso nome na história nos tornamos gigantes.

Não deixem de assistir, é muito bom se ver no cinema resistindo ao racismo sem ser caracterizada como uma escravizada que a todo tempo é violentada. É muito bom tratar de racismo sobre uma perspectiva em que nossas lágrimas não sejam reflexos da angústia com a violência que os nossos passaram, mas lágrimas de reconhecimento que somos capazes de fazer coisas espetaculares pelo mundo ainda que o racismo insista em querer nos impedir.

Por Winnie Bueno
Imagem: divulgação

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