Please Like Me e o poder da amizade

Se um dos objetivos de existir da Netflix for manter pessoas que amam seriados próximas de sua paixão, posso afirmar que está dando certo. Dito isso, apresento-lhes Please Like Me, um dos “novos” seriados distribuídos pela plataforma. Ou seja, a Netflix não produziu a série, como em muitos outros casos, mas permitiu que todo mundo que tem internet pudesse acessar histórias de canais que antes estavam ao alcance apenas de seus públicos locais. Falo isso porque, com Please Like Me mais uma vez navegamos na beleza de produções fora do eixo EUA-Inglaterra. Esta é uma série australiana digna de seu inglês apressado. E o protagonista, Josh, é além disso quem escreveu essa comédia-drama deliciosa.

Confesso que olhei o primeiro episódio e achei o protagonista chato. Não sou obrigada a assistir uma pessoa que não se emociona com nada na vida, então parei de assistir. (Falou aquela que ama um drama…#teamshondarhimes). Mas uma amiga minha começou a ver, e se apaixonou. Eu ainda estava meio bêbada de Rita, com minhas expectativas para novas séries lá no topo, o que me fez não aceitar de primeira a ideia de que poderia ficar melhor. Porém, como todas as séries, Rita terminou e eu precisava de um novo sotaque na minha vida.

Resolvi dar mais uma chance para Please Like Me. Abri a Netflix e quando eu vi que só tinha assistido o piloto fiquei um pouco decepcionada com a minha falta de persistência. Olhei o segundo episódio e fui emendando até o fim. Simples assim.

Se bem me lembro, Josh começa a série com 20 anos. Quando ele diz a idade e tu olha para o rosto do ator é fácil lembrar que na TV ninguém costuma ter a idade que representa. Mas aí vem o protagonista com todo o seu humor rápido e inteligente, explicando que, mesmo não parecendo, ele tem aquela idade. Achei totalmente pertinente essa consideração.

A primeira temporada tem como foco principal o fato de Josh estar encontrando a sua orientação sexual. Por anos ele namorou a melhor amiga Claire que, por fim, era mesmo sua melhor amiga. Nada além disso.

Mesmo sendo uma pessoa muito tranquila foi difícil para ele aceitar a homossexualidade. O maior medo não era como o pai iria reagir e sim sua mãe, que estava passando por uma forte depressão. Porém, o que me chamou atenção foi que “the gay thing was not a thing” (“o assunto gay não era um assunto”), focando o enredo na autoestima da personagem.

Josh não se considera muito bonito. No começo da série aparece ele na sua jacuzzi em casa com vergonha de entrar nela sem camiseta. O primeiro namorado é mais bonito que interessante para o personagem, tanto que eles terminam e voltam algumas vezes. Uma mistura de medo de ficar sozinho com nunca mais pegar alguém gostoso minou a cabeça do jovem.

É interessante prestar atenção nesse medo de ficar sozinho. Geoffrey — nome do boy — foi o primeiro namorado de Josh. Ele praticamente esteve sozinho no relacionamento, pois o protagonista estava muito preocupado com todas as questões de sua nova vida sexual. Não sabia exatamente se gostaria do sexo gay, pois nunca tinha experimentado. E depois que tenta, fica inseguro se alguém além de Geoffrey iria ter interesse pelo seu corpo. Com o tempo o protagonista vai aprendendo a prestar mais atenção nos seus sentimentos e a ouvir de verdade o que as pessoas estão dizendo. O que me afastou no começo da série foi, também, o que me fez ficar, pois adoro ver um amadurecimento.

Outro tema apresentado foi a coexistência “saudável” de família e amigos. Josh mora com o melhor amigo Tom e o doguinho fofo John. O espaço que eles dividem é muito interessante, pois é compartilhado por jovens, mas não deixa de ter rastros de casa de vó. Cheia de quadros, móveis antigos, muitas cores, bibelôs e por ai vai, mesmo assim é como se houvesse um equilíbrio entre todas as informações. Talvez isso aconteça porque a casa era do pai de Josh e nenhum dos demais personagens tem muito dinheiro para transformá-la. Ainda assim, o protagonista tem um gosto interessante por móveis e decorações que simbolizam o antigo. Em um de seus aniversários ele ganha um relógio cuco e fica felicíssimo, então a decoração não ficou tão distante da realidade dos moradores.

Josh se divide entre diversas responsabilidades. Com a mãe doente, ele passa um tempo morando com ela, mas não consegue levar para o novo endereço sua vida sexual. Então, a casa que divide com Tom é, basicamente, onde tudo acontece. Além do espaço passar essa sensação “família”, Josh ama cozinhar. Tanto que geralmente as aberturas são belamente comemoradas com ele na cozinha, cantando a música do seriado. Volta e meia há reuniões pela casa para comer seus pratos elaborados que nunca se repetem. Acho tão lindo isso. Como o amor pela comida de uma pessoa aproxima todo mundo que passa pela vida dos personagens. As namoradas que Tom teve comeram e choraram naquela mesma cozinha. É como se fosse uma volta às raízes, mas de um jeito mais leve, onde ninguém é obrigado a sentar à mesa se não quiser.

As namoradas que Tom teve comeram e choraram naquela mesma cozinha.

Não posso deixar de comentar sobre o dia em que Tom e Josh decidiram comprar pintinhos. Yep, eles construíram um galinheiro para três galinhas: Beyoncé, Adele e Shakira. Sério! Até rolou uma discussão sobre como não tinha nada a ver Beyoncé participar desse trio e azar. Acho que nunca vou esquecer da cena em que todos estão na cozinha comendo uma espécie de ensopado da galinha Adele, que no final era macho e teve que ser sacrificada por alguma razão que eu não entendi. Talvez por ela-ele cacarejar todas as manhãs e ter se tornado um problema, além do fato de que eles provavelmente fossem ter que lidar com uma granja no quintal. A forma que eles encontraram para celebrar a vida do animal que se tornou sua refeição foi tão delicada. Como são ateus e não costumam rezar, Tom começou a cantar “Someone Like You” da Adele, que se tornou o tributo mais inesperado e honesto que já vi em seriados.

Por outro lado, as mulheres que fazem parte da história, de modo geral, possuem o que podemos chamar de comportamento pró-feminismo. Mae, a namorada tailandesa do pai de Josh, não perde a oportunidade de fazer um certo “bullying” com Alan, para lembrá-lo que ele não é tão maravilhoso quanto imagina. Até a ideia de amor romântico esse casal desconstrói um pouco. Alan resolve pedir Mae em casamento sem perguntar para ela — porque, como mandam as regras, tem que ser uma surpresa. Ele aluga um balão, chama Josh para ir junto como “testemunha” e faz o pedido. Mae fica muito feliz com o anel lindo, o passeio de balão, mas a resposta foi não.
Alan ignorou apenas o fato de que Mae nunca quis se casar. Inclusive, ela fala para ele: “você sabe que eu nunca quis me casar”. Mas parece que ele achou que ela não teria como negar um pedido tão elaborado – que contou até com a vinda dos pais da não-noiva da Tailandia — com direito a sermão por ela não querer se apegar a caprichos sociais.

Recordando momentos feministas, Tom teve uma namorada muito maravilhosa chamada Ella, que faz ele acordar pra vida depois de um relacionamento abusivo. Mas acho que o ponto alto foi quando Claire decide fazer um aborto e pede se Josh pode ser seu acompanhante. Lembrando que estamos falando da Austrália, onde o aborto é um direito da mulher, algo que é muito bem lembrado por Claire na porta da clínica. O que me chama atenção na cena é que a primeira consulta que a personagem faz é sozinha, por insistência do lugar. Depois ela conta que essa burocracia era para ter certeza que Josh, como seu acompanhante, não estava ali para forçá-la a fazer um aborto. Achei isso tão “país de primeiro mundo”. Uma clínica que faz aborto pensa em todos os cenários que envolvem o procedimento? Me senti, mesmo de longe, protegida.

Os pais de Josh também são muito presentes em sua vida, mesmo sendo divorciados. Acho muito legal como Alan se envolve com a vida do filho, ligando, querendo saber como ele está, se preocupando com seu futuro. Eu entendo que isso não é nada além do mínimo que se pode esperar de um pai, mas bem sabemos que essa fórmula não funciona muito bem na vida real. Com a mãe diagnosticada com bipolaridade, a relação familiar se torna parte do dia a dia de Josh. Tanto Alan quanto Rose, a mãe, ligam para o filho para contribuírem com suas doses de drama, o que faz tudo parecer muito vida real.

Please Like Me não perde o tom ao falar de homossexualidade, aborto e bipolaridade.

Mesmo tendo muita comédia, Please Like Me não perde o tom ao falar de homossexualidade, aborto e bipolaridade. Estar próximo de Rose possibilita entender um pouco o que passa pela cabeça de quem sofre da doença. Como é difícil lutar contra o desejo de parar de tomar remédio, por saber que é ele o que a torna funcional, mas que será uma espécie de prisão para a vida toda. As relações que Rose constrói por causa da doença também são muito sensíveis e fazem parte da vida de todos. Pensando bem, acho que não há essa divisão entre família e amigos: todos são família. Todos acabam sabendo de um jeito ou de outro o que cada um está passando e o mais importante, conseguem conviver juntos, respeitando ou não as individualidades.

É encantador ver como Tom, Josh e Claire conseguem conversar sobre absolutamente qualquer coisa. Provavelmente seja isso que passe a sensação de realidade offline, pois não interessa a opinião de quem não está ali. Eles são abertos a novos membros, na maioria das vezes vindos de relacionamentos de um deles, mas não sem antes passarem por algum constrangimento que o trio não faz questão de evitar. Se tem algo que Please Like Me poderia nos lembrar é que não importa quantos amigos temos. Sabemos como é traiçoeira a vida digital baseada em números e blá, blá, blá, mas só quem tem — ou não — grandes amigos sabe como a amizade funciona na vida real. E o mais especial disso tudo é que ela não é do mesmo jeito pra todo mundo.

Por Gabriela Teló, originalmente publicado no medium da autora; versão minimamente editada reproduzida aqui com sua autorização. 

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