Rita, a professora anarquista

Quando comecei a assistir Rita, confesso que comparei um pouco com Merlí, por causa do enredo “professor diferentão”. Mas a série catalã me deu nojo do protagonista que se acha o garanhão da galáxia — quem, na verdade, não respeita ninguém, nem o próprio filho que calhou de ser seu aluno.

Porém, não é sobre essa série que quero falar e sim como Rita é muito da maravilhosa, ainda mais pensando na atualidade da educação que precisa urgentemente mexer na forma como ensina.

Um dado importante: eu tenho fascínio por seriados e filmes que fogem do eixo EUA-Inglaterra. Geralmente, as histórias que chegam até o Brasil de circuitos alternativos são sensacionais, tanto que o cinema-tv norte-americano adora fazer suas versões “mamão com açúcar” quando percebe o sucesso de fora.

Sendo assim, a informação que faltava pra me fazer olhar as três-temporadas-em-sequência era o país de origem: nesse caso, Dinamarca. O mais legal? Eles não falam inglês e sim sua língua nativa, o dinamarquês. Apaixonei, sim ou com certeza?

Mesmo tendo tido vontade desde o primeiro episódio de escrever sobre Rita, eu não sabia ainda o que dizer. Decidi, então, assistir toda a primeira temporada para ver se as ideias clareavam. O plano deu certo, só que eu já vi os 24 episódios. Não trabalhamos com limites por aqui, amor.

Pensa em uma mulher que não obedece nenhuma regra que não faça sentido para ela mesma. E não, ela não vive de herança, nem fica sem homem ou amigos. Ela apenas é sincera consigo mesma.

Porém, o que eu senti vendo essa mulher, professora, mãe, amiga, amante foi uma espécie de complexo de vira-lata — ou seja, ela não encontra referencial histórico para sua autoestima. Rita é uma pessoa que se importa mais com os outros do que consigo mesma. Aprendeu que a sua vez de andar no escorregador nunca chega, mas que sempre haverá espaço para comprar briga pelo território. E que não importa o que faça, ela é um problema.

Nesse caso, não ter autoestima não quer dizer que ela não se ame, quer dizer que ela não sabe ser amada. Ela tem uma vida sexual ativa, reconhece sua beleza, mas não deixa ninguém se aproximar demais. É como se ela não se permitisse ser feliz, como se sentisse que não merece.

Me encanta como ela consegue ser tão prática com relação aos filhos. De todas as mães que eu já conheci, nenhuma abria mão do drama ou chantagem para conseguir atenção. Rita opera no sentido inverso: ela ouve, entende e aceita. O que mais ela poderia fazer com seus filhos adultos?

A única vez que a vi se posicionar de um jeito mais controlador foi quando um dos filhos veio com a notícia de se tornar pai. Para ela era uma decisão muito importante, e, com razão, questionou se era isso mesmo que o casal queria. Veja bem, ela expôs a opinião dela — de uma maneira bem severa, inclusive — mas quando o filho disse que era aquilo que queria ela sorriu e parabenizou-o. Sem drama.

Acho essa relação deles tão leve. A filha quis ir pra Índia passar um período sabático — “boa viagem”. O caçula resolveu ir morar com o namorado — “se não der certo você pode voltar pra casa”, apenas. Talvez seja essa mais uma desconstrução que ela possui, a da mãe pentelha-possessiva.

Quanto ao amor, sabe que existe, mas não como se encontra-conquista-constrói. Em um looping de auto boicote, o sexo sempre surge como acesso rápido ao prazer. O exercício poderia se tornar uma conexão que desencadearia em um relacionamento, mas ela nunca deixa chegar a tanto.

Fugir vem antes de permitir.

Sabe quando uma pessoa evita tretas de qualquer jeito? Pois é, é como se Rita quisesse simplificar as coisas não falando sobre elas e é ai que as tretas se escondem. Por exemplo, ao não saber o que o fuck buddy pensava a respeito do que eles tinham juntos ou não deixando o boy do sexo casual do bar falar quem ele era— o pai de uma aluna — ela semeava a multiplicação das tretas. Percebo que muito poderia ter sido evitado se ela não estivesse na vibe “não quero mais problemas na minha vida” o que resultava no contrário do seu desejo.

Através de um conto infantil para a turma da 2a série do fundamental ela explica de forma lúdica como se tornou quem é. O fato de sua mãe tê-la deixado para se “realizar, palavra que os adultos usam para explicar que só pensam neles mesmos” — explicação que deu a uma aluna — revela o desprezo que a persegue.

Do pai pouco fala. Ela o representa na história para os alunos como se fosse um ogro. Por essa razão, ela também seria metade ogra e que para se sentir “completa”, precisaria se relacionar com alguém da mesma espécie. Ou seja, um homem que não a tratasse bem e que, provavelmente, ela não amasse.

E foi o que aconteceu. Para os filhos é difícil ouvir a própria mãe dizer que “não amava o ex-marido”. Imagino que não seja fácil ouvir que tu não nasceu de uma relação de amor. Mas quem disse que todo mundo vem ao mundo desse jeito? Quantas são as crianças que nascem indesejadas, com o propósito de salvar relacionamentos ou até pelas mães não saberem que tem outra opção?

Desconstrução poderia ser sinônimo desse seriado que toca em muitos problemas. Relacionamentos, sexo, drogas e o maior de todos: educação. Rita não deixa pedra sobre pedra. Sempre irônica e aproveitando os erros de repetição dos professores, ela ensina empatia sem respostas prontas.

Sabe quando dizem que crianças não mentem? Rita também não, mesmo que isso a magoe ou a quem ela gosta. Talvez seja um jeito de procurar equilíbrio nessa vida. Ela não vê sentido em não ser verdadeira o tempo todo, o que gera confusão no mundo dos adultos.

Se tem algo que logo fica de lado na vida-dos-boletos é a sinceridade. Na busca pelo que aparenta felicidade — sucesso, dinheiro — é como se as pessoas destruíssem o pouco que resta do lado criança, que sonha, fala o que pensa, luta pelo que acredita e chora quando se machuca.

E o único relacionamento que ela conseguia aceitar que fosse saudável, nem esse se manteve por muito tempo. Logo os filhos foram crescendo e como ela mesma disse, “começaram a perceber tudo que ela fez de errado”.

Pesado foi ver a filha Molly descobrir sozinha ser disléxica. A cobrança vem junto do diagnóstico: como uma mãe professora não percebe isso? Ou melhor, como uma mãe professora poderia perceber?

Nesses momentos de crise, onde não há espaço para comunicação, ao invés de tentar entendê-los, aproximá-los, ela afasta os filhos com um ultimato em formato de promessa: “vou tentar ser normal”.

Se ela fosse realmente “normal”, tivesse reproduzido o comportamento descuidado de sua mãe, provavelmente seus filhos não fossem tão fantásticos como ela mesma diz.

Ela nunca quis ser normal, mas pelos descendentes ela está disposta a se esforçar. Sabe que sempre será “estragada”, como Ricco, filho mais velho a percebe e, por mais incrível que pareça, também se vê. Não ser normal é ter defeitos, algo que a família de Rita sempre demonstrou com sinceridade.

Quem sabe por isso ela tenha sido funcional. Afinal, se não é a verdade que aproxima as pessoas o que seria? A busca por um mundo mais superficial? Desconfio que não.

Outros dois pontos muito importantes são abordados no seriado: educação tradicional e aborto.

Primeiro, gostaria de expressar meu espanto em como uma escola pública em Copenhague é melhor que as particulares brasileiras. Eu sei que estamos falando de uma ficção, mas suas referências vem da vida real.

Como toda escola tradicional, um de seus maiores objetivos — depois de ensinar as matérias para entrar no ensino superior — é criar um ambiente onde as crianças aprendam a conviver em sociedade. E o que isso exige? Que todas sejam normais, ou seja, sem diferenças.

É decepcionante ver como há esforço para excluir e não entender alunos com dificuldades em fazer parte desse sistema. Se você não se esforça para ser igual aos outros não é bem vindo nesse espaço que deveria celebrar as diferenças. Afinal, até onde eu sei, em lugar nenhum as pessoas são iguais — mesmo quando elas se esforçam pra ser.

Entende-se que, falando de uma escola pública, não há investimento a mais para esses alunos que demandam mais atenção. Mas aí sobra de novo para Rita, que compra a briga e praticamente se muda para a escola tentando ajudar essas crianças a alcançarem os resultados esperados pela sociedade.

Como se não bastasse, há ainda a demanda dos pais. Ao ser pressionada sobre por que tinha se tornado professora, após um tempo de análise, Rita chega à conclusão de que era para proteger os filhos de seus progenitores. Se tem algo que assusta no seriado é o comportamento dos adultos.

Acho que o melhor exemplo dessa relação parental é a cena em que a amiga de Rita, Hjørdis, pede aos alunos do ensino infantil para colocarem em uma caixa que seria enterrada por 10 anos o que eles mudariam em suas vidas. Uma das crianças coloca um Ipad. A professora fica preocupada, pergunta se os pais sabiam que ela estava com o aparelho. E a menina responde muito decidida, que os pais dela não paravam de usar os gadgets e era isso que ela queria que fosse diferente.

Por fim, a questão do aborto. Tem um momento em que Tom, ex-namorado de Rita comenta que ser pai-mãe é uma escolha. Ai toca meu alerta mental de país de primeiro mundo: na Dinamarca sim, onde o aborto é uma decisão da mulher e não do estado.

Sem querer dar muito spoiler, acontecem dois abortos na história: um de uma mulher e outro de uma adolescente. Para quem não está familiarizado com o tema, já adianto: nenhum deles foi comemorado com fogos de artifício ou gerou a consequência de usar o método como contracepção — maior idiotice que ouvi na vida.

Acredito que as duas mulheres que passaram por esse momento viverão para sempre com essa decisão. Em uma das histórias o pai queria o filho, na outra não. Nos dois casos as mulheres decidiram sobre suas vidas e dos fetos que estavam carregando. Também importante salientar, mesmo que o homem queira muito ser pai, não é no corpo dele que uma criança se desenvolverá por 9 meses. Portanto, é fácil dar palpite no corpo alheio a respeito de uma experiência que este nunca carregará.

Bem como Rita afirma, escolher não ter um filho é pensar nele também. No caso, no que seria dele ao crescer sem pai, sendo criado por uma adolescente de 15 anos, que teria o suporte da família se essa fosse sua decisão — o que, convenhamos, nem todo mundo tem.

Ver um seriado tão próximo da realidade faz a cabeça entrar em estado de análise. Mesmo Copenhague tendo uma saúde pública que pensa nas mulheres, elas não estão protegidas de sofrerem. Ninguém está. Pelo menos por lá o governo se importa com suas vidas.

Rita desconstrói o que é esperado de uma mãe, mulher, amante, professora — o que a torna, de um jeito sofrido, uma das personagens mais humanas das séries de TV.

Por Gabriela Teló, originalmente publicado no medium da autora e reproduzido aqui com sua autorização. 

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