O Brasil encantado

O Brasil encantado não tinha ódio. Era um país tropical, bonito por natureza e constantemente poético e carnavalesco. No qual as pessoas dão seu jeitinho com ginga, se abraçam e exercem empatia, não furam filas e ajudam o próximo. O Brasil encantado é o país que a patroa doa as roupas que não quer mais para a empregada, que é considerada um membro da família, que a filha dela pode brincar com os filhos da patroa e que vai estudar longe assim que eles crescem e há qualquer vago sinal de paixonite. O Brasil encantado é este país místico, um país de paz e do futuro grandioso sempre tão prometido. O Brasil encantado não conhece o ódio, tem médicos formados que zelam pelo bem público, apesar de serem todos brancos e da elite. O Brasil encantado vai pra Miami e pra Europa nas férias, manda os filhos pro intercâmbio, tem escolas que funcionam por preços “módicos” e pais que não param em fila dupla.

Do lado de cá da ponte, existe o Brasil real.

O Brasil real foge da pobreza, estigma relegado a povos explorados, sequestrados ou dizimados (se nativos). O Brasil real tem chuvas tropicais que alagam e fazem perder casas inteiras nas periferias e favelas por aí. O Brasil real define como vagabundo e sem força de vontade pobres, pretos e índios explorados.

O Brasil real te olha desconfiado se você é uma preta em loja de grife. O Brasil real tem segurança te perseguindo em loja se você é preto. O Brasil real é o de madames furando fila de táxi, de banco, de cinema, ao ver que você é negra e se indignando se você reclamar. No Brasil real, a empregada é praticamente da família, mas come em prato diferente e só na cozinha, sua filha tem que ficar presa no quartinho dos fundos, que não cabe nem a própria em pé (que dirá duas) e atender sempre com “sim senhora” (sinhá era o quê?). O Brasil real é o país do “bandido bom é bandido morto”, “se fizeram isso é porque mereceu”, “se preto não caga na entrada, caga na saída”, “suas nega”, “pretinho folgado!”. O Brasil real é o país de marchinhas de Carnaval estereotipadas, reforçando simbolicamente o negro como motivo de riso.

O Brasil real criou cursos de Direito e Medicina aqui, apenas para aliviar as contas da classe alta do país que tinha que passar pelo trabalho de enviar seus filhos para a Europa e, assim, garantir demanda para uma nova classe média que surgia. O objetivo era que, formados, tivessem seus próprios escritórios. Numa falsa democratização, mantém preços altíssimos para garantir que negro ou indígena algum se atreva. O Brasil real é o país em que você vê médicos chegando atrasados em todas as consultas na rede pública, “tiveram imprevistos”, mas estão com a cara inchada do jantar do dia anterior. O Brasil real é o país de médicos que, quando passam pelo sistema público, tem nojos de pacientes, ridicularizam humildes, fazem vídeos de pacientes dopados e enviam para grupos de amigos, parentes para garantir boas risadas.

O Brasil real é o país que uma médica, achando que está sendo simpática e empática com você ao lamentar sua perda gestacional, comenta que há uma “cracuda” tendo “a porra do quarto filho pro governo ficar pagando auxílio” e sem nenhum constrangimento. O Brasil real acha que escola pública é depósito de futuro bandido e, portanto, não precisa de investimento. O Brasil real quer reduzir a maioridade penal e acha que o exército tem que entrar no presídio e “matar tudo logo”.

O Brasil real não tem amor. O Brasil real é raivoso e violento. Lava sangue como se tira tinta. E constrói muro de encantamento temporário.

Temporário sim. Porque a violência que alimentam, uma hora alcança.

Por Juliana Borges
Imagem destacada: Bob Donask/Folhapress via band.uol.com.br

Comments

Comentários