Feminismo branco e negro: será que é a mesma luta?

Mulheres brancas são privilegiadas. Apesar de sofrermos as consequências diárias do machismo, que julga nossos corpos, nossas atitudes, nosso ser e estar, ainda assim, somos privilegiadas.

Eu não imagino como é ser uma mulher negra e periférica, mas eu sempre tento me colocar no lugar delas. Sabe, quando um homem negro aparece com uma mulher branca, todo mundo acha normal, ele “ascendeu”. Quando uma mulher negra está com um homem branco, é claro que ela é interesseira (isso foi uma ironia). A mulher negra da periferia é abandonada pelo homem e pela sociedade. Apesar dos programas sociais e de termos muitas meninas negras entrando na universidade, é só olhar para as mães delas: subempregos como diaristas, no salão fazendo pé e mão e ganhando mixaria, fora que muitas abandonadas pelos maridos ou com marido preso.

Imagina só você crescer num ambiente em que todo mundo fala que tu não tem futuro, que você não vai conquistar nada? Além disso, tem o mundo lá fora da favela né, tem aquele mundo onde você coloca uma roupa e já sabem de onde tu vem, porque “pretinha vagabunda” tem de monte né (olha a ironia de novo). Já foi no Centro de SP na Virada Cultural, que é quando a periferia toma conta da rua? Ali dá pra ver de longe quem é e quem não é. Bloco de rua a mesma coisa. A menina negra da periferia também quer se divertir mas fora da favela ela é atração, é vagabunda, é a que o cara pega pra comer e tchau, imagina só o playboy ficar com a “neguinha” (mais ironia).

Pausa. Se coloca lá. Se você nunca viveu na periferia tudo bem, só lê com cuidado e se coloca ali, trabalhando e estudando com 14 anos pra ajudar a mãe solteira a cuidar dos irmãos. Isso no raso. Tem muito mais, mas deixa só essa parte aí.

Agora vamos lá: existe um movimento, dentro e fora da internet, para empoderar mulheres negras. Sabendo dessa realidade da mulher negra e da periferia, hoje há grupos que praticam a valorização do negro como elemento social. E isso é algo muito bacana.

Bom, tudo isso posto, eu vou fazer um questionamento aqui: será que é a mesma luta?

Será que, em vez de falar “lutamos igual”, não estaria na hora de a gente virar e falar “luto por você”?

Porque a luta da gente não é individual, eu não luto por mim, eu luto para que essa menina da periferia saiba que ela pode muito mais, que o cabelo dela não é impeditivo para nada, que a dança dela não faz dela nada além de uma menina que gosta de dançar…

Será que não é a hora da gente entender que, por ser mulher branca, tem privilégios e que a luta das mulheres negras não é diferente da nossa mas é muito maior?

Não dá pra gente parar de atacar o que as mulheres negras falam e deslegitimar a luta da outra e que vire uma luta NOSSA, de todas, ao contrário de uma segregação e uma divisão?

Porque é um feminismo diferente. Não adianta chorar: é um feminismo diferente. Então em vez de a gente julgar o delas, não era melhor dar a mão e falar “eu te entendo, eu te apoio, eu não vou te julgar”? E aí parar de questionar “quando é racismo” se uma mulher negra falou que é e “quando é apropriação cultural” se uma mulher negra falou que é?

Vamos exercitar a nossa sororidade de verdade.

Você quer um feminismo que não seja dividido? Então primeiro aprenda a ouvir, aceitar e praticar o desapego de privilégios e a desconstrução da opinião como argumento.

E, por favor, vamos fazer isso juntas.

Por Carol Mancini
Imagem destacada: Loïs Mailou Jones — Revolution of Race

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