A mulher que nasceu de mim

Eu nunca quis ser mãe. Nunca tive vontade de cuidar de outro ser a não ser de mim mesma. Acho que a gente
não sente muita falta daquilo que não tem, ou não quer repetir velhos padrões. E por mais que minha mãe tenha me dado tudo que um ser humano necessite para se desenvolver (e agradeço muito por isso), eu e ela não tínhamos um relacionamento propriamente bom. Logo, eu não pretendia ter filhos.

Casei relativamente cedo, e nunca havíamos conversado sobre filhos. A unica coisa que meu marido sabia era que eu não queria, não tinha planos. Quando minha menstruação atrasou – o que não significava nada, pois eu nunca fui regular – fiz um teste de farmácia por desencargo de consciência, e lá estavam as duas listras azuis afirmando que eu não estava apenas grávida, mas super grávida. Mais propriamente de seis semanas. Foi um desespero da minha parte. Marido desesperado por me ver desesperada. Eu realmente não esperava, não tinha planos, não queria. Mas ela veio. Atrevida como só ela. E veio mulher, pra que eu nunca mais fosse a mesma.

Minha filha foi um divisor de vida. Eu posso dizer que quando ela nasceu, a Fernanda morreu. Eu sempre fui forte. Eu sempre fui teimosa e cabeça dura. Mas eu não era quem eu sou hoje.

Eu não sei nem explicar em qual momento, depois que ela nasceu, que minha ficha caiu e me vi mãe, que as coisas mudaram. Não foi aos poucos. Apesar do gênio forte e difícil (que não significa nada quando você não tem motivos pra ser assim, ou é assim por conta de traumas passados), eu era pudica, preocupada, e muito preocupada com bobagens. Complexada até o ultimo fio de cabelo. “Sou baixinha, meu nariz é grande, não tenho dinheiro”. Bobagem atrás de bobagem. E ela veio. Dessa pessoa tão cheia e ao mesmo tempo tão vazia. E veio dizendo “querida, se liga que o que importa agora é você. Porque você tem que se cuidar pra cuidar de mim”.

Eu me tornei outra. Me tornei outra mulher. Eu não me reconheceria se me visse desse jeito há 10 anos. Toda e qualquer bobagem perdeu importância. Não foi apenas amadurecimento. Foi o amadurecimento na vida. Foi acordar pra mulher que eu sempre quis ser, mas por besteiras eu nunca tinha sido. É uma força tão poderosa que dá pra entender direitinho porque que a sociedade patriarcal exclui e impõe regras de condutas à mulher-mãe: a mãe que percebe seu poder enquanto mulher, não apenas para o seu filho, mas para o mundo e para si, se torna uma força da natureza. Lamentável que poucas entendam sobre esse poder todo, que isso perca a importância, que você seja só mais uma “parindo e balançando Mateus”. Porque ser mãe vai muito além de cuidar uma criança (aliás, nem precisa ser mãe pra isso). Ser mãe é se perceber perante o mundo.

Essa é minha experiência, e estou escrevendo porque falei sobre isso hoje, de como tudo isso aconteceu e eu quase não me dei conta. Escrevo em gratidão. Gratidão pela mulher que minha filha fez eu parir de mim. Eu não poderia ser mais feliz, por amá-la e por me amar. E por sempre querer melhorar, por mim, por ela e por nós.

Por Fernanda Dalveira
Imagem destacada: detalhe de Mother and Daughter, por Paul Robinson

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